Mito da Obrigatoriedade da Entrega das Cabeças, dos Flancos, das Asas, das Patas Dianteiras e Traseiras dos Animais, bem como, da Cabeça e da Cauda dos Peixes Aos Eboras e Orixás

 

 

Contam os nagôs igbomina em solo brasileiro que Olódùmarè, o Criador Excelso, sentindo-se exausto[1], convocou a sua presença todos os orixás que com ele participaram da formação do Cosmo. Ao se apresentarem na ante-sala da Morada do Justo (Ibùgbé Sèsè Sánmà), este lhes disse: ‘Mandei chamá-los para que tomem ciência de que, face eu estar me sentindo cansado e idoso[2], decidi enviá-los ao planeta Terra. Vocês irão saber do Mundo. Quando retornarem e me relatarem tudo o que ouviram e viram, eu nomearei dentre vós o mais digno e o mais sábio, na condição de meu porta-voz (olópa). Eu o exaltarei e permitirei que, diante de mim, se apresente e resista ao meu resplendor’.

Os orixás, tomados de euforia e envaidecidos, vestiram seus mais belos trajes. Todos juntos partiram em direção à Terra, com exceção de Exu (Èsù Ósètùrá[3]) que foi atender ao chamado de seu pai, que não tinha tido a permissão de compartilhar daquela jornada. Quando Exu ao seu genitor se apresentou, dele recebeu uma sacola de linho grosso[4] e a instrução de que deveria portar-se de forma correta por onde passasse e que com humilde se dirigisse a todos com que se defrontasse.  

Enfim, todos chegaram ao planeta Terra. De imediato, se personificaram adotando formas e posturas importantes. Uns em trajes de reis, outros trajados tais quais os príncipes. Somente Exu não participou da pujança da personificação. Suas roupas eram as mais simples. E assim, vestidos, os orixás se dirigiram ao país onde todas as pessoas comiam somente aves. A recepção foi suntuosa. Os orixás escolheram os melhores pedaços[5] das aves. 

Após se alimentarem, os orixás disseram uns para os outros: ‘Estou cansado de comer destes animais. Dêem as cabeças, os flancos das asas e as patas para Exu se alimentar, uma vez que ele não foi convidado para sentar-se à mesa. Também, vestido nesses trajes, quem iria convidá-lo?’ Exu, apesar da humilhação sofrida, aceita os alimentos com submissão. Este, após se alimentar, colocou os ossos no sol para secar, para posteriormente guardá-los. 

Alguns dia depois, os orixás, usando outras vestes suntuosas, se dirigiram ao país onde todos comiam quadrúpedes e répteis. A recepção foi suntuosa. Os orixás escolheram os melhores pedaços dos animais oferecidos no banquete. Após se fartarem, repetiram o mesmo procedimento, isto é, deram para Exu se alimentar as cabeças, as caudas, as patas dianteiras e traseiras dos animais. Este, procedendo da mesma forma anterior, alimentou-se das mesmas, pondo em seguida os ossos no sol para secar.   

Dias depois, os orixás, usando aparatos muito mais luxuosos, se dirigiram ao país onde todos comiam peixes. Todos se fartaram. Desta vez, um acontecimento inédito chamou atenção dos demais orixás presentes.  Ìyá Olóorí[6] não se alimentou dos peixes oferecidos. Ela, simplesmente tocou com suas mãos as cabeças, as nadadeiras e as caudas dos peixes que lhes foram oferecidos durante o banquete.

Após algumas horas, os orixás, repetindo o mesmo procedimento que tiveram nos banquetes anteriores, deram para Exu as cabeças, as nadadeiras e as caudas dos peixes que lhes foram oferecidos durante as refeições. Este quando da entrega perguntou-lhes: ‘Onde estão os peixes que Ìyá Olóorí não comeu?’ A resposta foi unânime: ‘Você acha que nós iríamos desperdiçar tal repasto? Para você Exu, restou apenas o de sempre. Se dê por satisfeito’. Exu, cabisbaixo e sem nada dizer, contenta-se com o que lhe dão. Após se alimentar, colocou as espinhas no saco de linhagem. E assim os orixás, com exceção de Exu, se alimentaram das partes mais nobres dos búfalos, das cabras, dos carneiros, dos patos, dos lagartos, bois e outros tantos animais. E assim, em todas as localidades por onde passaram, os orixás comeram diversas espécies de animais. Para Exu, somente sobraram às cabeças, os flancos das asas e as patas.

Após viajarem pelo mundo afora, os orixás retornaram ao infinito (sánmà). Ao regressarem, se apresentaram de imediato ao Criador Olódùmarè.  Este cansado e idoso[7], perguntou-lhes: ‘O que vocês viram e ouviram na Terra?’ Cada um dos orixás narrou sobre as localidades por onde passaram e principalmente sobre os suntuosos banquetes que lhes foram oferecidos. Exu narra também coisas semelhantes, excluindo apenas que teve de se contentar com as sobras dos outros orixás. Após ouvi-los, perguntou-lhes o Criador: ‘O que trazem como prova de tudo que viram e ouviram na Terra?’ A resposta foi o silêncio. Olódùmarè perguntou pela segunda vez: ‘Quem é capaz de contar-me a verdade?’ ‘Eu posso provar o ocorrido e a veracidade das minhas palavras’, disse Exu, derramando no chão diante do Criador todos os ossos que havia trazido.    

Diante do exposto, Olódùmarè levantou-se do trono e disse: Exu, tu me sucederás e todos os habitantes da Terra submeter-se-ão a ti e farão o que tu ordenares.  Em lembrança dos teus feitos e face ao descaso feito a tua pessoa, somente a cabeça, as asas, as patas dos animais e a cauda dos peixes serão apresentados por ocasião dos sacrifícios, a fim de serem aceitos pelos os orixás.

Para os nagôs iorubas do grupo étnico dos igbomina, a narrativa acima dogmatiza e retrata com exatidão a obrigatoriedade da entrega aos eboras e aos orixás por ocasião dos preceitos dos mesmos somente as cabeças, as patas dianteiras e traseiras dos animais, as asas e as patas das aves, bem como a cabeça e cauda dos peixes. 

Esclarecimentos: Nos dias atuais, um cântico que é entoado pelos nagôs igbomina quando da apresentação das cabeças, das patas dianteiras e traseiras dos animais, das asas e das patas das aves, bem como a cabeça e cauda dos peixes aos eboras e aos orixás nos remontam a narrativa abaixo: 

“Orí tinyín láre Èsù 

Èsù orí tinyín láre o! 

Àpá tinyín láre Èsù 

Èsù àpá tinyín láre o! 

Esè tinyín láre Èsù 

Èsù esè tinyín láre o!” 

“Exu, eis as cabeças que lhe são por direito. 

Exu, eis os flancos das asas que lhe são por direito 

Exu, eis as patas que lhe são por direito!” 

 e assim sucessivamente 

(tradução livre)

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Mérìndilogun Kawrí” – “Os Dezesseis Búzios” – Paginas 241, 242 e 243 – Produção Independente – Ano 2009 – ISBN – 978-85-902226-4-4.

 


[1]  Sentido figurado.

[2]  Sentido figurado.

[3]  Nome pelo qual o Òrìsà Èsù é chamado por Òrúnmílá, seu pai mitológico.   

[4]  Também chamado de saco de linhagem.

[5]  Cocha, contra cocha e peito.

[6]  Òrìsà considerado pelos nagôs yorùbá como a “Mãe de todas as Cabeças”.

[7] Sentido figurado.

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