Mito Do Àdó – Ìran

Contam os nagôs igbomina em solo brasileiro que, Yiásãlenã, (Nome pelo qual a divindade Nàná Bùkùú é chamada pelos nagôs igbomina), após um parto conturbado, deu à luz a dois rebentos, filhos esses que, em batismo, receberam o nome de Eléwà e Èsùmàrè. 

No dia posterior ao parto, Nàná levou seus filhos para banhá-los nas águas do rio que cortava seu reino. No momento em que banhava seus filhos, observou que a menina apresentava palidez estranha, rosto arredondado e que era bem menor do que seu irmão, apesar de ter sido parida posteriormente.   

Yiásãlenã, ao perceber o que se passava, envolveu rapidamente a menina em seu manto, levando-a, em seguida, aos seus aposentos, para ser mantida oculta do brilho da luz da lua por nove dias. Antes de se retirar do ribeiro, deixou o filho varão aos cuidados de suas amas de confiança, para banhá-lo, vesti-lo e levá-lo de volta para o alojamento ao lado de sua irmã.

Durante nove dias, Yiásãlenã manteve Eléwà em reclusão em prol do restabelecimento da mesma, fez orações e incinerou folhas secas de ewé òsupá (erva da lua) junto ao leito. Terminando este período, Yiásãlenã, após colocar Eléwà de bruços em suas mãos espalmadas, apresentou-a  à Lua Nova (Ìwõkun) assim que a mesma surgiu no Òrun. 

Os anos se passaram. Eléwà cresceu mimada por todos os seus familiares. Todos a ela ensinaram suas habilidades. Com eles conheceu o poder das ervas benéficas e maléficas, a sobrevivência nas matas, aprendeu a arte da caça, da pesca, da guerra e tantas outras aptidões.  E assim cresceu formosa e radiante. Quando atingiu a adolescência, sua beleza realçou de tal forma que vários nobres por ela se apaixonaram, isto sem falarmos dos homens da plebe que por ela se afervoravam. 

Certo dia, quando participava de uma caçada, Eléwà durante a cavalgada caiu do cavalo após ter sido acometida por um mal-estar súbito. Os irmãos que a acompanhavam trataram de levá-la imediatamente para casa, temerosos com o que havia acontecido. Yiásãlenã, ao ver sua filha desfalecida, tratou imediatamente de socorrê-la, entretanto, nenhum dos seus sortilégios foi suficiente para fazer com que Eléwà recobrasse os sentidos.  Desesperada, enviou um mensageiro à cidade de Ìràwò ao encontro de Òsanyìn, seu filho, relatar-lhe o ocorrido e com ele retornar, a fim de restabelecer a saúde de Eléwà.

Tão logo chegou, Agbénígi (nome mítico pelo qual Òsanyìn é chamado pelos nagôs igbomina) tratou de socorrer sua irmã, todavia, ao passar de algumas horas, dirigiu-se a sua mãe: ‘Tenho que levar Eléwà comigo para as matas; lá poderei restabelecer sua saúde. Parto imediatamente. Tão logo esteja curada, mando-a de volta para casa.’ Nàná, sem contestar, abençoou-os e desejou-lhes boa viagem.

Os meses se passaram. Yiásãlenã, vendo que sua filha não retornava tampouco dela tinha notícias, resolveu ir pessoalmente saber o que se passava com a mesma. No trajeto, quando estava próxima de Ìràwò, foi surpreendida por sua filha que cavalgava por aquelas paragens. Nàná, ao vê-la, radiante ficou, pois Elèwà estava mais bela do que nunca, embora não parecesse mais uma princesa, e, sim, uma autêntica, bravia e destemida amazona. 

Ao ser interpelada por sua mãe sobre a sua volta para o reino, Eléwà não titubeou em respondê-la: ‘Não pretendo voltar mais a viver tal qual uma prisioneira dentro da minha própria morada. Quero viver livremente nas matas em companhia de meu irmão Agbénígi. ’  Nàná, ao perceber que nenhum argumento faria sua filha voltar a viver em sua companhia, retornou à sua terra natal, sem ao menos visitar seu filho Agbénígi em Ìràwò

Meses depois, ao entardecer de um determinado dia, Eléwà, ao retornar das matas, defrontou-se com Agbénígi com os olhos lacrimejantes. Preocupada perguntou-lhe: ‘O que se passa, meu irmão, posso lhe ajudar?’ ‘Acredito que não. Eu já vasculhei toda a floresta e não encontrei um ramo sequer das árvores de que necessito para fazer um antídoto e uma magia que cicatrize o umbigo do filho varão de um nobre da cidade de Ijebú. Ode, livrando-o, dessa forma, dos braços da morte. O pai do menino possui idade avançada e, caso o filho adoentado venha também a falecer, sua dinastia será encerrada, uma vez que esta é a quarta e última gestação permitida à esposa dele’, disse-lhe Agbénígi. ‘Quais são estas árvores e onde posso encontrá-las? Vou buscá-las para você!’, retrucou Eléwà. ‘Desista desta ideia, minha irmã; nesta época do ano, é praticamente impossível encontrar tais folhas’, respondeu-lhe Agbénígi. Com aspereza, Eléwà retrucou: ‘Eu que lhe digo; deixe de ser pessimista[1], diga-me logo quais são estas plantas, não há tempo a perder’. Agbénígi mediante persistência[2] de Eléwà respondeu-lhe: ‘Necessito de ramos das plantas denominadas idí [3], òrúru (tulipeira africana), èkùyá (muçambê) e yólòbá (erva pombinha). ’ 

Eléwà imediatamente montou em seu cavalo e, após fustigá-lo, sumiu rapidamente na poeira. Tão logo alcançou a entrada da mata, defrontou-se com Èsù, que, em tom debochado e irônico, perguntou-lhe: ‘Onde vais com tanta pressa, frágil caçadora?’ Elèwà, sabendo estar diante de um matraqueador[4], respondeu-lhe calmamente: ‘Vou adentrar e atravessar a mata cerrada, vou colher, para meu irmão Agbénígi, folhas de idí, de òrúru, de èkùyá e de yólòbá.’ Èsù, satirizando-a, retrucou: ‘Acreditas realmente que és capaz de mudar o rumo do barco da morte?  Estás perdendo seu precioso tempo; ninguém, ninguém mesmo, a não ser eu, pode atravessar o Igbó-Ìkú, colher tais plantas e sair ileso. ’ Elèwà com impostura indagou: “Quais artifícios usa para tamanha proeza?” Èsù enfatuado como sempre replicou: ‘Fácil! Sou proprietário do Àdó-ìran[5], cabaça esta que, se ao Céu apresentada for, desvendará a maneira pela qual os problemas são sanados e qual o caminho a ser tomado, para que o mesmo se realize’

Foi o suficiente. Eléwà, açoitando seu cavalo com rigidez, fez com que o mesmo levantasse suas patas dianteiras sob Èsù. No momento em que Légbá saltou para traz tal qual um jàkó (macaco) na tentativa de livrar-se das patas do cavalo, Elèwà tomou de suas mãos o Àdó-ìran. De posse do mesmo, a ágil cavaleira tal qual uma faísca adentrou a mata cerrada, deixando Èsù perplexo à entrada da floresta. 

Ao chegar ao interior da mata, Eléwà ergueu o Àdó-ìran em direção ao Céu, imaginando que seria descerrado imediatamente à sua frente o local onde encontraria as folhas desejadas. Para sua decepção, nada aconteceu.  Deduzindo ter sido ludibriada por Èsù, a virgem guerreira disse para si mesma: ‘Estou muito cansada. Recostarei por alguns instantes junto a uma dessas árvores, depois seguirei à procura dos ramos das plantas. Èsù que me aguarde, pois, quando retornar, acertarei contas com ele. Ele deixará de lograr os outros.’

Não demorou muito tempo para que a princesa caísse em sono profundo. Durante o devaneio, Eléwà teve uma visão transcendental[6]. Através dela, tomou ciência do local onde estavam localizadas as plantas e qual o caminho a ser percorrido para chegar até as mesmas. Assim que acordou, Eléwà, tomando o caminho indicado, dirigiu-se imediatamente ao local determinado através do seu sonho e, tal qual havia sido revelado, lá estavam os vegetais em questão. Após colher os ramos solicitados, retornou imediatamente ao encontro de seu irmão. 

Ao chegar em Ìràwò, Eléwà entregou imediatamente os ramos das plantas ao seu irmão, que, de imediato, providenciou uma decocção com os ramos de Òrúru, dando início ao tratamento fitolátrico do filho varão do rico mercador da cidade de ÌjèOde. Em seguida, munido de uma vara[7] medindo a altura do rebento, uma porção de efun[8], duas ânforas (uma contendo epo-pupa[9] e a outra, oyin[10]), dois pombos mesclados, folhas de idí[11], de èkùyá e de yólòbá, e de uma enxada, dirigiu-se com o menino adoentado até um bosquete que ficava dentro das propriedades do seu genitor. 

Lá chegando, escavou uma cova rasa, banhou a vara com o sumo de èkùyá e de yólòbá, colocando-a em sentido horizontal dentro da cavidade e, em seguida, realizou as ritualísticas dentro da mesma. Ao término, tapou a cova enterrando definitivamente toda a parte maléfica e negativa que acompanhava o filho do mercador. 

Dando continuidade ao ritual, Agbénígi esfacelou as folhas de idí sobre um braseiro. Quando da fumaça exalada, Agbénígi envolveu o rebento com a mesma pronunciando: ‘Ewé idí fun eléyi omokonrin i ni ti òòrun láisísilè i wà.’ (Folhas de Idí, digam para este menino que o caminho do Céu está fechado para ele).

Após transcorrerem alguns dias, Agbénígi foi visitar o rebento. Ao chegar foi recebido pelos pais do menino com muita alegria e satisfação, sendo ao mesmo oferecido um suntuoso banquete.    

 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Èjì Ologbon Àwon Àmúlù” – “Òyékú e Suas Combinações” – Paginas 134, 135, 136 e 137 – Produção Independente – Ano 2006 – ISBN -902226-3-2. 


[1]  Segundo outras correntes religiosas, o pessimismo é um dos maiores estereótipos dos filhos de Òsanyìn.

[2]  Outras vertentes religiosas afirmam que a obstinação é um dos maiores arquétipos dos filhos de Elèwà.

[3]  Nome científico “Terminalia Glaucescens Planch ex Benth”., Combretaceae – Ewé – O Uso das Plantas na Sociedade Iorubá, p. 728 – Fatumbi, Pierre Verger – Companhia das Letras. 

[4]  Pessoa que diz palavras afrontosas.

[5]  Cabaça alongada que, segundo a tradição e crença religiosa nagô, tem o poder de conceder visão do mundo sobrenatural e/ou fazer acontecer ou aparecer algo que desejamos.

[6]  Que diz respeito à razão pura, anterior a qualquer experiência. Reação mediante à formulação do pedido feito através da força inesgotável do Àdó-ìran. Apetrecho que associa Èsù a sua designação de Ìgba-Èkéta. Terceira pessoa ou terceiro elemento, literalmente a Terceira Cabaça da Existência.

[7]  Extraída da amoreira.

[8]  Cal natural.

[9]  Azeite de dendê.

[10]  Mel de abelha.

[11]  Substituída no Brasil pela amendoeira. Os nagôs igbomina e outras vertentes usam a planta (Helicheysun bracteatrum, Andr.,) da família das compostas, também chamada de “sempre-viva”. 

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