Parábola do Constrangimento

No tempo do agrupamento e centralização das cidades do reino de Igbó (igbómìnàs), existiu um caçador que atendia pelo nome de ‘Òyájú’[1] que, por sua perspicácia, tornou-se, em pouco tempo, uma pessoa admirada e procurada por todos os habitantes do reino. Todos a princípio gostavam de ouvir suas opiniões e de contemplar seus trabalhos. 

Com o passar dos anos, ‘Òyájú’ começou a mostrar sua verdadeira face. Por todos os lugares que passava ou hospedava-se, causava constrangimento ao dizer que tinha ciência de tudo que a ele contassem. Se isso não bastasse, passou a destratar as pessoas que o cercavam, mostrando desta maneira ser uma pessoa abusada e mentirosa. Tornou-se assim um ser impertinente, intransigente e indesejável. 

Certa ocasião, ao passar em frente a uma árvore consagrada às Ìyá mi eléeiye, satirizou uma das suas sacerdotisas, chamando-a de velha rabugenta. Ela apenas havia solicitado-lhe que limpasse a sujeira feita pelo mesmo, ao deixar os caroços e a casca do fruto que havia comido embaixo da árvore sagrada. 

A sacerdotisa humildemente repetiu o pedido a ‘Òyájú’ e este lhe respondeu: ‘Eu pertenço a confraria dos caçadores de Igbó!   Se tu queres este local limpo, limpa-o, tu mesma! Não parei aqui para trabalhar, e sim para me alimentar!’. A sacerdotisa retrucou-lhe, perguntando: ‘É somente isto o que tens a oferecer?’Òyájú’, encolerizado, respondeu-lhe: ‘Não te metas comigo, velha caduca!  Tu não me conheces. Não sabes do que sou capaz. Eu sou uma pessoa má!” Mediante as palavras do caçador, a sacerdotisa pronunciou-se: ‘Tuas palavras, teu destino. A essência da maldade que dizes possuir te conduzirá de hoje em diante. Tu provarás do teu próprio veneno!’.Òyájú’,  sem se preocupar com as palavras da sacerdotisa, deu-lhe as costas como resposta e seguiu viagem, deixando para trás toda a sujeira ao pé da árvore consagrada às Ìyá mi eléeiye.  

Tão logo chegou à cidade mais próxima, ‘Òyájú’ foi acometido por uma irrupção febril. Fortíssimas dores lombares fizeram com que o mesmose contorcesse pelo chão. Nenhum Onísègun (médico) do local conseguiu antídoto para as dores que acometiam  ‘Òyájú’. Sem saber o que fazer, transportaram-no imediatamente para a sua cidade natal. Logo ao chegar, solicitaram a presença do Àràbà da cidade, para que o mesmo consultasse o oráculo e livra-se o caçador  das dores que o acometiam. 

Após consultar o oráculo, o àràbà indagou-o: ‘O que fizeste de tão grave?  A maldição das Ìyá mi eléeiye te acompanha?’Òyájú’,  falso e mentiroso, respondeu: ‘Eu não fiz nada.  Juro que não fiz. É sempre assim, as pessoas me agridem e sou  quem não presta!’  O àràbà respondeu-lhe: ‘Não mais importa o que dizes. Se desejas aplacar a ira das Ìyá mi, deverás trazer-me  dois bodes, duas galinhas, quatro preás, quatro peixes, quatro obi’s, quatro pimentas de jacaré e um saco contendo boa quantidade de búzios’. Continuando o colóquio, o àràbà diz: ‘Ah! Tinha me esquecido de algo…  não fizeste nada, é apenas implicância dos outros para  contigo.  Passa bem!’   

No dia seguinte, pela manhã bem cedo, lá estava o caçador  à  porta do àràbà com todo o material solicitado para aplacar a ira das Ìyá mi eléeiye. O sumo sacerdote de Ifá dividiu todos os materiais em duas partes. Ele usou a primeira parte como sacrifício. Ordenou em seguida que o bode da segunda parte fosse abatido sem derramar sangue e desossado de forma que a sua pele pudesse ser aproveitada totalmente. 

Em seguida, o àràbà  esticou a pele do bode no chão, colocando sobre ela   o restante das oferendas. Embrulhou  tudo com a pele conforme um cadáver tivesse sido embrulhado  para o seu funeral. Enterrou no local onde dormia o caçador ‘Òyájú’. Após todo esse ritual, o àràbà informou ao caçador que deveria ir viver em outras paragens, pois  a presença do mesmo  causaria contendas, quando as Ìyá mi eléeiye descobrissem que não havia morrido. Disse-lhe também que os habitantes de Ìgbó não queriam ouvir mais suas mentiras, tampouco queriam o seu convívio. 

E assim, vítima do seu próprio temperamento maldoso, o caçador ‘Òyájú’ foi viver sozinho em outras paragens, com suas fantasias, maldade e mentiras, deixando de causar constrangimento entre as pessoas que  um dia nele acreditaram. 

“Presunção priva a vespa do mel”. 

Provérbio Yorùbá

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Mérìndilogun Kawrí” – “Os Dezesseis Búzios” – Paginas 201 e 201 – Produção Independente – Ano 2009 (Edição Revista e Ampliada) – ISBN 978-85-902226-4-4.


[1] “Pessoa presunçosa”. 

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