Parábola da Ambição

JacaréContam os nagôs igbomina em solo brasileiro que, após a formação do planeta Terra e do surgimento do ser humano, Olódùmarè selou uma aliança com “Onilè” (A Mãe Terra – O ventre da humanidade). Esse acordo consistia em devolver-lhe a porção de lama dela retirada para modelar o homem. Para tal feito escolheu o Ìrúnmólè Ìkú, uma vez que o mesmo foi o único que conseguiu cumprir suas determinações no tocante ao recolhimento da protomatéria. 

A incumbência atribuída a Ìkú o transformou num Ìrúnmólè[1] temido e respeitado. Todos os viventes racionais constantemente a ele recorriam, exaltando-o, conferindo honrarias, imolando-lhe animais constantemente, na expectativa de poderem permanecer vivos por muitos e muitos anos, uma vez que a imortalidade havia se encerrado face o fechamento do portal que separava a Terra (Àiyé) do infinito (sánmà). 

A fama e o prestígio adquiridos por Ìrúnmólè Ìkú geraram no Ìrúnmólè Ajé Salugá a ambição e a inveja. Imbuído nesses sentimentos, elaborou um ardiloso plano para destituir Ìkú do seu cargo e do prestígio dele se apossar. Obstinado em cumprir o plano elaborado, Ajé Salugá, fazendo uso do poder místico que possuía, ocultou-se num casco vazio de um imenso molusco, que havia morrido na estrada próxima ao local no qual eram feitas as oferendas a Ìkú. De lá ficou ouvindo tudo o que se dizia a respeito do mesmo. Em determinado momento, Ajé Salugá, ao perceber um som que emanava de um instrumento de sopro, ouviu os seguidores de Ìkú pronunciarem: “O instrumento da morte está sendo tocado, logo, logo haverá um humano com a cabeça estirada em direção ao Reino dos Mortos. (Sàkãní Ìkú)”. Após ouvir o comentário daquelas pessoas, Ajé Salugá disse para si mesmo: “Isto era tudo que eu precisava saber para fazer Ìkú descer do seu pedestal”.

Imediatamente, Ajé Salugá dirigiu-se para o Reino dos Mortos. Lá chegando, aguardou Ìkú retirar-se para cumprir seu papel e, tão logo o viu se afastar, sorrateiramente teceu de uma forma mística uma rede invisível frente à entrada da moradia de Ìkú. Em seguida, apossando-se do instrumento que anunciava a morte de um ser, soprou-o veemente. 

Não demorou muito tempo para que Íkú ouvisse o som. Semelhante a um lampejo, o Senhor dos Mortos seguiu para a sua moradia. Apesar de possuir dons sobrenaturais, a rapidez com que se dirigiu para casa impediu-o de detectar a rede que Ajé Salugá havia estendido à entrada de sua casa.  Assim sendo, caiu na armadilha e, facilmente, foi capturado. 

Ao ver seu rival aprisionado na rede que havia se tornado visível após o aprisionamento, Ajé Salugá, debochado e irônico, disse ao seu prisioneiro: “Vou levá-lo aprisionado até a presença de Olódùmarè. Todos testemunharão o meu poder. Veremos quem é mais perspicaz e se ainda haverá dúvidas quanto ao meu poder?” Assim sendo, Ajé Salugá dirigiu-se a morada do Justo (Ibùgbé Sese Sánmà). 

Lá chegando, após se apresentar diante do Criador, relatou-lhe o ardiloso plano que colocou em prática: “Senhor, prometi a mim mesmo que traria Ìkú aprisionado ante a tua presença. E agora, será que ainda restam dúvidas quanto a minha astúcia e meu poder?” 

Tomado de pavor e descontentamento mediante o atrevimento de Ajé Salugá e da displicência de Ìkú, Olódùmarè pronunciou-se: “Retire-se da minha presença, Ajé Salugá. Leve tudo que imagina que seu poder pode conseguir. A partir de hoje, será representado por uma concha marinha e terá o nome de dinheiro (ajé-owó). Terá o poder de conquistar tudo o que for de bem material na face da Terra. Por sua causa, nações se erguerão umas contra as outras, pais e filhos se desconhecerão. Será o vil metal causador das discórdias, dos latrocínios, das guerras, e, andando lado a lado, ensejará o surgimento das desgraças, isto porque, onde houver a ganância, haverá a ambição desmedida pelo poder. E, com certeza, lá estará a Morte, à espera de todos que nutrirem adoração por você”.

“Ìkú ko kàn tètekó, òkánjuà beeni”. 

“A morte não atinge previamente; a ambição, sim!”. 

Da Sabedoria Ioruba.

 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Èjì Ologbon Àwon Àmúlù” – “Òyèkú e Suas Combinações” – Paginas 91 e 92 – Produção Independente – Ano 2006 – ISBN 85-902226-3-2.

 


[1]  Designação dada aos Orixás – Entidades divinas que participaram da formação do cosmo.

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