Fábula Do Roubo Dos Cérebros

Contam os nagôs igbomina em solo brasileiro que, numa época longínqua, macacos Àyá (espécie de macaco), revoltados por não poderem se expressar através da fala, elaboraram um ardiloso plano para roubarem dos humanos os seus cérebros e, posteriormente, colocá-los na cabeça de seus filhotes, que nascessem a partir daquela data. 

Àyáàgan (Primata do sexo feminino – A mais velha da comunidade), a líder dos macacos, totalmente agitada com o desfecho do plano, guinchava com braveza. Andava de um lado para o outro, roncava, batia no peito e se reportava aos demais do grupo com gestos, deixando bem claras suas intenções: desejava fazer com que os humanos ficassem submissos aos da sua espécie.   

À noite, ocultos na floresta, deram início à captura dos humanos que por ali passassem. Após aprisionamento, abriam-lhes o crânio e de lá retiravam os cérebros para serem colocados no interior do crânio de seus filhos recém- nascidos. 

Nesse ínterim, o jovem que atendia pelo nome de Àmójukurò (Desapercebido), ao ouvir aqueles gritos, resolveu se aproximar e descobrir o que estava se passando. Quando ao local chegou, defrontou-se com aquela cena horripilante. Àmójukurò, que dizia  ter por hábito conversar com os animais, uma vez que entendia suas vozes e expressões, perguntou esbravejando: ‘Qual o motivo de todo esse furdunço?  O que os leva a cometer tamanha crueldade?’ Àyáàgan,  guinchando, disse-lhe: ‘Somos as mães dos humanos, entretanto nossos filhos macacos não falam, sequer os que nasceram brancos, sendo assim, vou tirar dos humanos seus cérebros e colocá-los em nossos filhos macacos, para que eles possam falar.’ 

Àmójukurò, ao ver Àyáàgan segurar-se num cipó, para nele se pendurar e embrenhar mata adentro com os cérebros dos humanos dentro de uma koto (cabaça funda), disse-lhe: ‘Estás velha o suficiente para ficares subindo nas árvores e pulando de galho em galho. Além do mais, estás tão gorda que os galhos quebrarão e cairás por terra tal qual fruto maduro.’ Àyáàgan, enfurecida, gesticula guinchando: ‘Vejam só, o fedelho ainda quer saber mais do que eu!’ 

Nesse exato momento, a cabaça funda cai das mãos da macaca. Àmójukurò, sem perda de tempo, apossou-se da mesma e, tal qual um ògongò (avestruz), correu para fora da densa floresta.  Ao chegar à orla da mesma, deparou-se com Òrúnmìlà, e, após relatar-lhe o ocorrido, ouviu do mesmo: ‘Vá pela rua e dê um cérebro a todo humano que não tiver, mas tome cuidado,  não cometa nenhum erro.’  

O menino partiu e toda vez que via alguém sem cérebro dava um. Assim sendo, desapercebido como nenhuma outra pessoa, Àmójukurò deu cérebro de homem para muitas mulheres e cérebro de mulher para muitos homens, sem falar dos cérebros de adultos que colocou em crianças e os de crianças, em adultos. 

Por isso, conforme a narrativa, existem homens que pensam como mulheres e pessoas do sexo feminino que pensam como homem; adultos que pensam como crianças e vice-versa. 

 Da sabedoria nagô iorubá igbomina

 

 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “ÈjÌ Ologbon Àwon Àmúlù” – “Òyèkú e Suas Combinações” – Paginas 158 e 159 – Produção Independente – Ano 2006 – ISBN 85-902226-3-2.

 

 

 

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