Obatalá – O Alcoolismo E Suas Consequências.

OBÀTÁLÁ 

                  O ALCOOLISMO E SUAS CONSEQUÊNCIAS 

           Há tempos passados, Obàtálá soberano dos igbominas e ifons, caiu em descrédito ante o seu povo e em desagravo perante o criador Olódùmarè. Segundo os nagôs, a desventura do soberano em questão foi motivada pelo fato do mesmo ter-se tornado um ébrio.

           Contam que a fama e o prestígio de Obàtálá eram invejáveis. Seu reino, um dos maiores e mais pródigos, era constantemente visitado por outros soberanos que lá iam aprender a administrar seus reinos, uma vez que no reino dele não havia miséria. O povo era imensamente feliz. Obàtálá, uma vez a cada quatro dias, concedia em seu palácio audiência ao seu povo. Os primeiros a serem ouvidos eram os menos privilegiados. Deles ouvia queixas, atendia pedidos, fornecia alimentos, sementes e tudo mais necessário para que pudessem sair daquele quadro crítico. Antes do pôr do sol, fazia julgamentos, caso fossem necessários, decretava a sentença referente aos erros cometidos e, quando se despedia do seu povo, era saudado: “Bàbá Térùn” (Pai Bondoso).

          Infelizmente, o amor dedicado ao povo, a concordância à igualdade e o sentimento de fraternidade pregado por Obàtálá não eram bem vistos por todos os habitantes do reino. Temerosos com o que pudesse vir a acontecer mediante a uniformidade pregada pelo seu soberano, alguns dos componentes do conselho de anciões, concomitante com vários dos súditos privilegiados financeiramente, elaboraram, fora da cidade, um plano para colocá-lo em descrédito diante do povo, destituí-lo e exilá-lo para bem longe do reino.

           Os opressores do senhor dos igbominas e ifons, sorrateiramente, passaram a colocar pequena quantidade de um pó medicinal (è) [1] no vinho de palma, que o soberano bebia no dia anterior ao seu pronunciamento junto ao povo. A partir deste dia, Obàtálá passou a ficar confuso, pois seus súditos faziam questão de contestá-lo em voz alta na frente de todos, dizendo: “Perdão Majestade, mas não foi isto que disseste na semana passada. Vossa majestade diz uma coisa hoje; amanhã diz outra. Assim não é possível. No final das contas, nós ficamos mal diante dos outros”.

         Contrariado e entristecido, Obàtálá dava por encerrada a audiência e se recolhia aos seus aposentos, enquanto seus súditos ficavam maldizendo-o e difamando-o. Logo que se recolhia, um dos seus conselheiros lhe oferecia pedaços do fruto do meloeiro juntamente com um cântaro contendo quantidade abusiva de vinho de palma.

           Toda esta trama foi o suficiente para transformar o soberano dos igbominas e dos ifons num alcoólatra compulsivo. A partir desse incidente, por todos os lugares em que Obàtálá passava ou comparecia, era ridicularizado e chamado de ébrio. Os súditos e os poucos ministros, que antes lhe prestavam reverências, não mais o faziam. Seus opressores, sempre às ocultas, continuavam tramando contra o bondoso soberano.

          Cansado de tanto humilhação e dependente cada vez mais do vício que o destruía, Obàtálá recorreu ao Oráculo Sagrado de Ifá na tentativa de sanar a terrível desgraça que tinha se abatido sobre a sua vida, consequentemente sobre os seus reinos. Após a evocação, um ìwèfà (sacerdote eunuco) interpretou para o soberano a mensagem cifrada do oráculo sagrado: “A partir de hoje deverás abster-te do vinho de palma. Beberás somente das bebidas que antes forem degustadas por teus súditos em tua presença. Deverás também fazer uma oferenda de duas pombas, dezesseis penas da cauda do papagaio da costa (ikódíde), um aso-igúnwà (manto real) feito de linho cru, dezesseis bolas de limo da costa e um colar de contas feitas do marfim. Não deverás também jamais sentar-te à mesa junto aos teus déspotas, evitando assim que eles te traiam novamente.

           Dando continuidade à leitura oracular, o ìwèfà informou a Obàtálá que deveria subir ao topo de uma colina que ficava à entrada da cidade de Ifón antes do nascer do sol. Ao chegar ao topo da colina, deveria vestir o traje real (aso-igúnwà), colocar sobre sua cabeça a coroa (àáré), prendendo no mesmo as dezesseis minúsculas bolas de limo da costa. Deveria fixar em cada uma delas uma pena da cauda do papagaio da costa, colocar o colar em seu pescoço e por fim, quando os raios solares apontassem no leste, soltar os dois pombos para diferentes caminhos: um em direção à cidade de Ìgbó e o outro em direção à cidade de Ifón.

           No dia seguinte, Obàtálá tratou de realizar o ritual determinado. Antes do alvorecer, vestiu o aso-igúnwà determinado, colocou o àáré (coroa) adornado com as penas do papagaio fixas nas bolas feitas com o limo da costa e posiciona-se de costas para o Leste, conforme as determinações oraculares.

           Tão logo os primeiros raios de sol surgiram no leste, várias aves entoando seus cantos com veemência começaram a voar em torno da colina. O som estridente das cantorias das aves despertou os habitantes de Ifón que ao verem as aves dispersarem de Obàtálá, ficaram atônitos diante do fenômeno da transformação que acontecia com ele. A estupefação foi geral, No momento em que os raios solares surgiram com intensidade por trás de Obàtálá, dada-lhe foi a impressão de estar flutuando sobre a colina. Nesse momento, as dezesseis penas (vermelhas) do papagaio da costa fixas no coroa (àáré) deram a impressão de ser labaredas que saiam da cabeça de Obàtálá, formando um imenso e magnífico resplendor.

           Diante de tal visão, os súditos, totalmente aterrorizados e arrependidos, prostraram-se ao chão exclamando: “Elésè Esè Epà Bàbá! Ãbò mi nlá” (Oh, Pai! Pecadores aos teus pés! Meu grande amparo!). 

           O episódio da transformação do grande venerando Obàtálá, soberano dos igbominas e ifons, correu por terras da África. Por todos os lugares falava-se do seu poder de metamorfose. Este poderio devolveu-lhe todo o prestígio e respeito que havia perdido perante os seus súditos, bem como a complacência de Olódùmarè.

 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Èjì Ogbè Àwon Àmúlù” – “Èjìonile e Suas Combinações” – Paginas 200, 201 e 202 – Produção Independente – Ano 2003 – ISBN – 85-902226-2-4.

 

 

 

 

 

 

 


[1]  Neste parâmetro, causava ausência após 24 h.

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2 pensamentos sobre “Obatalá – O Alcoolismo E Suas Consequências.

  1. Ola meu pai, tudo bem por ai.Seria possivel o senhor me enviar a lista das coisas para fazer o ib do jogo de if.E tambm o tempo que leva para fazer, mais a contribuio,obrigado bjos.. motumb.

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