O Oráculo de Ifá e o Jogo de Búzios

 

Sabemos que, desde a estruturação da Religião dos Orixás[1] em solo brasileiro (início do século passado), as mulheres (escravas libertas) amparadas e incentivadas pelo interesse dos adifás e babalaôs, destacaram-se e tornaram o culto matriarcal, ao oposto do que era praticado em terras da África. Os alufás e os babalaôs tinham certeza de que o Culto aos Orixás, ao deixar de ser patriarcal, exigiria a adaptação de uma nova modalidade de consulta ao Oráculo Sagrado de Orunmilá, uma vez que as pessoas do sexo feminino, segundo o Tratado de Ifá, não podiam fazê-lo através do Òpèlè ou Ikin-Ifá, prática esta de exclusividade masculina. 

A necessidade da adaptação de uma nova modalidade oracular originou o processo de interpretação através de caracóis do tipo “gastrópodes”, também chamados de “Cypraea moneta” (cipreia-moeda). Essas conchas eram extremamente valiosas e chamadas pelos nagôs iorubas de “kauri”, sendo também utilizadas como moeda na Costa da Guiné, na África.

Essa adaptação, ainda nos dias atuais, ocasionam celeumas por parte daqueles que insistem em desconsiderar a fresta natural do caramujo (parte aberta do casco do molusco), para a consulta e leitura dos signos do destino (odus) que se apresentar no oráculo. Há também “quem afirme” que os descendentes da Aiabá Oxum têm o direito de escolher o lado que bem lhes convier para considerar como contagem, interpretação e leitura das mensagens do Odú Durô (signo que está de pé e/ou signo pelo qual o intérprete do oráculo entenderá a mensagem).  

A má interpretação do processo oracular através dos búzios, ainda nos dias atuais, ocasiona uma contradição que origina uma descrença de expressão incalculável e prejudicial a nossa religião. A interpretação errônea é motivada pelo desconhecimento do verdadeiro propósito da exposição oracular oriunda dos 16 búzios colocados no Altar de Oxum[2].  Essa elucidação se destina exclusivamente a solucionar o impasse quando da caída denominada por “Òpirá”[3], e não à face oposta da concha/búzio, para manipulação da maneira que melhor aprouver aos filhos de Oxum[4].

Essa necessidade de justificar esse tipo de manuseio dos búzios originou uma narrativa de cunho lendário[5] (autor por mim desconhecido), que nomeia Oxum a senhora do oráculo, codificando-a como uma ancestral de procedimentos escusos.  Ainda segundo a interpretação da obra por “algumas pessoas”, os descendestes de Oxum são autorizados a manusear os búzios quando da consulta oracular da melhor maneira que lhes convir.

A seguir é transcrita essa lenda que narra o álibi que a Aiabá Oxum utilizou para furtar de Exu o conhecimento do Oráculo de Ifá.  

A LENDA DOS BÚZIOS 

“Conta a lenda que Oxum possuía uma personalidade marcante e era uma pessoa interessada em adquirir todo ou qualquer conhecimento que se fizesse necessário. Astuciosa, manhosa e mimada, Oxum conseguia tudo o que sempre desejava, até mesmo consultar o Oráculo de Ifá para saber sobre o destino do seu pai e das decisões do reino. Todavia, sempre que a consulta era feita, Òrunmìlà respondia: ‘Pergunte a Exu, pois ele tem o poder de interpretar os búzios’. 

Esse constrangimento repetia-se toda vez que Oxum necessitava saber algo. Certa vez, Oxum, indignada, pediu a seu pai para poder aprender a interpretar o Oráculo, porém Olúfón respondeu-lhe: ‘Isto é impossível, minha filha! Tal pertence é inerente a Èsù.  É uma dádiva de Òrunmìlà para ele, isto eu não posso lhe dar’.   

Na tentativa de adquirir os conhecimentos, Oxum procurou Èsù e pediu-lhe que a ensinasse a interpretar os búzios. ‘Ensina-me Èsù! Eu também quero interpretar o oráculo’; disse Oxum.  ‘Não, não! O segredo é meu, e me foi dado por Òrunmìlà. Isto eu não ensino a ninguém’, respondeu-lhe Èsù. 

Não conseguindo êxito em sua tentativa, Oxum partiu em direção à floresta, local onde viviam as feiticeiras. Cautelosamente, Oxum foi adentrando pouco a pouco a floresta. A curiosidade e o ódio acumulados eram maiores e mais fortes do que o medo que sentia. Em determinado momento, Oxum deparou-se com as Ìyá mi àjé empoleiradas nas árvores da floresta. Entre risos, gargalhadas e gritos alucinantes, elas perguntaram: ‘O que você quer aqui, minha rainha?’ ‘Quero aprender magia. Quero enganar Èsù e descobrir o segredo da interpretação dos búzios’, respondeu Oxum.  

As Ìyá mi àjé, que há muito tempo desejavam ludibriar Èsù, resolveram aliar-se a Oxum, ensinando-lhe todo o tipo de magia, mas advertiram-na de que, sempre ao usar os feitiços, teria de lhes fazer oferendas. Oxum, concordando com as exigências, partiu logo em seguida, dirigindo-se à casa de Èsù.  Ao chegar na casa do mesmo, Oxum perguntou-lhe: ‘O que resolveste: vais ou não ensinar-me a interpretar o oráculo?’ Não e não! Já disse, é teimosa demais para o meu gosto, não insista’ respondeu-lhe Èsù.   

Oxum, continuando sua farsa, fingiu aceitar a decisão de Èsù. Passados alguns momentos, Oxum sorrateiramente encheu as mãos com um pó mágico, em seguida, pediu a Èsù para adivinhar do que se tratava. Este, inocentemente e sem de nada desconfiar, aproximou-se de Oxum e, ao fixar os olhos em suas mãos, esta as abriu soprando rapidamente o pó no rosto de Èsù, que ficou temporariamente cego. ‘O que é isto? O que está se passando?  Eu não estou enxergando nada!’,gritava Èsù.  Oxum, fingindo nada saber, demonstra preocupação e interesse ao perguntar a Èsù: ‘Eu posso te ajudar?’ Èsù respondeu-lhe: ‘Dê-me os búzios rapidamente’ ‘Eu os procuro para ti, onde estão?’, perguntou Oxum. ‘Eles estão sobre a esteira que está colocada em cima da mesa’, disse Èsù. ‘Quantos são?’ perguntou Oxum.  ‘São dezesseis’‘Tens certeza que são dezesseis?  E por que são?’, continuou Oxum a perguntar. ‘Ora, claro que tenho certeza, pois dezesseis são os Odù originais e cada um deles fala dezesseis vezes, perfazendo um total de 256 análises e repetições’.  ‘Peguei um! Ele é maior do que os outros!’, exclamou Oxum. ‘É Òkànràn!’, disse Èsù.  ‘Peguei outro! É um pouco menor’ disse Oxum. ‘É Òtùrukpòn’!disse Èsù. E assim, Oxum ardilosamente continuou a perguntar e Èsù, inocentemente a responder, até chegarem ao último búzio.   

Oxum possuidora de inteligência rara guardou para si todo o segredo do jogo e, despedindo-se de Èsù, voltou para o reino de seu pai, que já a aguardava deveras preocupado com a sua demora. Ao chegar ao reino do seu pai, Oxum relata o ocorrido ao mesmo. Narra-lhe o pacto feito com as Ìyá mi àjé, dizendo que tudo o que fez fora unicamente por amor a ele e que, doravante o grande monarca não necessitaria rebaixar-se ante Èsù. 

Em contrapartida, Èsù, percebendo que tinha sido enganado e ainda com os olhos ardidos e embaçados, foi queixar-se com Orunmilá, que, após ouvir o ocorrido, determinou que, a partir daquela data em diante, todos os preceitos, presentes e sacrifícios etc., determinados pelo oráculo, deveriam ser entregues a Èsù, até mesmo os destinados aos outros orixás, dos quais Èsù retiraria uma parte para si, que se diga de passagem ‘a maior parte’.”” 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Mérìndilogun Kawrí” – “Os Dezesseis Búzios” – Paginas 73, 74,75, e 76 – Produção Independente – Ano 2009 (Edição Revista e Ampliada) – ISBN 978-85-902226-4-4.

 

 

 

 

 

 


[1]  Candomblé – Rito Afro-brasileiro. 

[2]  Cabaça cortada ao meio, onde se encontra o òkúta (pedra) consagrada a Oxum.   Altar consagrado a Oxum quando da montagem do Ojúbo de Òrunmìlà.

[3]  Não se trata de um odù. É uma caída nefasta, na qual todos os búzios aparecem fechados. 

[4]  Quando da utilização dos búzios pertencentes a Oxum, a caída nefasta nunca se apresentara, face Oxum não ser um habitante da terra, isto é, não há morte física da mesma. 

[5]  Que diz respeito a lenda. Narrativa de acontecimentos fantásticos; tradição popular, mentira.

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