Fábula da Briga do Céu com a Terra – Ìrókò, a Árvore de Deus.

 

Contam os nagôs igbómìnàs que, no princípio do Mundo, o Céu e a Terra se desentenderam. A Terra disse para o Céu: ‘Sou sua irmã mais velha, portanto mais poderosa do que você. Eu sou a base de tudo, sem mim você seria esmagado, não teria apoio. Eu criei todas as coisas vivas. Forneço-lhes alimentos. Eu as mantenho. Tudo gira em torno de mim e volta para mim. Existe poder maior do que o meu, querido irmão?’ 

Quando a Terra terminou com sua implicância, o Oceano, severo e ameaçador, que a tudo ouvira calado, fez um sinal para o Céu e falou-lhe em seguida: ‘Ela irá aprender com as suas próprias palavras. Seu castigo será tão grande quanto a sua soberba presunção’. Ìrókò, a árvore que a tudo ouviu, ficou deveras preocupado e, pensando em voz alta, disse para si mesmo: ‘Tenho que me proteger. Na briga entre o mar e o rochedo aquele que sofre é o marisco’. Ìrókò começou a meditar sobre o silêncio que pairou após a insanidade da Terra, do Céu e do Oceano. Preocupado, começou a lamentar: ‘Tenho minhas raízes nos intestinos da Terra. Meus braços estendem-se até o Céu.  A harmonia do Mundo não pode desaparecer. Se isso acontecer, o Mundo saberá o que é infortúnio’. Ìrókò tratou imediatamente de se comunicar com as demais árvores, dizendo para elas que a vida estava contente, mas que a morte estava por vir sem dó nem piedade. As árvores nada entenderam e Ìrókò, tristonho, continuou a falar sozinho: ‘Tudo é de todos, apesar de nada ser de ninguém. Mesmo assim, todos querem conquistar, escravizar, governar, nunca permitindo que alguém possa reivindicar posições’. 

Infelizmente, o sexto sentido de Ìrókò não estava errado. A inimizade da Terra com o Céu mudou tudo. Parou de chover e o Sol implacável a tudo começou destruir. Ìrókò em prantos mais uma vez se dirigiu às outras árvores dizendo: ‘É chegado o momento das atribulações e dos sofrimentos. A fealdade[1] está tomando conta da Terra. Temos que fazer alguma coisa, pois senão seremos destruídas. Tudo em vão. As demais árvores não deram a mínima atenção às súplicas de Ìrókò. Quando a noite chegou descerrando seu véu, Ìrókò, totalmente angustiado e com medo, dobrou-se até o solo, orou e suplicou: ‘Pai, sei que é chegado o tempo dos infortúnios. Talvez amanhã não haja uma só folha verde sobre a face da Terra. Caso isso aconteça, desejo que meu tronco sirva para fazer um cajado no qual tu possas te apoiar na velhice’. 

Tão logo o dia amanheceu, o Sol passou a arder mais do que nunca. No final do dia, não mais havia uma só vegetação verde. As fontes secaram, os poucos animais que restaram se ajuntaram procurando abrigo embaixo dos galhos do Ìrókò. Foi a única árvore que permaneceu verde e saudável e que, apesar do Sol escaldante do novo dia, dela ainda fluía a garoa noturna, que os animais lambiam dobrando seus galhos, matando a sede. 

Após saciarem a sede, os animais perceberam que algo de sagrado havia em torno de Ìrókò e, ao reconhecerem sua magnitude, fizeram-lhe um pedido: ‘Ìrókò, tu és nossa aura[2]. Tu és a única árvore não obsoleta. Somente tu podes transmitir nossas súplicas ao Céu. Pede ao Criador que interceda nesta contenda’. Ìrókò, condoído com os acontecimentos, em lágrimas curvou-se mais uma vez implorando ao Criador pela humanidade: ‘Pai, curvo-me diante de tua presença e suplicoOuve as minhas preces e as destes animais’. 

No momento em que os animais juntamente com Ìrókò se curvaram no solo, o Céu foi movido pelas águas do Oceano, formado grossas nuvens que se transformaram em chuvas abastecendo e irrigando a Terra. Tudo voltou ao normal. A vegetação voltou a reflorescer, as nascentes voltaram a jorrar água do centro da Terra, enfim, a natureza sobreviveu graças às súplicas da árvore Ìrókò. Em agradecimento, os animais, a partir desta data, passaram a chamá-la de ‘A Árvore de Deus’ (Igi Olódùmarè). 

Com o passar dos dias, Ìrókò crescia cada vez mais verde e garboso. Suas raízes tornaram-se tão profundas que até as rochas se fenderam para abrigá-las. Seus galhos se estenderam firmes e maleáveis para poderem bailar ao som dos ventos e repetir paulatinamente: 

Òrun ati ilè ko wà òtá’. 

‘O Céu não é mais inimigo da Terra’. 

Apesar de ter conseguido sanar a guerra e trazer a paz, Ìrókò, a árvore sagrada, permaneceu indiferente a toda essa fama e prestígio repetindo o mesmo ensinamento até os dias atuais.” 

‘Se a alegria, o amor e a fraternidade viverem na Terra, eu estarei contente. Os culpados pelo oposto serão a intolerância e o orgulho do ser humano’. 

Da Sabedoria Yorùbá.

  

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Mérìndilogun Kawrí” – “Os Dezesseis Búzios” – Paginas 96 e 97 – Produção Independente – Ano 2009 – ISBN -978-85-902226-4-4.

 


[1]  S.f. Qualidade do que é feio, deformidade, indignidade, monstruosidade.

[2]  Vento brando e agradável, alento, brisa, respiração.

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