O Nascimento de Òrònmìyán

Segundo os nagôs igbômina, durante um longo período, Ògún Oròminá, senhor de Iré, travou grandes batalhas com o propósito de expandir o domínio de Òdùdúwà. No tempo da batalha ao reino de Ogotún, Oròminá, além dos vários cativos, fez também prisioneiras sete lindas mulheres guerreiras, todas de linhagem real. Entre elas, estava Lakangé, que se destacava entre as demais em face de beleza que possuía. 

Oròminá, desde o momento em que a viu, por ela se apaixonou. Quando retornou à Ilé Ifè, não a entregou junto com os demais prisioneiros, sequer comentou com seu pai sobre o aprisionamento dela. Infelizmente, por ser uma pessoa impetuosa, Ògún adquiriu falsos amigos no reino de seu pai. Esses desleais, no dia seguinte da chegada de Oròminá, encarregaram-se de revelar a Òdùdúwà o esconderijo e o encoberto plano do seu filho para manter Lakangé em sua alcova, bem longe dos olhos do rei.

Ao tomar ciência do ocorrido, Òdùdúwà, encolerizado, mandou chamar Oròminá à presença dele e que o mesmo trouxesse consigo a guerreira que havia feito prisioneira em Ogotún. Tão logo avistou seu filho, Òdùdúwà falou-lhe esbravejando: “Disseram-me que tu escondeste de mim a mais bela de todas as prisioneiras? Fizeste dela tua amante?”. Ògún, com o coração despedaçado e morte na alma, mente para seu pai ao respondê-lo: “Não! Nunca pensei nisto! Eu apenas estava mantendo-a em segredo para presenteá-lo em seu aniversário”.  Fingindo ter acreditado em seu filho, Òdùdúwà dirigiu-se ao mesmo outra vez dizendo-lhe: “Sou-te muito grato. Irei tomá-la por esposa ainda hoje. Manda fazer os preparativos para o casamento[1]”. 

Nove meses após o casamento, Lakangé dá à luz um menino, que por obra do destino nasceu com a metade do corpo tomado por uma mancha negra (discromia).  Este incidente gerou comentários maliciosos, uma vez que Òdùdúwà e Lakangé possuíam a tez branca e Ògún Oròminá, seu filho, tez negra, tal qual Omonide Tabutu sua mãe. Quando trouxeram o recém-nascido à presença de Òdùdúwà, para que o mesmo conhecesse seu filho e o batizasse (Ìkómojáde), espantou-se ao ver a criança tomada por aquela mancha negra. Após olhar para seu filho Ògún Oròminá com ar de interrogação, exclama: “Òròn mi ìyán” (Cumpriu-se minha palavra). 

Òrònmìyán, ao adquirir a maturidade, tornou-se o braço direito de seu pai em Ilé Ifè. Assim sendo, Òdùdúwà ordena ao mesmo que invista e conquiste terras ao norte de Ifè. Entretanto, o descerrar da peleja não saiu a contento. Sentindo-se envergonhado e sem coragem de encarar seu pai, Òrònmìyán não retornou para Ilé Ifè. Sem ter para onde ir, fundou uma nova cidade, dando-lhe o nome de Òyó, tornando-se dessa forma o primeiro Oba Aláàfin do reino.

Tempos mais tarde, Òrònmìyán desposou a bela e sensual Morémi Ajàsorò, mulher nativa da cidade de Òfà, da qual teve um filho, que recebeu o nome de Dadá Ajàká. Não demorou muito tempo para que Òrònmìyán investisse em novas conquistas. Assim sendo, volta a guerrear contra o reino dos Tápà, onde anteriormente havia sido derrotado. Nessa nova investida, consegue uma grande vitória sobre Elémpé, rei dos Tápà. Face à derrota, o rei Elémpé firma com o mesmo uma aliança política ao permitir que o mesmo despojasse sua filha, a princesa Torosi. Desse enlace matrimonial, nasceram Àyirá e Sàngó. 

Após essa época, Òrònmìyán tornou-se vencedor de muitas batalhas, transformando dessa forma Òyó num poderoso reino. Prestigiado e redimido de sua vergonha, retorna para Ilé Ifè, deixando em seu lugar como príncipe coroado (omo aláde) seu filho Dadá Ajàká, que se torna o segundo Aláàfin de Òyó

Òrònmìyán, ao chegar a Ilé Ifè e se deparar com Obàlùfón Aláàiyémore, filho carnal de Obàlùfón Ògbógbódirin, na condição de Óòní Ifè, encolerizou-se. Raivoso com o povo de Ifè por ter elegido o filho do seu irmão mais velho, começa a cometer várias crueldades contra o povo de Ifè, parando apenas após ser interpelado por uma anciã que exclamou: Òrònmìyán, por que está exterminando teus filhos?” Nesse momento, Òrònmìyán recobra a razão e, consciente de que havia procedido de forma assassina, decide ir embora de Ifè.

Quando do seu retorno para Òyó, ao passar próximo aos arredores da cidade de Mòpá, foi interrompido pelos habitantes da localidade que o saudavam suplicando por seu retorno. Ao fazê-lo, diziam: “Òrònmìyán, Òòní Ifè wà” (Òrònmìyán, dono de Ifè). Òrònmìyán não titubeou. O procedimento daquele povo o tornou mais orgulhoso do que era. Assim sendo, após fincar seu cetro real (opa-aláde) no chão, selou com aquele povo um acordo e, junto com os mesmos, retorna triunfante ao palácio de Ifè na condição de Óòní Ifè.

Ao tomar ciência do fato, Obàlùfón Aláàiyémore, seu sobrinho, renuncia ao trono e se exila na cidade de Ìlárá, lá ficando até o falecimento do seu tio. Com a morte de Òrònmìyán, Obàlùfón Aláàiyémore retorna do exílio e reassume o trono na condição do quinto Òòní Ifè, reinando em paz até a sua morte.

 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Èjì Ogbè  Àwon Àmúlù” – “Èjìonile e Suas Combinações” – Paginas 113 e 114 – Produção Independente – Ano 2003 – ISBN – 85-902226-2-4. 


[1]   Por capricho ou ironia do destino, Lakangé casou-se com Òdùdùwà sem saber de que havia engravidado no primeiro contato sexual que teve com Ògún Òròminá.

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