Parábola da Fidelidade – Mito do Penteado de Elégbára

Contam os nagôs igbomina que, em uma época incontável, Orunmilá, certa noite, após ter andado pelo mundo por um longo período juntamente com seus discípulos, pregando as boas novas e seus mandamentos, resolveu testar a amizade e a fidelidade dos seus seguidores. 

Após ter feito vigília durante toda uma noite, Orunmilá aguardou os primeiros raios de o Sol surgirem no Leste, para chamar à sua presença seus discípulos, os Dezesseis Conselheiros. Quando todos se apresentaram, Orunmilá disse-lhes: ‘Quero que vocês tragam para mim a fórmula mágica do Rere Àilópin (O Bem da Longevidade).’ Seus discípulos imediatamente lhe perguntaram: ‘Viveremos também longa vida, caso a encontremos?[1]. Orunmilá respondeu-lhes: ‘Aquele que a achar e à minha presença trouxer, comigo terá longa duração de vida’. Imediatamente, os conselheiros saíram à procura do tão bem-querer, para poderem desfrutar do mesmo juntamente com Orunmilá. 

Após vários dias de jornada, os conselheiros, cansados e debilitados, resolveram voltar para casa, desistindo, dessa maneira, de procurar ‘O Bem-querer solicitado pelo amado mestre. Ao chegarem próximo da residência de Orunmilá, observaram que diversas pessoas do vilarejo corriam pelas ruas em prantos, outras faziam grandes alaridos pronunciando: Òrunmìlà npaláro, Ìkú nmúkurò (Orunmilá morreu, Ìkú o levou embora)’.  

Após ouvirem as lamentações, os conselheiros aceleram os passos em direção à casa do tão amado mestre. Quando da morada do mesmo se aproximaram, mal conseguiam se locomover entre as pessoas que se aglomeravam diante da mesma. Com sacrifício e rudeza, conseguiram adentrar a casa de Orunmilá. Lá estava inerte sobre o leito o corpo do amado líder espiritual.  

Nesse meio tempo, os dezesseis conselheiros ficaram parados tais quais estátuas diante do corpo apático de Orunmilá. Entremente, um a um foi se retirando lentamente do local, pronunciando: ‘De que valeu sairmos em busca do Bem da Longevidade? Nosso mestre está morto, não o temos mais, mesmo que tivéssemos achado esse bem, não saberíamos utilizar a fórmula.  Está tudo acabado!  Nada mais temos a fazer a não ser pedir o povo do local que o enterre para nós’. 

Em seguida, logo após solicitar que sepultassem o corpo de Orunmilá, os conselheiros seguiram viagem afora, dizendo que iriam, a partir daquela data, pregar mundo afora os ensinamentos que lhes foram dados por seu amado mestre. Todos se retiraram, com exceção de Elégbará, seu amigo inseparável, que havia chegado naquele momento e que, debruçado, ficou sobre o corpo inerte de Orunmilá.   

No momento em que o Olóri Õgá Ìlétò (Chefe Supremo do Vilarejo) ia dar início ao translado do corpo para a sepultura, Elégbára começou a chorar incessantemente sobre o corpo de Orunmilá. Por mais que tentassem tirá-lo, mais ele se agarrava ao cadáver. Em determinado momento, todos os presentes viram as mãos do cadáver se moverem em direção à cabeça de Elégbára. Este, estatelado, ao colocar suas mãos sobre as que lhe acariciavam os cabelos, viu que se tratava de um afago de seu tão amado mestre Orunmilá. Sem nada entender, Elégbára lhe pergunta: ‘Como é possível isto? Tu não estavas morto ainda pouco?  Porventura te deram escondido de mim a fórmula do Bem da Longevidade, que mandaste buscar e, após ingerire-la, ressuscitaste?’  

Orunmilá continuando a acariciar-lhe os cabelos disse-lhe: ‘Decidi, após uma noite de vigília, fingir que havia morrido para testar a fidelidade e a veneração de todos ao meu redor.’ Continuando o diálogo, disse Orunmilá: ‘Estou desapontado!  De todos que vivem à minha volta, tu foste outra vez o único que não me decepcionou’. Em continuidade ao colóquio, perguntou Orunmilá a Elégbára: ‘Por que raspaste a cabeça somente dos lados deixando o restante dos cabelos no alto, na nuca e ao centro, ficando o mesmo com um formato de falo[2]?’ ‘Mestre, eu estava em fase de preparatório para ser iniciado em teus mistérios, quando soube da notícia da tua morte. Imediatamente, deixei tudo para trás e vim correndo ver-te pela última vez. ’ Disse-lhe Elégbára. 

Orunmilá, ao admitir e comprovar com aquele gesto a dedicação e fidelidade de Elégbára abraçou o amigo dizendo-lhe: ‘Desejo que deixes teus cabelos crescerem desta forma, isto é, raspado aos lados e no meio não, pois este penteado será, a partir de hoje, o símbolo da nossa amizade e do meu agradecimento.’” 

Comentário: O mito acima, apesar de nos mostrar uma prova de amizade, dedicação e fidelidade, mostra-nos também o quanto Elégbára e Orunmilá são intrínsecos quanto ao destino dos seres humanos, uma vez que Orunmilá é a revelação e Èsù, o princípio, o “dinâmico” e o “apático”[3].

 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Èjì Ologbon Àwon Àmúlù” – “Òyékú e Suas Combinações” – Paginas 41 e 42 – Produção Independente – Ano 2006 – ISBN -902226-3-2.

 

 

 

 

 

 

 


[1]  Pergunta semelhante também é feita pelos Conselheiros a Òrunmìlà, quando dos relatos do Àmúlù Ìká-Fún – 235ª Junção Oracular de Ifá  – “Os Dezesseis Mandamentos de Ifá.  

[2]  Representação de um pênis – Símbolo da fecundidade da natureza, entre alguns povos do Oriente.

[3]  Que tem apatia.  Ausência de afetos e paixões; indiferença.

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