Èsù – O Mais Controvertível dos Orixás

OBA LARÓYÈ ÈSÙ – ÈSÙ MO JÚBÀ

Minhas Considerações ou Meus Respeitos ao Rei.

O Intérprete de Todos os Idiomas.

Èsù

Divindade primordial – Primogênito do Universo

O Princípio Dinâmico.

Pais Místicos: Yèyébírù e Òrunmìlà.

Èsù é a Expansão. Componente da formação do Cosmo. O fruto da relação do ar com a água.  Primeira estrela criada – “Yangí” – “Ser Ano Luz”. 

Èsù é a representação masculina que nunca foi humanizada.  A mola propulsora da Humanidade – Ser Contido. Aquele que possui ou é o Dono da Força. 

Èsù é a vontade e a irreverência. Decano dos Òrìsà e Mensageiro (Òjíse ebo) de todo os ebora e òrìsà. O Porteiro do Infinito. O Próprio Desafio. 

Èsù é o intérprete de todos os idiomas. Òrìsà que permite ao ser humano a quebra de qualquer interdição, enfim, a interligação entre o profano e o sagrado. 

Èsù também chamado de ElégbáraLégbára ou Légba, que significa: “Aquele que detém a força, o poder, a autoridade e habilidade”. 

Èsù é uma divindade do fogo. Diz-se na África que é representado por uma grande explosão em face de ser o primeiro “Ser Criado”. É o elemento de comunicação do universo, por isso é associado aos órgãos da fala e ao órgão genital masculino.  É uma das divindades mais respeitada e temida nos cultos aos “Imólè” ou “Ìrúnmólè” (Seres de Luz). 

Èsù é a representação da esperança, da justiça e da ordem. Em face dessa concepção, é ao mesmo que recorremos quando estamos prestes e já perdemos a esperança. Nesse parâmetro, Èsù é para os iorubas a sustentação da vida quando a mesma está por um fio. 

Èsù é um Òrìsà aguerrido e furioso tal qual uma tempestade. Essa característica lhe originou o epíteto de “Èsù òtá láirí ènia” (Èsù inimigo invisível do ser humano). Move-se tal qual um redemoinho. É quem concede a estabilidade e vice-versa.

Os Dezesseis Múltiplos Nomes (faces) e Funções do Òrìsà Èsù.

1 – Èsù Yangí – Representação do magma terrestre. A primeira criação, a laterita vermelha (o magma).   O principio de tudo. 

2 – Èsù Àgba ou Arúgbo – Representação da ancestralidade. Maturidade ou pessoa idosa. (Èsù Igbá + Arúgbo = Bárúbo ou Barábo). 

3 – Èsù Igbá Keta – Representação da grande cabaça (planeta Terra). 3º aspecto de Èsù. 

4 – Èsù Òkotó – O dono da evolução. O caracol. Responsável por toda a ligação entre o àiyé (terra) e o sànmá (infinito), conseqüentemente, entre o profano e o sagrado. 

5 – Èsù Obasìn – “O Rei que conduz”.  Tido como o líder/pai de todos os Èsù.  Companheiro de Òrunmìlà. 

6 – Èsù Obará – “Aquele que satisfeito com as oferendas, trás felicidade a quem o ofertou”. 

7 – Èsù Òjíse Ebo – Encarregado de fiscalizar as oferendas e levar os pedidos e súplicas a Olódùmarè. 

8 – Èsù Elérù – Encarregado de levar as oferendas dos iniciados (erù = bagagem, carrego + pin = final “erùpin”). É evocado quando da retirada do carrego do solo e do transporte do mesmo até o local determinado pelo oráculo. 

9 – Èsù Enugbáríjo – “A boca coletiva” – A representação da devolução/retorno das graças alcançadas através das ofertas. 

10 – Èsù Bara – Forma abreviada de Oba = rei + ara = corpo “Èsù Rei do Corpo”. Representação da individualidade dos seres. Òrìsà evocado quando da realização de “Borí”.

11 – Èsù Olòná – O dono de todos os caminhos. 

12 – Èsù Olòbè – O dono da navalha ou faca. È o òrìsà reverenciado quando da iniciação de um noviço.

13 – Èsù Elébo ou Elépo – Aquele que recebe em primeiro lugar todas as oferendas ou O dono do óleo de palma (azeite-de-dendê).

14 – Èsù Odùsó – O guardião do tabuleiro de Ifá.  Aquele que interpreta o oráculo para os àdìfá, álùfá, àràbà, bàbálàwo e olùwo. É aquele que vigia o consultor do oráculo para que ele não minta para o consulente.

15 – Èsù Ijèlú – “Aquele que vive entre o céu e a terra”.  Ligado aos quatro pontos cardeais. É evocado quando da pintura do Orí (cabeça) do noviço com wájì.

16 – Èsù Iná – Dono do Fogo – É o primeiro nome a ser evocado em todos os rituais, quer seja, L’esè egún (aos pés de dos antepassados) ou L’esè òrìsà (aos pés dos ancestrais consangüíneos ou dos espíritos que participara da formação do cosmo). 

A múltipla forma de Èsù Idósù é quem permitirá com seu òbe (faca), a abertura do caminho do (a) noviço (a) de sua vida interior e, como patrono do “òsù” (tufo de cabelo), permitirá a transformação, isto é, o nascimento de um novo Orí.

Outros epítetos usados quando da evocação a Èsù.

Èsù Àkásán – O Dono do Mercado – “Aquele que tira vantagem”.  Nome de uma localidade onde existia um grande mercado (Mercado de Àkásán – Ojà Àkásán) na cidade de Òyó quando do reinado de Sàngó. Também chamado por Èsù Akesán

Èsù Alálú ou Olálú – O Dono da Cidade.

Èsù Aláketú – Senhor de Ketú

Èsù L’Òde – Aquele que está do lado de fora.

Èsù Burúkú – Aquele que faz ou possui o mal.

Èsù Sigidi – Estátua confeccionada com argila ou madeira. Existe a crença que após a mesma ter sido consagrada a Èsù Burúkú passa a possuir poder de proteção, vingança ou castigo quando se fizer necessário.

x=x=x=x=x=x=x=x=x

ORIXÁ EXU – A PRIMEIRA PEDRA 

A BASE DA TRADIÇÃO                                                                                                    

Em face de Exu estar intrinsecamente ligado à fertilidade masculina e de ser o responsável pela ereção peniana, o elemento Gim[1](Otí-Olójé), que é a bebida representativa da força do sêmen masculino e de representar a transformação da matéria homem e mulher[2], foi ao mesmo consagrado. Em face do exposto, o gim, associado a algumas pimentas[3] (ata), tornou-se a bebida utilizada para borrifar os seixos (“okutá”) consagrados, ou para consagrá-los, no sacro ofício, fazendo com que os mesmos passem a compor, a partir do sacrifício, a transformação da matéria[4]

Em virtude de todo este complexo, Exu passou a ser chamado orgulhosamente de “Babá Okô” (Pai da Genitália Masculina) e de “Babá Ató” (Pai do Esperma). 

Segundo a tradição dos igbominas, Exu é o Justiceiro Divino (Múná Mimo), aquele que a tudo inspeciona, levando ao conhecimento de Olodumarê os anseios e os procedimentos do ser humano, retornando com benesses ou não.  Em face dessa característica, é carinhosamente chamado de “Alábojuto Láisòtún-Láisòsì Olódùmarè” (Inspetor Imparcial do Criador).

             Tudo o que existe concentra-se em um ou mais pontos, assim sendo, Exu, a primeira semente geradora, é quem nos dirá o que fazer. Assim procedendo, gera caminhos a serem tomados.

             Devemos nos acautelar com nossas palavras e procedimentos, até mesmo quando conversamos conosco, isto porque Exu, o Ser Contido, transforma nossas palavras, pensamentos e procedimentos em energia pura, trazendo de volta em forma de prazer ou infortúnio.

              Cada ser humano possui sua própria mente. Cada ser que existe possui em seu interior um Exu. Esta é a força interior que irá transformar os desejos interiores no seu mundo real. Exu é a mente, a razão, a mola propulsora que concebe nascer e criar, tornando possível a frutificação desta razão.

             Por ser a “Primeira Estrela Criada”, Exu é assentado em uma pedra conhecida pelo nome de “Yangí” (lava vulcânica), seixo este onde seus sacerdotes o evocarão, criando uma semelhança de tal forma que possa com ele conversar em todos os momentos, todos os dias e horas, fisicamente e mentalmente, criando com o mesmo uma associação. 

Todo ou qualquer iniciado deve ter ciência de que, a partir do momento da sua consagração, o seixo (okutá) do seu orixá individual passa a possuir força viva, potência esta que não deve ficar parada. Caso o iniciado abandone este contato, com o passar do tempo o elo se perderá, restando-lhe apenas uma pedra[5]. 

[1]  – Aguardente de cereais e zimbro.

[2] – Zimbro é uma planta angiosperma. Em planta angiosperma o pólen das estruturas receptivas são mais óvulos, para que eles não tenham que depender de agentes externos para a polinização.

 [3] – Exemplo: “atãre”, “bejerekun”, “lelekun” etc.

[4] – Quando borrifarmos o “oti-olojê” sobre o altar de qualquer ancestral deificado (eborá), de orixá, nos rituais de iniciação ou qualquer outra oferenda (ebó), sua função é propiciar satisfação a qualquer espírito que esteja à nossa volta.  O  “oti-olojê” também tem o poder de despertar e evocar o Axé de uma divindade em seu sacrário. Dessa forma comunicamos aos orixás que estamos dedicando-lhes culto e precisamos de sua força total.

[5]  Este é o motivo pelo qual vemos altares e mais altares abandonados em casas de Culto a Orixá.

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ÈSÙ OLÙBERÈ ÀWON ÒRÌSÀ

ÈSÙ O MAIS CONTROVERTÍVEL DOS ORIXÁS

Contam os nagôs igbómìnàs que, em tempos passados, sempre ao entardecer, Èsù, entoando um cântico, dirigia-se a um próspero mercado do vilarejo do reino dos ìgbómìnàs. Lá ao chegar, sentava-se em uma cadeira ou às vezes ficava de pé, alegrando, cantando, entretendo, distraindo, induzindo a clientela a fazer apostas em jogos e contando histórias em troca de uma refeição e um trago de aguardente, conforme combinado com o dono do mercado (Oló).

Le ró o, le ró o otí l’ayò 

Le ró o, le ró o oti l’ayó 

“O indolente (Èsù) com a sua astúcia bebe alegremente sua aguardente”  

Com o passar dos meses, o comerciante, julgando já estar com uma clientela fixa, expulsou Èsù do seu estabelecimento comercial. Magoado com a desfeita, uma vez que as pessoas se acercavam do mercado unicamente por sua causa, Èsù atravessou a rua indo sentar-se numa cadeira que estava em frente ao outro empório, que por sinal estava a falir.

Durante o período em que ali ficou sentado, Èsù observou que nenhum cliente dali se aproximava, ao oposto do outro mercado de onde tinha sido expulso, que era um entrar e sair constantes. Decidido a vingar-se da ofensa feita a sua pessoa, Èsù dirigiu-se ao mercador falido (Onisòwo onígbèsè) e lhe propôs reerguer seu estabelecimento. O mercador falido retrucou dizendo-lhe: ‘Como poderei pagar-lhe tal beneficio?’ Èsù respondeu-lhe: ‘Permitindo que eu venha beber e comer graciosamente todas as noites em seu estabelecimento’. ‘Está combinado. Dou-lhe minha palavra’, disse o mercador.

Èsù, após o trato, continuou sentado na cadeira do mercado falido até o início do alvorecer do dia seguinte. Tão logo o dia começou a raiar, o ardiloso Èsù, portando uma cabaça serrada ao meio (igbá) com mel de abelha em seu interior, dirigiu-se ao mercado de onde havia sido expulso, entoando o seguinte cântico:

‘Olooyin, Olooyin o! 

Olooyin , Olooyion o! 

Èsù mõmo ayinrarè

Olooyin, Olooyin o!’ 

Dono do mel de abelha, 

 Dono do mel de abelha, eu o saúdo! 

Èsù, sábio, vaidoso.

Dono do mel de abelha, eu te saúdo!’.

Ao chegar no mercado próspero, Èsù entoando um cântico[1], derramou em frente ao mesmo um pouco do mel de abelha. Em seguida, retornou lentamente ao mercado de onde tinha vindo, espalhando pelo chão em sua direção o restante do mel de abelha. Quando Èsù chegou ao término do seu pretexto, o dia já havia clareado totalmente. Incontinente, sentou-se em uma cadeira à entrada do mercado falido e ficou observando os primeiros fregueses chegarem ao estabelecimento comercial, que ele havia tornado próspero e de lá tinha sido expulso.

Rapidamente, formou-se uma aglomeração na porta do estabelecimento, pois um dos fregueses percebeu o líquido espesso derramado na porta do mesmo. Imediatamente, um a um dos clientes resolveu seguir o indício deixado pelo líquido. Tal como Èsù planejou, o mel derramado levou todos os fregueses para o mercado de onde ele sentado os aguardava.

Ao chegarem ao local, depararam com Èsù e nunca mais deixaram de frequentar aquele estabelecimento, que se tornou próspero em curto espaço de tempo. E assim, todas as noites, após beber e comer graciosamente, Èsù cantava alegre e satisfeito para todos os que pernoitavam e gastavam dinheiro naquele empório. E quando se despedia ao alvorecer, todos os presentes o saudavam cantando alegremente:

Ogõgóro ngo Laróyè (Èsù o!)

Ogõgóro ngo Laróyè’.

‘Saudemos Èsù, o intérprete de todos os idiomas! 

Ele gosta (ou ele quer) de aguardente feita do dendezeiro’”

Ressalva: A narrativa em questão esclarece a semelhança do ser humano com o Òrìsà Èsù que, com todas as suas atribulações, contradições e procedimentos, procura jogar as cartas que possui, sempre usando de estratagemas, na esperança de ganhar todas as partidas.  Ratifica também que, quando tratamos bem o nosso semelhante, queremos ser bem tratados. Todavia, em algumas vezes, os fatos não são uniformes. A associação em questão faz crer na constante renovação da vida, que se transforma sem cessar, fazendo com que a mesma muitas das vezes deixe de ser uniforme. [2]


[1]  “Olooyin, Olooyin  o! Olooyin,  Olooyin  o!  Ojúmomo oyin báre Olooyin, Olooyin o!”(“ Dono do mel de abelha, Dono do mel de abelha, eu te saúdo! O dia vem raiando, o mel de abelha trará bons relacionamentos. Dono do mel de abelha, eu te saúdo!”)

[2] Em hipótese alguma, esta narrativa demonstra ou ratifica que os filhos do Òrìsà Èsù devam viver pelos bares em troca de bebida ou comida.

Referência Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos  – “Mérìndilogun Kawrí” – Os Dezesseis Búzios – Produção Independente – Páginas 148 e 149 – RJ 2009

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