Iyéwà – O Logro da Morte

            Em um indeterminado tempo, os seres humanos viviam períodos muito curtos sobre a Terra. Quando a morte não os alcançava na infância, atingia-os na adolescência por doenças ou logo após a maturidade, vítimas dos ataques ostensivos dos inimigos. 

           Contam os nagôs igbomina que os habitantes da terra recorriam ao Oráculo Sagrado de Ifá para, através do mesmo, fazerem constantes oferendas e sacrifícios de animais ao Criador Olódùmarè. Esperavam que Deus voltasse seus olhos para eles e os livrasse das calamidades que os afligiam e os ceifavam sem dó e piedade. Tantos foram os rogos e ofertas que o Criador Excelso determinou que Òrunmìlà se materializasse e fosse à Terra amenizar e sanar todo aquele flagelo, se possível. Òrunmìlà, passando-se por comerciante de camelos, chegou a um vilarejo da cidade Ìjèbú. 

           Lá chegando, tomou ciência de que uma das famílias do local estava em desespero, pois não possuía condições de custear o funeral de um dos seus filhos. Imediatamente, Òrunmìlà custeou e participou do séquito fúnebre do jovem que acabara de atingir a puberdade e que misteriosamente havia perecido. Após o funeral, os genitores do jovem falecido humildemente ofereceram sua modesta morada para acolher Òrunmìlà, que prontamente aceitou. No dia seguinte, bem cedo, o venerável profeta deu início a uma jornada a vários vilarejos que ficavam próximos à cidade, na tentativa de descobrir a causa da morte de tantas pessoas. Tudo parecia inexplicável. Os médicos (ónísègun) nada sabiam dizer a respeito das doenças, só lamentavam as mortes, inclusive as causadas pelos ataques súbitos e constantes dos inimigos.

           Quando retornava à casa na qual estava alojado, Òrunmìlà ouviu gritos de dor e lamento.  Imediatamente se dirigiu para o local. Lá chegando, viu um jovem caído sobre o chão. Ao indagar sobre o fato, responderam-lhe: “Simplesmente do nada caiu desfalecido. Não sabemos o que aconteceu, aliás, nunca saberemos; é sempre assim”. Òrunmìlà imediatamente ordenou que o jovem fosse levado para a casa deste, porém seus familiares contestaram imediatamente: “Não! Isso não! O mal que dele se apossou irá contaminar a todos. É sempre assim!”. A partir desse instante, Òrunmìlà começou a perceber que o mal era repetitivo. O que acontecia era uma verdadeira praga. Òrunmìlà pediu que o corpo do jovem desfalecido fosse levado até a relva mais próxima e colocado embaixo de uma árvore frondosa. Imediatamente, após umedecer o solo e proferir algumas palavras, Òrunmìlà lançou seu “òpèlè” (rosário) ao solo, indagando o que estava se passado. A resposta foi imediata: “morte prematura”. 

           Sem perda de tempo, Òrunmìlà usando seus poderes e sabedoria, resolveu lograr a morte. Sendo assim, mandou que fossem buscar uma cabaça, um pedaço de tecido de linho cru, um preá, dois pombos selvagens, um caracol comestível, uma pedra de calcário e uma cuia contendo mel de abelha.  Assim que lhe entregaram o que havia pedido, Òrunmìlà, entoando cânticos, cavou um buraco no chão. Em seguida, agitou forte e repetidamente os dois pombos selvagens juntamente com o preá pelo corpo do jovem, sacrificando-os dentro do buraco que havia feito. Logo após, espargiu parte do mel sobre os animais imolados, cobrindo-os com um pouco do calcário ralado que extraiu da pedra. 

           Dando continuidade ao ritual, Òrunmìlà proferiu encantamentos, besuntou a cabeça do jovem com o restante do mel de abelha e, entoando um lamento, imolou o caracol comestível, esfregando-o sem demora na cabeça do jovem. Após todo esse ritual, colocou a carne do caramujo dentro do buraco que havia feito, derramou sobre o mesmo o restante do mel de abelha, salpicando em seguida todo o preceito com o restante do calcário ralado. Tal qual um passe de mágica, Òrunmìlà tapou o buraco, enterrando os animais imolados e colocando sobre a terra o casco do caramujo comestível sacrificado. Neste momento, Òrunmìlà pronunciou: “Onìlè! Ogbõgbòn lóke ilè lãiyé jékí”. (Onìlè! Deixe este jovem mancebo vivo sobre a terra).

           Ao realizar o desfecho do ritual, Òrunmìlà serrou ao meio a cabaça que havia pedido, banhou-a com sumo das folhas “gbèrè fútù” e colocou-a tal qual um capacete na cabeça do mancebo. Em seguida, o respeitável profeta, ao enrolar a cabeça do rapaz com o tecido de linho cru solicitado, determinou que o mesmo, após acordar, não saísse de sua morada e se mantivesse trajado com roupas de padrão semelhante ao torço em sua cabeça até o dia seguinte. 

          No dia subsequente, o venerável ancião foi à casa do jovem mancebo. Lá retirou da cabeça dele a cabaça juntamente com o torço de linho cru para levar ao lugar onde havia enterrado a oferenda. Ao chegar ao local, arriou a cabaça envolta pelo torço sobre o casco do caramujo comestível, que havia deixado no local em cima das oferendas enterradas. Neste local, Òrunmìlà permaneceu até o cair da noite, entoando o seguinte cântico: 

                                                  “O dúró, ó Ìkú ilè. 

                                                    Ó dúró, Ìkú ilè. 

                                                     Ìkú l’Ópa l’a bàbá 

                                                     Ìkú kò má a kékeré 

                                                       Ó dúró Ikú ilè”. 

                                               “Ele ficou, o morto na terra. 

                                               Ele ficou, o morto na terra. 

                                      O morto é Opa[1], o pai que nos cobre 

                                          Morte, não nos leve ainda jovens. 

                                                    Morte fique na terra[2]”. 

          Tão logo a noite abriu seu manto, o pássaro do Irúnmólè Ìkú cravou suas afiadas garras na cabaça envolta e levou-a para o mundo dos mortos (àiyé ìkú), imaginando ser a cabeça do jovem mancebo. Então, Òrunmìlà retirou-se do local. 

          Na certeza de ter cumprido sua missão e livrado o jovem das mãos da morte, Òrunmìlà voltou feliz para a casa do mesmo para dar-lhe as boas novas. No entanto, estava longe de imaginar que tinha causado indignação e despertado a cólera do Irúnmólè Ìkú na outra dimensão, no mundo dos mortos. 

          Quando chegou à morada do jovem mancebo, o venerável ancião foi recebido com festa e muita gratidão pelos pais do adolescente. Tomados de muita alegria pela graça alcançada, todos os presentes proferiram: Òrunmìlà Okìtìbíri ti npa ojó ìkú dà”. (Òrunmìlà, aquele que pode alterar a data da morte). 

           Em determinado momento da festa, Òrunmìlà percebeu que um redemoinho se formou à entrada da casa do rapaz. Dirigindo-se imediatamente para o local, defrontou com Èsù, que o alertou: “Meu senhor, trago ordens do Criador. A tua bondade foi vista com bons olhos por ele, entretanto, a tua atitude ocasionou o caos no mundo dos mortos. O Irúnmólè Ìkú, tal qual uma faísca de ódio, está vindo para confrontar-se contigo num duelo. Olódùmarè disse que não deves aceitar esta contenda. Deves seguir pelo rio abaixo até a desembocadura. Lá deves desmaterializar-te sem perda de tempo, voltando em seguida para o infinito. Vai imediatamente! A viagem é longa!”. 

          Òrunmìlà não hesitou. Colocou seu bornal atravessado ao tórax, apoiou-se no cajado e seguiu viagem rio abaixo. Quando estava na metade do caminho, começou a ouvir o vento uivando com força demasiada. A violência do vento era tamanha que ouvia o barulho do dobrar das pequenas árvores ao sabor da ventania. Neste exato momento, Òrunmìlà ouviu alguém falar-lhe em tom áspero: “Quem és tu? Com que direito invadiste as minhas propriedades e ainda por cima caminhas por dentro das águas que banham minhas terras?” Òrunmìlà respondeu: “Sou um servo de Olódùmarè. Estou fugindo da cólera do Irúnmólè Ìkú. Eu consegui ludibriá-lo. Eu logrei o senhor dos mortos”. Com um sorriso estonteante, a bela mulher disse-lhe: “Até que enfim! Foi bem merecido. Alguém precisava cometer este ato de bravura. Vou esconder-te do Irúnmólè Ìkú; há muito tempo que desejo também pregar-lhe uma peça. Vem! Vou esconder-te sob os aso-igúnwà (manto real) de meu pai. Eu saberei despistá-lo quando por aqui passar”. Dito e feito. Mal acabou de esconder Òrunmìlà, a bela mulher ouviu alguém com voz macabra perguntar-lhe se tinha visto um velho ancião por aquelas paragens. Sem pronunciar uma só palavra, a mulher com o dedo indicador apontou para o rio abaixo. 

           Quando não mais havia vestígios da presença nefasta de Irúnmólè Ìkú, a encantadora mulher retirou Òrunmìlà de debaixo das roupas de Obàtálá, pronunciando: “Podes ir em paz, Ìkú já se foi. Por aqui ele não passará mais. Estás livre desse confronto”.  O venerável ancião agradecido despediu-se indagando: “Tu me socorreste e sequer sei teu nome. Como te chamas?”.   “Meu nome é Eléwà, mas muitos me chamam de Iyéwà. Sou esposa de Boromu[3], respondeu-lhe a bela mulher. Òrunmìlà, olhando para Elé, profetizou: “A tua beleza é comparada à tua bondade. A tua benevolência será tua dádiva. A partir de hoje terás o poder de curar a esterilidade feminina.  Muito obrigado. Adeus!”

           Quando ia distante, Òrunmìlà voltou-se para Elé, abençoou-a e disse: “Não fiques triste. Daqui a nove luas teu maior desejo será realizado. Serás mãe!”. 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Èjì Ogbè Àwon Àmúlù” – “Èjìonile e Suas Combinações” – Paginas 162, 163,164, e 165 – Produção Independente – Ano 2003 – ISBN 85-902226-2-4.

 

 

 


[1]   Opa é uma estirpe de Bàbá Egúngún cultuado na cidade de Ìjèbú.

[2]   Cântico entoado por alguns dos segmentos religiosos nagôs por ocasião de um sepultamento.

[3] Divindade dos desertos cultuada pelos nagôs igbomina. Seu sacrário depois de erguido deve ficar ao lado do ojúbo de Obàtálá Ijùgbè É tido como guardião de ambos. Pertence a estirpe dos ancestrais olù àiyé. Rege a estrutura óssea dos seres humanos. A ele cabe a juntamente com sua esposa a função de transportar a alma do ser humano após a morte até o infinito ante as presenças de Èlà e de Òrunmìlà, para que seja julgada. Seus animais ofertivos são o galo, o ganso, a guiné, o marreco e o pombo, todos de plumagem branca.  A imolação de animais quadrúpedes a este ancestral foi abolida em solo brasileiro pelos igbomina, em face de não permissão do uso de facas para imolar animais para o mesmo. Obs: É chamado por alguns grupos djedje por “Daazodji”. Tido pelos mesmos como a mais antiga estirpe de Sànpònná. Face o altar do mesmo ficar ao lado do sacrário de Obàtálá ao aludido ancestral não se oferece alimentos a base de azeite de dendê, tampouco o uso de vestes na cor vermelha. Erroneamente confundido em solo brasileiro com o ancestral nagô ioruba conhecido pelo nome “Ajàgún Aráwe”. 

 

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