Seré – Xeré – Apetrechos de Aganjú, Àyira e Sàngó.

RÉ 

O Xeré [1] é um instrumento musical feito de cobre com a extremidade de forma esférica contendo sementes vegetais. É uma espécie de chocalho, tocado com exclusividade [2] na Religião Tradicional Afro-brasileira para os ancestrais Aganju, Ayirá, Xangô e seus generais (kakanfó [3]). Outrora, o aludido instrumento era uma “apala” [4], cabaça essa ainda usada nos templos tradicionais da Cultura Religiosa Africana.   

A importância e o caráter sagrado do xeré são notados quando o mesmo é trazido do sacrário de Ayirá, do altar de Aganju ou do oratório de Xangô [5] para o salão de culto ou para um determinado espaço público destinado às festas públicas. O xeré deve ser trazido envolto num “Aso-ìnura” (axó inurá) [6] e sobre uma almofada ornada simbolicamente sempre com a maior reverência. Antes de ser usado, o xeré é tocado no solo por três vezes consecutivas pelo Bãlè Àyirá (Balé Ayirá) [7] ou Mògbà Sàngó (Mobá Xangô) [8]. 

Em alguns templos da Tradição Iorubá, em solo brasileiro, essa concessão também é cedida ao Òtun Oba[9], ao Òsi Oba[10] e à Ìyá Sàngó [11], que o seguram sempre com a mão direita, não podendo ultrapassar a cabeça com o mesmo, sequer tocá-lo sobre a cabeça de qualquer pessoa.

Na ausência dos componentes da Egbé Àyirá [12] ou Egbé Sàngó [13], esta função fica ao encargo do Aborè-nlá Àse [14] ou Bàbáaláàse [15]. Pode ser tocado ocasionalmente por outros descendentes do Axé que já tenham tomado posto à circunspeção do Sumo Sacerdote ou Sacerdotisa do Axé. 

Entre os apetrechos ou símbolos destinados aos ancestrais Ayirá e Xangô, existem o “oxê” [16] e o “ajerê” [17] que dizem representar, de forma simplificada, um ser mitológico carregando uma tocha acessa sobre a cabeça, remetendo-nos, de certa forma, às histórias que narram a trajetória desse ancestral e suas experiências com o fogo.  Existe também a “labá” [18], que, segundo os mitos do ancestral Xangô, era o local onde o mesmo guardava seus “èdùn-àrá” [19].

ESCLARECIMENTOS 

Segundo os nagôs igbomina, os ancestrais Àyirá, Aganjú e Sàngó são os únicos neste tópico que trazem nas mãos o “irùkèrè” [20]. 

 O “oxê” de Àyirá possui somente um gume, tendo no cabo do mesmo uma serpente enrolada ou a cabeça de um carneiro. Essa representação nos leva a sua origem e permanência em Nupê, sua terra natal. É comum vermos o ancestral Ayirá, quando da sua possessão, dançar o “alujá”, ostentanto o “Oxê” em sua mão direita, ao oposto de seu irmão Xangô e de Aganju, seu sobrinho neto, que, quando da sua possessão, dança o “aluja” ostentanto o “Oxê” em sua mão esquerda. Há de se esclarecer que, durante a dança, o “irùkèrè“ de Aganjú, de Àyirá e de Xangô fica aos cuidados dos seus sacerdotes. 

Da mesma forma, é comum vermos o ancestral Sàngó, ao dançar o “alujá”, fazer uso de sua mão esquerda imitando o lançar do “èdùn-àrá”, após retirá-lo da “Làbà”, que traz atravessada ao tórax e colocada ao seu lado direito. 

Segundo outras vertentes religiosas, o ancestral Aganjú puxa o “alujá” ajoelhado. 

Os kakanfò (generais) de Sàngó [21], cultuados no Brasil, carregam em cada uma das mãos um “Osé” de dois gumes e puxam o “alujá” com os dois braços. 

Somente os ancestrais Aganjú, Àyirá e Sàngó possuem o hábito de dançarem o “alujá” ajoelhados.



[1]   Segundo a Tradição Nagô, o som do Xeré imita o ruído da chuva. (Essa referência é pertinente ao ancestral Ayirá.).

[2]   Em terras da África, a apala é tocada para quase todos os ancestrais e orixás.  .

[3]   Generais.

[4]   Cabaça de pescoço alongado.

[5]   Incluam-se os Kakanfo.

[6]   Toalha.

[7]  Governador ou Chefe Geral da Confraria do ancestral Àyirá.

[8]  Sacerdote do Culto a Xangô.

[9]  1º Ministro.  Aquele que fica ao lado direito do Rei.

[10]  2º Ministro.  Aquele que fica ao lado esquerdo do Rei.

[11]  Na Tradição Nagô Igbomina, a Ìyá Xangô é a única pessoa do sexo feminino autorizada a fazer uso do Xeré.

[12]  Confraria de Àyirá.

[13]  Confraria de Xangô.  .

[14]  Sumo sacerdote de uma determinada confraria.

[15]  Pai que detém poder na confraria.

[16]  Machado de um só gume que é pertinente ao ancestral Àyirá. De dois gumes pertinente ao ancestral Xangô.

[17]  Cuscuzeira. Vasilhame feito de barro, cheio de furos, dentro do qual se coloca carvão em brasa.

[18]  Espécie de bolsa ou sacola de couro pertinente ao ancestral Xangô. Possui forma retangular e ornamentada com desenhos simbólicos.

[19]  Machados neolíticos, isto é, pedras do raio que Xangô lança sobre a terra durante as tempestades.

[20]  Ornamento feito com a crina de cavalo, usado pelos reis em sinal de ostentação e poder.

[21]  Àfònjá, Gbarú e Ogodó.

 

 

 

 

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