Olóòkun Sèníadé – Parábola da Aparência

Contam os igbomina no Brasil que, o soberano Olókun Sèníadé, durante os festejos em comemoração à maturidade de sua filha Ìyékundéyi, anunciou que a casaria com o jovem que atendesse às exigências impostas e fosse o vencedor das competições que seriam realizadas. 

O Adifá da cidade à Ìyékundéyi se dirigiu, aconselhando-a a consultar o oráculo sagrado para escolher com exatidão o seu pretendente. Autoritária e prepotente, ela lhe respondeu: “Recuso tua ajuda e opinião! Sou suficientemente capaz de escolher meu futuro esposo e senhor”

No dia seguinte, deram início às competições. No final, saíram vencedores dois jovens plebeus do vilarejo. Um deles era um criador de galos (alásàro àkúko), homem preguiçoso que ascendeu financeiramente fazendo-se passar por mendigo; o segundo era um criador de papagaios (alásàro odíde), homem dissimulado, intrigante e malquisto pela maioria dos habitantes do reino. Decepcionada com os acontecimentos, Ìyékundéyi resolveu de livre e espontânea vontade visitar, juntamente com suas serviçais e devida guarda pessoal, todos os empórios do reino, por mais humildes que fossem para encontrar seu grande amor. 

Ao adentrar uma estalagem para pernoitar, Ìyékundéyi defrontou-se com Àrò[1] sentado a uma mesa degustando vinho. Ao olhar para o estranho, ficou de imediato totalmente enfeitiçada com o seu olhar. Tal qual amor à primeira vista, a princesa sem qualquer precaução decidiu acompanhá-lo e tornar-se a sua esposa. Todos os seus, ao assistirem à cena, advertiram-lhe contra tal decisão. Mas de nada adiantaram os rogos, Ìyékundéyi, irredutível, pronunciou-se: “Recuso a opinião de todos vocês! Sou suficientemente capaz de decidir sobre a minha vida. Todos vocês estão livres! Por favor, voltem para o reino e relatem a meu pai a minha decisão. Tenho certeza de que ele irá compreender-me e dar-me razão”. Apesar da decisão já ter sido tomada, Alágbàtó (mãe de criação), fiel ama, indagou-lhe: “Minha senhora, o que te atrai nesse homem? Ele é uma pessoa totalmente desconhecida por todos do lugar. Ninguém do vosso reino jamais o viu por estas paragens. O que nele viste que nós não vemos?” A princesa, com a maior simplicidade, respondeu-lhe: “É o físico dele que me atrai! Os seus olhos me fascinam!”

Logo após proferir tais palavras, Ìyékundéyi agarrou-se ao braço do desconhecido e com ele adentrou a floresta. Os acompanhantes da princesa nada mais puderam fazer a não ser voltar para o reino e a Olókun Sèníadé contar todo o ocorrido. 

Quando chegaram ao interior da floresta, Àrònì determinou que Ìyékundéyi fizesse uma fogueira e preparasse-lhe algo para ceiar, enquanto ele sanaria algumas pendências na floresta.  Procurando por gravetos para acender a fogueira, a princesa não se deu por conta do quanto tinha se afastado do lugar onde seu esposo lhe havia deixado. 

Em determinado momento, começou a ouvir a voz do seu esposo. Curiosa como sempre, Ìyékundéyi sorrateiramente aproximou-se do local de onde vinham as vozes. O que presenciou neste momento deixou-a horrorizada. Àrònì, seu esposo, era um horripilante ser sobrenatural. Seu corpo se consistia somente de pescoço e cabeça. Ele não possuía braços, sequer pernas. A princesa ouviu também quando ele agradecia os dois braços que lhes foram cedidos por Ako Apá[2], as duas pernas cedidas por Ìrókò[3] e pelos dois olhos cedidos pela árvore Oriro[4]. Apavorada e totalmente desnorteada com o que havia presenciado, Ìyékundéyi soltou um grito de pavor. No momento em que a princesa ia sair correndo mata afora, Àrònì segurou-a dizendo: “Agora é tarde demais. Nada mais pode fazer a não ser continuar seguindo-me, assistindo-me e servindo-me de perto tal qual uma boa esposa. Pare de chorar! Ajeite seus cabelos! Irá ao mercado fazer compras. Trará três jarros de vinho do melhor tonel que lá encontrar para eu beber. Irá trazer também um pedaço de fumo em rolo para eu mascar, três cuias de farinha de mandioca e um pote com melado-de-cana. Não adianta chorar, trate de ajeitar-se para cumprir minhas determinações”. A princesa ainda em prantos se ajeitou para cumprir as ordens. No momento em que seguiria ao vilarejo mais próximo, Àrònì alertou-a: “Não fale a meu respeito com nenhuma pessoa. Conheço bem suas ações impulsivas e irracionais”

Assim que chegou ao mercado, a princesa tratou imediatamente de comprar tudo que seu esposo havia mandado, todavia as encomendas eram demasiadamente pesadas para transportá-las sozinha. Sendo assim, o dono do mercado (oló) providenciou uma carroça para levar as mercadorias adquiridas. Temerosa, a princesa disse-lhe que não havia necessidade, mas o comerciante tranquilizou-a dizendo: “Não se preocupe minha senhora. Eu conheço Àrònì, seu esposo e senhor. Ele vem constantemente à minha estalagem para beber. Bebe tanto que fica desfalecido. Por ser um bom cliente, vejo-me na obrigação de mandar meus empregados levá-lo até a entrada da floresta. Lá, eles o deixam estirado no solo, pois possuem medo de seres sobrenaturais”

Ìyékundéyi, após ouvir as palavras do comerciante, habilmente elaborou um plano colocando-o imediatamente em prática. Dirigindo-se ao mercador, disse-lhe: “Meu esposo e senhor é muito exigente, portanto deixa-me provar do vinho que tens em tua adega”. O Olójà (Dono do Mercado) retrucou: “Senhora, é deste vinho que Àrònì bebe sempre que vem ao meu estabelecimento”. Ìyékundéyi respondeu-lhe: “É justamente por esse motivo que eu quero provar dessa bebida. Não quero que meu esposo beba algo que lhe faça mal, portanto deixa-me provar desse vinho”. O comerciante, diante da insistência da princesa, deu-lhe uma cuia contendo do vinho que Àrònì costumava beber. Tão logo colocou o vinho na boca, Ìyékundéyi o cuspiu dizendo: “Como ousa servir bebida azeda para o meu esposo. Este vinho está passado!”. O mercador, totalmente desconcertado, desculpou-se dizendo desconhecer o fato, mas que no dia seguinte no final da tarde teria vinho de outra safra. O álibi de Ìyékundéyi havia dado certo. Dessa forma, ela poderia pleitear, junto a Àrònì, o seu retorno no dia seguinte ao vilarejo para buscar o vinho que havia faltado. 

No dia seguinte, conforme seus planos, a princesa, ao se despedir de Àrònì, disse-lhe: “Caso o vinho não tenha chegado, lá ficarei aguardando-o. Tão logo chegue, retornarei”.  Logo que se afastou da floresta, a princesa, ao invés de se dirigir ao mercado, tocou a carroça rumo a uma choupana, choça esta que, segundo informações dos empregados do mercador, era habitada por um santo homem, que era odiado pelo esposo dela. 

Ao chegar à choupana, Ìyékundéyi foi tomada de surpresa, pois o santo homem que a habitava era o Adifá do seu reino, que se fazia passar por um eremita. Ao vê-lo, a princesa caiu em prantos, ajoelhou-se aos seus pés e lhe pediu desculpas por todas as grosserias feitas sempre que o mesmo a alertava sobre os perigos aos quais estava exposta. Mas, infelizmente, o pior havia acontecido, estava totalmente apaixonada por um homem repugnante que a fazia sofrer demais e não sabia o que fazer para esquecê-lo. O Adifá, acariciando seus cabelos, disse-lhe: “Nem tudo está perdido! Vem! Deves me acompanhar até a beira do caudaloso rio que corta essas terras”

Lá chegando, o Adifá determinou que a princesa passasse pelo corpo inteiro o umbigo da flor de uma bananeira, que ele havia trazido. Em seguida, ordenou que o envolvesse num pedaço de tecido negro e o colocasse dentro de uma cabaça dividida ao meio, regando-a em seguida com óleo de mamona. 

Após todo esse ritual, o Adifá mandou a princesa colocar a oferta no rio para os cuidados da divindade Yèyémoja[5] e pedisse que esta fizesse com que ela esquecesse o amor de Àrònì, afastando-a para sempre. No momento em que a oferenda foi deixada sobre as águas, Yèyémoja delas saiu e entregou à Ìyékundéyi um cântaro (ládugbó) contendo gordura vegetal. Ordenou-a que esfregasse a gordura antes do anoitecer na árvore Ìrókò, sem que Àrònì tomasse ciência. 

A princesa, agradecida, retornou imediatamente para junto do seu esposo após retirar do mercado os jarros contendo vinho que havia encomendado. Ao chegar à floresta, convenceu de imediato Àrònì a degustar do vinho que havia trazido. Este, bebedor compulsivo, não demorou muito tempo para estar totalmente embriagado. Ìyékundéyi, aproveitando-se da embriaguez do seu esposo, derramou no chão o restante do vinho dos tonéis e em seguida adentrou a floresta para besuntar totalmente a árvore Ìrókò, conforme havia sido ordenado por Yèyémoja. 

Tão logo despertou da embriaguez, Àrònì pediu mais vinho à princesa, que imediatamente aconselhou-o a ir beber no mercado, uma vez que ele havia bebido tudo o que tinha comprado. Àròni não hesitou, pulou sobre a carroça e por pouco dela não caiu. A princesa, demonstrando preocupação, disse-lhe: “Deixa-me acompanhar-te até o mercado. Podemos beber juntos!”. Àrònì respondeu-lhe: “Se é isso que tu queres, sobe na carroça”. Mal chegaram à estalagem, Àrònì começou a beber compulsivamente. Bebeu tanto a ponto de não mais saber quem ele era. Em determinado momento, ao levantar-se para pedir mais vinho, escorregou na gordura que havia escorrido das suas pernas. Quando ao chão caiu, os membros dianteiros e os traseiros do seu corpo, que lhes foram cedidos pelas árvores, se soltaram, ficando exposta sobre o chão a figura horripilante de Àrònì. Todos os que estavam presentes na estalagem ficaram horrorizados com o que presenciaram e, munidos de paus, investiram sobre Àrò, que, como um ser sobrenatural, desapareceu do local, deixando Ìyékundéyi livre para voltar para o seu reino. 

Ao chegar ao seu reino, a princesa muniu-se de vários presentes e iguarias, providenciou uma comitiva e foi até o rio mais próximo agradecer e louvar Yèyémoja. No momento das ofertas, a Mãe Amada dos Rios (Odò Fé Yiá) saiu mais uma vez das águas do rio para receber as oferendas das mãos de sua filha. Quando do momento do agradecimento, Yèyémoja dirigiu-se à Ìyékundéyi, dizendo-lhe: “Minha filha, que tudo isso te sirva de lição. O desengano dos olhos é a morte da retina”.

“O valor de uma pedra não consiste em sua cor”. 

 

Sabedoria Ioruba

 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Èjì Ogbè Àwon Àmúlù” – “Èjìonile e Suas Combinações” – Paginas 170,171, 172, 173 e 174 – Produção Independente – Ano 2003 – ISBN – 85-902226-2-4.

 

 


[1]  Ser fantástico e sobrenatural que, segundo crença popular africana, aparece durante a noite.  Conhecedor da utilização das ervas medicinais. Crendice popular: Acredita-se que possui somente uma perna ou nenhuma.

[2]  Substituída no Brasil pela árvore denominada Acaju. Designação de várias madeiras semelhantes à do mogno verdadeiro.

[3]  Substituída no Brasil pela árvore denominada gameleira.

[4]  Substituída no Brasil pela árvore denominada amoreira.

[5]  Ancestral deificado da maior importância da família de Ìyékundéyi. 

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