Enigma da Iniciação do Primeiro Neófito

etu

Contam os nagôs igbomina, em solo brasileiro, que, após o fechamento do portal, que separava o planeta Terra (Àiyé) do infinito (sánmà) Yèyébírù[1] recebeu de Olódùmarè a incumbência de escolher, entre os seres humanos, o mais forte, o mais virtuoso e inteligente dos homens, ser este que deveria ser investido na função de sacerdote (aborè). 

Destacou-se entre eles o belo e intrépido jovem que atendia pelo nome de Nipa mówà’kan (Aquele que é capaz de compreender e vascular os corações). Tão logo fora feita a escolha, Òsun providenciou para que o escolhido adquirisse todos os conhecimentos necessários à prática da liturgia e suas ritualísticas. 

Alguns anos depois, Yèyébírù foi comunicada que o Ìrúnmólè Ìkú viria buscar Nipa mówà’kan, apesar dele ainda ser jovem. Desesperada, recorre a Òrunmìlà na tentativa de afastar do seu sacerdote a terrível sina que se aproximava. Foi com pesar que Òrunmìlà reportou-se a Yèyébírù dizendo: “O que pedes é impossível. A determinação de Olódùmarè diz que os seres humanos voltarão ao pó de onde vieram, suas almas retornarão ao infinito para prestarem contas dos seus atos. Sei que este jovem é teu protegido e que tu o amas também apesar da proibição. Esse desejo carnal a motivou retardar a ordenação sacerdotal do mesmo até a data. Infelizmente, o Ìrúnmólè Ìkú virá buscá-lo no momento exato determinado pelo seu destino” 

Desesperada, Yèyébírù suplica: Òrunmìlà, poupa a mim e a todos os que são inteiramente seres humanos desta triste tragédia. Ajuda-me a transformar o grande amor da minha vida num ser que possa voltar ao planeta Terra após a morte, mesmo que seja somente em espírito”Òrunmìlà disse-lhe: “Retornes daqui a quatro dias minha filha. Irei interceder por ti e por todos junto a Olódùmarè”.  Transcorridos os quatro dias, Yèyébírù ainda em desespero retorna a Òrunmìlà na expectativa da solução do impasse da morte de Nipa mówà’kan. 

Diante de Òrunmìlà, Yèyébírù em prantos se ajoelha e suplica: “Então, meu pai, conseguiste junto a Olódùmarè uma solução, uma trégua, enfim, responde-me, por favor?Òrunmìlà, olhando carinhosamente para Òsun, pronuncia-se: “Levanta-te minha filha, nosso Deus e Senhor foi benevolente para contigo e para com os habitantes da terra (ará-àiyé). Será criada uma morte aparente para Nipa mówà’kan, entretanto, para que tal fato se concretize, tu, que és semimortal, deverás providenciar em grande estilo a purificação e consagração do teu sacerdote. Deverás proceder de acordo com os ritos determinados afim de que o corpo de Nipa mówà’kan, após a morte, seja transformado numa ave. Esse animal será absoluto, insubstituível e único nas iniciações e consagrações dos futuros neófitos. Será também, a partir desta data, o símbolo da união dos homens com os ancestrais deificados (ebora).  

Yèyébírù preparou imediatamente o local da iniciação e consagração de conformidade com as normas e ritos que lhe foram transcritos, transformando Nipa mówà’kan no primeiro altar vivo da nossa religião. No dia seguinte da iniciação e consagração, tão logo os primeiros raios de sol surgiram no Leste, anunciando a presença do Criador, Yèyébírù apresentou Nipa mówà’kan aos quatro cantos de adoração do universo.  Ao ser colocado no centro do local onde fora consagrado, sobrevoou no infinito o pássaro Ogomugomu[2] que, ao pousar sobre a cabeça de Nipa mówà’kan, salpicou-o totalmente com um pó de cor branca. 

Pouco tempo depois, conforme havia sido previsto, o Ìrúnmólè Ìkú devolveu a terra o corpo de Nipa mówà’kan. O seu espírito foi levado à presença da Testemunha do Destino (Elérin Ìpin) no Tribunal das Almas (Ilé-Ejó Okan), para prestar contas dos seus atos na Terra. O local onde o sacerdote foi enterrado, conforme determinação de Yèyébírù, antes de retornar ao infinito transformou-se num pequeno bosque sagrado. Pouco tempo depois, neste mesmo local, surgiu uma ave de penas negras, mescladas com pintas brancas, possuindo a parte superior da cabeça azulada e sem penas, No centro da mesma, um cone formado pela sua própria estrutura. Esta ave recebeu dos nagôs iorubas o nome de “Etú” (galinha d”angola). 

PS; A história, acima narrada, elucida a obrigatoriedade da “Etu” (galinha d’angola) em toda iniciação dos neófitos da Tradição/Religião dos Orixás, uma vez que a aludida ave é absoluta, insubstituível e única, 

“Ko si etu, ko si àkóbèrè 

“Se não houver galinha d’angola, não há iniciação”. 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Mérìndilogun Kawrí” – “Os Dezesseis Búzios” – Paginas 31 e 2 – Produção Independente – Ano 2001 – ISBN – 859022261 – 6.


[1] “Mãe provedora da gestação”.

[2]  Pássaro branco, de rara beleza.

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