A Magia Do Papagaio Da Costa

ÌSAJÉ TI ODIDE 

A MAGIA DO PAPAGAIO DA COSTA 

Contam os nagôs igbominas, em solo brasileiro, que Olodumarê (Olódùmarè) decidiu fazer uma seleção para escolher o mais atraente e inteligente dentre todos os animais que havia criado. No final da seleção, a escolhida sem sombra de dúvidas, foi a esvoaçante categoria dos pássaros. 

Por se considerar uma ave ágil e de linda plumagem, o papagaio da costa (odide) estava convicto de que seria o escolhido. Presunçoso, ele gritava que era o mais belo de todos.  Baseado em sua convicção, exibia-se entre os outros pássaros, desvanecendo-se diante dos mesmos. 

A postura tomada pelo papagaio ofendeu os demais concorrentes. Esses, ofendidos, decidiram dar-lhe uma lição. Assim sendo, juntos foram procurar um feiticeiro (Osó). Os pássaros enciumados, ao chegarem à caverna onde morava o fazedor de feitiços, disseram todos de uma só vez: ‘Queremos que nos faça uma porção de pó mágico (urúùro), que, ao ser soprada sobre o papagaio, deixe-o fora da competição’.   O feiticeiro, após concordar com a trama, tratou imediatamente de fazer a formula. Tão logo a mesma ficou pronta, entregou-a aos pássaros que rapidamente voltaram para o local da competição. 

Quando os pássaros retornaram para a pequena aldeia, ficaram possessos, uma vez que o papagaio ainda continuava se vangloriando em plena praça publica, dizendo para todos: ‘Eu serei o vencedor.  Todos vocês olhem para o animal mais atraente e inteligente dentre todos os que foram criados por Olódùmarè’ 

Desta vez, seus algozes não se incomodaram com a postura tomada pelo papagaio da costa, tampouco argumentaram com o mesmo sobre sua conduta. Eles apenas aguardavam em silêncio o momento exato para soprarem sobre o mesmo o pó mágico. E, no instante preciso, sopraram-lhe sobre as costas a aludida magia. A consequência foi instantânea. O papagaio da costa, que se encontrava descerrando um impoluto discurso soltou um grito de angústia e, em seguida, tombou ao chão, ficando estirado sobre o mesmo, tal qual um pano de chão onde todos por cima passavam.   

Durante algum tempo, o necessário para que as outras aves pudessem se apresentar, o papagaio da costa permaneceu desfalecido em plena praça pública.  Horas mais tarde, aos poucos, começou a recobrar os sentidos. De imediato, foi se aprumando lentamente.  Apesar de sentir-se enfraquecido, seguiu caminho para participar da competição.  Infelizmente, o papagaio ainda estava sobre os malefícios da magia nefasta. Assim sendo, perdeu-se no interior de uma mata cerrada, não conseguindo desta forma seguir em direção do local onde a competição estava sendo realizada. 

 Felizmente, Exu (Èsù), o senhor do equilibro, a quebra de qualquer tabu, após presenciar aquele procedimento e as consequências que o mesmo acarretou ao papagaio, resolveu ajudá-lo. Tomou-o nos braços ainda enfraquecido e o levou até a presença de Olódùmarè. Ao se apresentar diante do Criador[1], Exu (Èsù) relatou-lhe todo o ocorrido. Olódùmarè, indignado, após tomar ciência de toda a trama sórdida e do procedimento pérfido para com o papagaio, decretou a suspensão da competição, exigindo de imediato a presença de todas as aves a sua morada.  

Quando todas as aves ao Criador se apresentaram, esse se pronunciou: “Estou decepcionado com tudo que ouvi a respeito da trama pérfida que vocês planejaram. O procedimento de vocês superou toda a infantilidade do papagaio da costa. Em virtude do ato praticado, declaro o papagaio da costa como o vencedor da competição e, face à magia ter sido a arma utilizada na tentativa da desmoralização dele, determino que, em sinal de lembrança deste episódio, suas penas de hoje em diante irão encantar todas as magias, sendo também utilizadas como recordação de todas as cerimônias religiosas”. 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Mérìndilogun Kawrí” – “Os Dezesseis Búzios” – Paginas 94 e 95 – Produção Independente – Ano 2009 (Edição Revista e Ampliada) – ISBN 978-85-902226-4-4.

 

 

 

 


[1]  Sentido figurado, uma vez que o Criador é onisciente.  

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