ÈSÙ (Exu)


O ENCONTRO COM O DECANO DOS ÒRÌSÀ

           Certa ocasião, quando fui levar oferendas aos meus ancestrais[1] e antepassados[2], defrontei-me com Èsù, seminu, acocorado em uma elevação frente ao local onde as oferendas seriam entregues.

A princípio, espantei-me. Para dizer a verdade, tive até medo, pois jamais havia imaginado ficar frente a frente com uma divindade materializada. O frio na espinha deixou-me estatelado, não consegui andar mais. Lentamente me refazendo do susto, pouco depois, bem mais calmo, balbuciei: “E kú-àbò! Oba Laróiyè Èsù! Èsù mo júbà!” (Seja bem-vindo, Èsù! – Rei honroso e conhecedor de todos os idiomas, meus respeitos!).

Para minha perplexidade, Èsù respondeu-me: “Agradeço tua saudação, mas o que trazes nesses cestos?” Respondi imediatamente: “Trago frutas e cereais, juntamente com algumas iguarias, tais como: abará[3], àdalú[4], akará[5], eko[6], mulukun[7]e tantas outras. Vim oferecê-las a Olódùmarè, aos meus ancestrais e antepassados em agradecimento pelas graças alcançadas”. Aproveitando o encontro, tirei de um dos cestos a oferenda reservada para Èsù, oferta esta que o decano de todos os òrìsà’s aceitou deveras contente.

Quando terminei a entrega das oferendas, retornei ao caminho de volta para casa, todavia, ao passar pelo local onde estava Èsù, este se colocou de pé a minha frente, abriu a sacola (akalambì) que trazia consigo atravessada ao tórax, retirou do seu interior um papiro e disse-me: “Revela para todos os seguidores da tua religião o que está escrito neste manuscrito”.  A curiosidade foi tamanha que ali mesmo diante de Èsù desenrolei o papiro e comecei a ler em voz alta o que estava escrito.

“Há 500 anos, aproximadamente, foi iniciado o tráfico de escravos do continente africano para as colônias da América. O desentendimento tribal proveniente da ganância entre alguns descendentes de Òdùdúwà promoveu guerras internas, que enfraqueceram as milícias africanas. Este último fato fez parte do estratagema da obsessiva conquista européia. Os bárbaros europeus, com a organização das sociedades africanas em desequilíbrio, invadiram, conquistaram e escravizaram, ceifando mortiferamente todos que se opuseram aos seus mandos e desmandos em prol de sua cultura e religião.

         Os que não foram assassinados na luta ou na fuga tiveram os corpos atados a grilhões de ferro e jogados nos porões das naus. Muitos dos que foram feitos prisioneiros morreram doentes no interior dos navios negreiros, outros pereceram provenientes dos maus tratos durante a travessia do oceano e um número incontável suicidou-se jogando-se ao mar. O sofrimento era intenso.  Os traficantes de seres humanos eram bestas-feras. Alimentavam-lhes com sopa e angu “a dar com o pau”, pois os negros com saudade preferiam morrer de fome.

         A resistência daqueles que aqui chegaram cativos era algo inexplicável para os traficantes.  Essa relutância fortaleceu os negros cativos, fazendo-os manterem na mente, no corpo e no sangue a religiosidade dos seus ancestrais. Eles eram heróis. Concomitante ao tráfico negreiro, eu, Èsù, o princípio dinâmico, a expansão, o Decano dos Òrìsà’s, o Primogênito do Universo, o fruto da relação entre o ar e a água, a mola propulsora da humanidade, fui desonrado, degradado e corrompido pelos teólogos do racismo.

         Durante séculos, muito sangue foi derramado inocentemente. Incontáveis atos desumanos foram praticados. Sinceramente, não sei quantos manuscritos seriam necessários para registrar todo o sofrimento do africano feito escravo. Enfim, após inúmeras preces e súplicas, uma luz de candeeiro surgiu em 1888 – A Lei Áurea.

          O negro deixou de ser propriedade do branco!

A Lei Áurea libertou os negros das algemas de ferro, entretanto não os desprendeu dos grilhões da discriminação racial, da intolerância religiosa e do preconceito social.   Após a sua promulgação não houve espaço em nenhum lugar para o negro. O racismo, a intransigência religiosa, a proibição do negro à sociedade, tudo isso é definido por um sentimento que se chama Medo. Mesmo assim, com o passar dos anos, os negros, às ocultas, continuavam a adorar Olódùmarè e a venerar seus ancestrais deificados. Os escravos libertos encorajados pelos espíritos dos negros mortos começaram a estruturar o culto aos seus antepassados. Aflorava desta maneira em solo brasileiro a religiosidade dos Òrìsà’s. E eu, o próprio desafio, a vontade e a irreverência que permitem ao ser humano a quebra de qualquer interdição, voltei a ocupar o posto de Mensageiro das Divindades, o mediador, a interligação entre o profano e o sagrado. Olódùmarè seja louvado!

          Com o passar dos anos, as impressões deletérias a mim impostas foram esmorecendo. Nesse meio tempo, foi instituído, em solo brasileiro, um importante e belíssimo segmento religioso que recebeu o nome de ‘Umbanda, cujo propósito maravilhoso é implícito em seu próprio nome, que significa: ‘A Arte de Curar’. Infelizmente, tempos depois, alguns dos seus seguidores, desviando-se totalmente do intento da mesma, mesclaram-na a diversas crenças, inclusive ao Culto aos Òrìsà’s. Esses dissidentes ao fazer essa mesclagem inseriram-me a bel-prazer em seu contexto, arremessando-me novamente à degradação, ao me imputar epítetos satânicos e assimilar-me ao demônio cristão. Tornei-me para eles o rei do inferno, o diabo, ser com chifre e rabo. 

          Posterior ao advento da ‘Umbanda’, consolidou-se no Brasil o segmento religioso denominado Omoloko, que significa: ‘Filho do Dono da Fazenda’, nome em alusão ao Òrìsà Oko – Padroeiro da Agricultura.  Essa confraria inteligentemente aglutinou em seu contexto ensinamentos da ‘Umbanda’, ritos do culto aos Nkisi’s da nação de Angola e dos Òrìsà’s da nação Nagô, excluindo apenas as liturgias destinadas aos Vodun’s do Djedje.  Desafortunadamente, alguns dos seus partidários desconhecedores da essência desses cultos, juntamente com outros seguidores do Candomblé, rito afro-brasileiro, totalmente desinformados da Religião dos Òrìsà’s, passaram a me chamar de escravo, catiço e/ou diabo do santo. Se isso não bastasse, esses partidários fizeram altares em meu louvor (assentamentos) e neles colocaram pedra de enxofre, terra de cemitério, terra de mangue, alça de caixão de defunto, lixo de lojas comerciais, pó de estabelecimentos bancários e tantas outras sandices.    

          Essas pessoas desconhecem ou esqueceram por conveniência que eu, Èsù, a representação masculina que nunca foi humanizada, sou chamado de Elégbára, Légbá ou Légbára, aquele que possui ou é o dono da força. Os atributos, poderes e representações que possuo me foram conferidos pelo Supremo Criador Olódùmarè. Sou um ser contido, faço parte da formação do Cosmo. Não posso ser assimilado a seres devolutos, ou espíritos desencarnados quer seja do sexo masculino ou feminino, que em vida trilharam caminhos à margem da lei.  

           Sou um ‘ser anos-luz’, portanto, não devo ser confundido com espíritos erradios. Não são meus os atributos conferidos a seres desencarnados que, por ventura dizem ter sido assassinos e/ou assassinados, dançarinas de cabarés, donas de bordeis, meretrizes, mundanas, nômades, quando esses estiverem manifestados em seres humanos vivos.

Basta! Légbára é um dos meus nomes. Sou Yangí, a 1ª Estrela Criada”.

          Assim que acabei de ler o manuscrito, senti alguém bater na sola dos meus pés.  Era um dos meus filhos dizendo:

          “Bàbá mi, Oba Aláàiyé ma sùn o!” (Oba Aláàiyé, meu pai, acorda!).

         “Bàbá mi, ki ni i o wi i?” (Meu pai, o que estavas dizendo?).

         “O se o! Ojúran wà” (Que pena! – Eu estava sonhando).


[1]  Segundo a concepção nagô yorùbá, refere-se aos ancestrais consangüíneos.

[2] Segundo a concepção nagô yorùbá, refere-se aos ancestrais não consangüíneos.

[3] Espécie de pequeno bolo preparado com a massa proveniente da trituração do feijão-fradinho. É temperado com camarão, pimenta e cebola, depois envolto em folha de bananeira a cozinhar em água.

[4]  Mistura de grão-de-bico com feijão-fradinho temperada com camarão, cebola e azeite de dendê.

[5]  Espécie de pequeno bolo preparado com a massa proveniente da trituração do feijão-fradinho (algumas das vezes temperado com camarão e cebola). Põe-se a fritar no azeite de dendê. Corruptela: Acarajé.

[6]  Comida feita com a farinha do milho branco (manjar branco).

[7]  Mistura de feijão-fradinho temperada com camarão, cebola e azeite de dendê. Corruptela: Omolokum.

Bibliografia:

PENNA, Antonio dos Santos

Mérìndilogun Kawrí  – Os Dezesseis Búzios.
ISBN 978-85-902226-4-4

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