As 16 Lamparinas de Òsun – Como Òsun Iluminou a Noite

 

OLÓJÙ MÉRÌNDÍLOGÚN

Segundo os nagôs igbominas malês, o ritual das dezesseis lâmpadas de Oxum, é originário da súplica feita pelo poderoso caçador Olutimehin a Oxum Ieiebiru, e que faz parte da história oral da fundação do reino de Oshobô. Segundo nossa tradição oral, Olutimehin o caçador de elefantes, sedento e cansado, durante longa noite de caça, procurava por água próximo ao rio Oshobô. Absorvido por densa escuridão, que o impedia de encontrar o rio para aliviar sua sede, ele clama por Oxum Ieiebiru como aquela que ilumina a escuridão com seus dezesseis olhos. Como graça divina, surgem espíritos que iluminam o caminho para o rio. Segundo os antigos sacerdotes de nossa tradição ancestral, os ritos de iluminação são realizados de acordo com essa narrativa, que remete ao mito das Lamparinas de Oxum, a divindade da sociedade Geledê. A partir de hoje, 26 de Agosto de 2018, nós, igbominas da diáspora, retornamos a realizar o mesmo rito tal qual era feito por nossa matriarca, a venerável Ialorixá Marcolina Moreira de Araujo – Oxum-oin. O rito de iluminação feita com as lamparinas remonta os laços com a Oshogbo e com nossa matriarca Ìyá Marcolina de Oxum. Adendo: Há 600 anos foi realizado o primeiro ritual, em Oshogbo, e em nossa família faz 105 anos.

LAMPARINAS DE ÒSUN A narrativa que nos elucida o mito sobre as primeiras lamparinas (àtùpà) da divindade Oxum Ieieberu (Yèyébíru) nos foi passada pelos nagôs igbominas malês, na diáspora para solo brasileiro, da mesma maneira que era contada na cidade Oshobô (Òsogbo), em Nigéria. No início da fundação de Oshobô, a cidade era envolvida por dezesseis belos lampiões, que sustentavam a queima de um tipo de chama mística, a qual queimava durante o período do anoitecer ao alvorecer. O ambiente era denominado por “Os dezesseis olhos de Oxum” (Àtùpà Olójú Mérìndílógún Òsun), o qual se destinava a manter a proteção e a celebridade do lugar durante a noite. A chama acessa continha um encanto que protegia a cidade dos ataques humanos e perturbações sobrenaturais. Nos dias atuais, as lamparinas que representam “Os dezesseis olhos de Oxum” são acesas somente na festividade anual da cidade de Oshobô. Os nagôs igbominas malês, descendentes de escravos que viveram em solo brasileiro, preparavam seus “brilhos de fogo”(Ítànná) em panelas de ferro, contendo brasas que queimavam folhas secas de ervas aromáticas. Após o término do ritual, as cinzas eram distribuídas entre os componentes do ritual. OXUM – A LUZ NA ESCURIDÃO Os nagôs igbominas contam, em solo brasileiro, que Olodumare, o criador dos seres humanos, no primeiro dia da criação, determinou que houvesse a Luz no universo. A essa luminosidade deu o nome de Sol. Esse fulgor proporcionaria aos seres humanos o seu desenvolvimento, trabalhando e obtendo o fruto necessário para sobrevivência. Mas, a luz do sol não permanecia o tempo necessário para os seres humanos. Dessa forma, a noite surgia rapidamente, e, com ela, a escuridão longa e maçante, impedindo os seres humanos de se locomoverem. A escuridão era tamanha que não permitia a expansão da luz emanada pela lua. Os seres humanos, em desespero, clamaram aos orixás pela possibilidade de proporcionarem um período maior de luz solar. Após várias súplicas, Yèyébírú, apiedando-se dos seres humanos, pediu a Olodumare permissão para poder amenizar o sofrimento dos mesmos. Quando diante de Olodumare, Yèyébírú se pronunciou: “Senhor, me permita criar algo que faça com que o Sol permaneça por mais tempo iluminando o Mundo novo (Àiyé Titun), o Planeta Terra?” Olodumarê de imediato respondeu: “Sim, já provou por várias vezes que é um ser habilidoso. Assim sendo, eu deixarei realizar essa criação.” Tempos depois, Olodumare convocou todos os orixás a sua presença. Quando diante de todos, informou que Yèyébíru resolveu formalizar um encantamento por meio do qual faria com que o Sol permanecesse por mais tempo iluminando o “Aiyé titun” (O novo mundo). Os orixás, surpresos, perguntaram: “Quais artimanhas Yèyébíru irá aprontar desta vez?” “Saberemos daqui a pouco”, exclamou Olodumare. Tão logo Olodumare terminou sua fala, Yèyébíru, com toda a sua pele ungida por mel de abelhas, surgiu dançando diante de todos. Em sua cabeça, emanando fogo, havia uma lamparina feita de uma abóbora moganga (“elégédé”). Durante a dança, Yèyébíru entregou a Exu as sementes que havia retirado de dentro da moganga, pedindo ao mesmo que por meio de um redemoinho espalhasse as sementes no Novo Mundo (“àiyé titun”). Essa solicitação Exu executou imediatamente. “O que espera conseguir com esse procedimento?”, indagou Olodumare. Sem titubear, Yèyébiru respondeu: “Desejo que os seres humanos possam colher as mogangas, delas se alimentem, e façam delas lamparinas. Assim, iluminarão as noites.” Adendo: Este é o motivo pelo qual acendemos lamparinas durante os festivais consagrados a Òsun.

Anúncios

Os números de 2014

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos em Sydney, Opera House tem lugar para 2.700 pessoas. Este blog foi visto por cerca de 20.000 vezes em Se fosse um show na Opera House, levaria cerca de 7 shows lotados para que muitas pessoas pudessem vê-lo.

Clique aqui para ver o relatório completo

Ewé Òrìsà OYA – Folhas do Orixá OYA

Erva prata

* Erva Prata – Os nagôs iorubas a chamam de: “Ewé Dígí”.

Nome científico: Solanum argenteum.

Planta da família das Solanaceae.

Também chamada de: Erva de Santa Bárbara e de leque prateado.

Origem: Nativa do Brasil. 

Não confundir com a “erva dos unheiros”, também chamada de “erva prata”, originária da região mediterrânea.

Casuarina-3-500x500

Erva Casuarina – Os nagôs iorubas a chamam de: “Igi igbálè”.

Nome científico: Casuarina equisetifolia.

Planta da família das Casuarináceas.

Também chamada de:Pinheiro da praia, pinheiro-australiano, pinus-australiano.

Origem: Austrália. 

Nota: Uso restrito em determinados ritos relacionados à ancestral Oya.

Em Um Lugar No Passado

Com as bênçãos de Olódùmarè, do meu Ori e de Obàtálá, bem como, de todos os orixás e ancestrais deificados ou não, estarei completando 52 anos de iniciado – Deus Seja Louvado! – Sim – 1961/2013 – Cinquenta e dois anos. 

Baseado em minha história, resolvi tecer um pequeno comentário em forma de desabafo: 

Quando me iniciei no Candomblé, não havia importação para o Brasil, dos mais diversos produtos africanos destinados ao culto aos orixás. Na Praça Tiradentes, atrás do Teatro Carlos Gomes existia uma loja de artigos religiosos. Talvez, naquela época, a única do ramo no RJ. O proprietário da mesma, se não me falha a memória chamava-se Fernando Spinola. Era um senhor bem forte (gordo) – Tinha o hábito de ficar sentado em um pilão. 

Naquela época, os mais conceituados sacerdotes (as) para lá se dirigiam na esperança de adquirir os produtos que o aludido senhor vendia. Obí de quatro gomos, pena do Odide, atarê e tantas outras coisas para a liturgia não havia chegado ainda ao Brasil. 

Esclareço, que, as primeiras penas da cauda do papagaio da costa começaram a chegar pelos idos de 1960 através de uma ilustre e conceituada dama da alta sociedade. Hoje, uma das mais conceituada Ialorixá do Brasil. – Usava-se pena do papagaio brasileiro ao invés do “odidé”, anil ao invés de “waji”, urucum em lugar de “osun”, pemba branca ao invés de “efun”, grãos de pimenta branca ao invés de “lelekun”, e tantas outras adaptações. Palha da costa – Não – Usava-se palha de buriti. Raríssimos foram os iniciados (as) que colocaram em suas testa a “célebre pena da cauda do papagaio da costa” – Pena de Agbe, aluko, lekeleke …? , tá brincando…… Dessas, muitos nunca haviam ouvido falar. 

Sim – Não havia – Entretanto, os poucos sacerdotes (as) daquela época que ainda vivem estão sendo crucifixados nos dias atuais, pelos “Teólogos do Resgate da Tradição Africana dos Orixás” – Usar cebola, maça, partir “obi” de dois gomos em quatro, enfim, seja lá o que for ou que tenha sido feito no passado para manter acessa a chama da Tradição dos Orixás é visto atualmente por “várias pessoas” como prática de um bando de idiotas e incompetentes. 

Permita-me lembra-los senhores “Teólogos do Resgate” que muitos desses que hoje “vocês” chamam de idiotas, de incompetentes, e, ainda por cima satirizam, são seus ancestrais, isto, pai, mãe ou avô (a) de santo. Aplausos!!! Continuem assim. 

                                                 Àdìfá Oba Aláàiyé Fámãkindé Otuoko –  Ase Oba Ìgbó                  


Parábola Do Pequeno Sino Divinatório

Contam os nagôs iorubas em solo africano, e, em solo brasileiro que, num período longínquo, Orunmilá, ao visitar a cidade de Alo, resolveu comprar um elefante que estava à venda. Após a compra, um e outro se tornaram amigos. A partir dessa época, os dois passaram a fazer constantes passeios. Ambos executavam toda a sorte de trabalhos com o objetivo de obterem dinheiro, entretanto Orunmilá não era tão possante quanto o elefante, sendo assim, não conseguia resistir aos obstáculos.

Certa ocasião, ambos resolveram ir para a floresta. Durante três anos e três meses, os dois trabalharam arduamente na selva. Infelizmente, o dinheiro que Orunmilá ganhou com os serviços prestados era suficiente para comprar uma roupa de linho cru[1]. Retornando para casa, Orunmilá pediu ao elefante que segurasse sua roupa por alguns momentos. E o Elefante o fez. 

Quando Orunmilá retornou, a roupa havia desaparecido. O elefante negou veemente ter recebido as mesmas das mãos de Orunmilá.  O impasse se concretizou ao ponto de Orunmilá agredir o elefante. Esse, usando sua tromba, arremessou o amigo à distância. Algumas horas mais tarde, ambos fingindo estarem mais calmos, retomaram o caminho de volta para casa, sem pronunciarem uma só palavra.

Ao cruzarem uma encruzilhada, ambos se separaram. Orunmilá seguiu para a cidade de Ado e o elefante para Alo, cidade natal do seu antigo dono. A caminho de Ado, Orunmilá cruzou com um caçador de elefantes. Orunmilá , não se fazendo de rogado, disse para o caçador: ‘Eu sei onde podes achar um elefante e mata-lo’. ‘Mostre-me o caminho’ disse o caçador. Orunmilá sem titubear tomou juntamente com o caçador o caminho da cidade de Alo.

Durante o caminho, Orunmilá disse ao caçador: ‘Assim que o caçares e matá-lo, deverás abrir a barriga do mesmo. Ao abri-la, encontrarás uma roupa branca que me pertence’.   O caçador respondeu de imediato: ‘Se for verdade o que dizes, terás tua roupa de volta’. 

Horas mais tarde, o caçador encontrou o elefante e o matou. Quando a barriga do mesmo abriu, achou a roupa branca sobre a qual Orunmilá havia falado.  Imediatamente, agraciando Orunmilá pela caça, deu-lhe uma das presas do elefante, juntamente com a roupa branca que pertencia ao mesmo. Em virtude da hipocrisia do elefante, Orunmilá transformou a presa (dente incisivo) do mesmo que havia ganho de presente em uma sineta. 

Esse instrumento é usado até os dias atuais por seus sacerdotes, quando da evocação do mesmo para uma consulta oracular, lembrando-os de que não devem usar de falsidade para com os que os procurarem. 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Mérìndilogun Kawrí” – “Os Dezesseis Búzios” – Paginas 47 e 48 – Produção Independente – Ano 2009 – ISBN – 978-85-902226-4-4.  – Edição Revista e Ampliada. 

 


[1] – Tecido branco da época. Esclarecimento: Nos primórdios da humanidade, não havia alvejante, sendo assim, o tecido branco de outrora não era alvinitente como os atuais.

 

Obatalá – O Alcoolismo E Suas Consequências.

OBÀTÁLÁ 

                  O ALCOOLISMO E SUAS CONSEQUÊNCIAS 

           Há tempos passados, Obàtálá soberano dos igbominas e ifons, caiu em descrédito ante o seu povo e em desagravo perante o criador Olódùmarè. Segundo os nagôs, a desventura do soberano em questão foi motivada pelo fato do mesmo ter-se tornado um ébrio.

           Contam que a fama e o prestígio de Obàtálá eram invejáveis. Seu reino, um dos maiores e mais pródigos, era constantemente visitado por outros soberanos que lá iam aprender a administrar seus reinos, uma vez que no reino dele não havia miséria. O povo era imensamente feliz. Obàtálá, uma vez a cada quatro dias, concedia em seu palácio audiência ao seu povo. Os primeiros a serem ouvidos eram os menos privilegiados. Deles ouvia queixas, atendia pedidos, fornecia alimentos, sementes e tudo mais necessário para que pudessem sair daquele quadro crítico. Antes do pôr do sol, fazia julgamentos, caso fossem necessários, decretava a sentença referente aos erros cometidos e, quando se despedia do seu povo, era saudado: “Bàbá Térùn” (Pai Bondoso).

          Infelizmente, o amor dedicado ao povo, a concordância à igualdade e o sentimento de fraternidade pregado por Obàtálá não eram bem vistos por todos os habitantes do reino. Temerosos com o que pudesse vir a acontecer mediante a uniformidade pregada pelo seu soberano, alguns dos componentes do conselho de anciões, concomitante com vários dos súditos privilegiados financeiramente, elaboraram, fora da cidade, um plano para colocá-lo em descrédito diante do povo, destituí-lo e exilá-lo para bem longe do reino.

           Os opressores do senhor dos igbominas e ifons, sorrateiramente, passaram a colocar pequena quantidade de um pó medicinal (è) [1] no vinho de palma, que o soberano bebia no dia anterior ao seu pronunciamento junto ao povo. A partir deste dia, Obàtálá passou a ficar confuso, pois seus súditos faziam questão de contestá-lo em voz alta na frente de todos, dizendo: “Perdão Majestade, mas não foi isto que disseste na semana passada. Vossa majestade diz uma coisa hoje; amanhã diz outra. Assim não é possível. No final das contas, nós ficamos mal diante dos outros”.

         Contrariado e entristecido, Obàtálá dava por encerrada a audiência e se recolhia aos seus aposentos, enquanto seus súditos ficavam maldizendo-o e difamando-o. Logo que se recolhia, um dos seus conselheiros lhe oferecia pedaços do fruto do meloeiro juntamente com um cântaro contendo quantidade abusiva de vinho de palma.

           Toda esta trama foi o suficiente para transformar o soberano dos igbominas e dos ifons num alcoólatra compulsivo. A partir desse incidente, por todos os lugares em que Obàtálá passava ou comparecia, era ridicularizado e chamado de ébrio. Os súditos e os poucos ministros, que antes lhe prestavam reverências, não mais o faziam. Seus opressores, sempre às ocultas, continuavam tramando contra o bondoso soberano.

          Cansado de tanto humilhação e dependente cada vez mais do vício que o destruía, Obàtálá recorreu ao Oráculo Sagrado de Ifá na tentativa de sanar a terrível desgraça que tinha se abatido sobre a sua vida, consequentemente sobre os seus reinos. Após a evocação, um ìwèfà (sacerdote eunuco) interpretou para o soberano a mensagem cifrada do oráculo sagrado: “A partir de hoje deverás abster-te do vinho de palma. Beberás somente das bebidas que antes forem degustadas por teus súditos em tua presença. Deverás também fazer uma oferenda de duas pombas, dezesseis penas da cauda do papagaio da costa (ikódíde), um aso-igúnwà (manto real) feito de linho cru, dezesseis bolas de limo da costa e um colar de contas feitas do marfim. Não deverás também jamais sentar-te à mesa junto aos teus déspotas, evitando assim que eles te traiam novamente.

           Dando continuidade à leitura oracular, o ìwèfà informou a Obàtálá que deveria subir ao topo de uma colina que ficava à entrada da cidade de Ifón antes do nascer do sol. Ao chegar ao topo da colina, deveria vestir o traje real (aso-igúnwà), colocar sobre sua cabeça a coroa (àáré), prendendo no mesmo as dezesseis minúsculas bolas de limo da costa. Deveria fixar em cada uma delas uma pena da cauda do papagaio da costa, colocar o colar em seu pescoço e por fim, quando os raios solares apontassem no leste, soltar os dois pombos para diferentes caminhos: um em direção à cidade de Ìgbó e o outro em direção à cidade de Ifón.

           No dia seguinte, Obàtálá tratou de realizar o ritual determinado. Antes do alvorecer, vestiu o aso-igúnwà determinado, colocou o àáré (coroa) adornado com as penas do papagaio fixas nas bolas feitas com o limo da costa e posiciona-se de costas para o Leste, conforme as determinações oraculares.

           Tão logo os primeiros raios de sol surgiram no leste, várias aves entoando seus cantos com veemência começaram a voar em torno da colina. O som estridente das cantorias das aves despertou os habitantes de Ifón que ao verem as aves dispersarem de Obàtálá, ficaram atônitos diante do fenômeno da transformação que acontecia com ele. A estupefação foi geral, No momento em que os raios solares surgiram com intensidade por trás de Obàtálá, dada-lhe foi a impressão de estar flutuando sobre a colina. Nesse momento, as dezesseis penas (vermelhas) do papagaio da costa fixas no coroa (àáré) deram a impressão de ser labaredas que saiam da cabeça de Obàtálá, formando um imenso e magnífico resplendor.

           Diante de tal visão, os súditos, totalmente aterrorizados e arrependidos, prostraram-se ao chão exclamando: “Elésè Esè Epà Bàbá! Ãbò mi nlá” (Oh, Pai! Pecadores aos teus pés! Meu grande amparo!). 

           O episódio da transformação do grande venerando Obàtálá, soberano dos igbominas e ifons, correu por terras da África. Por todos os lugares falava-se do seu poder de metamorfose. Este poderio devolveu-lhe todo o prestígio e respeito que havia perdido perante os seus súditos, bem como a complacência de Olódùmarè.

 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Èjì Ogbè Àwon Àmúlù” – “Èjìonile e Suas Combinações” – Paginas 200, 201 e 202 – Produção Independente – Ano 2003 – ISBN – 85-902226-2-4.

 

 

 

 

 

 

 


[1]  Neste parâmetro, causava ausência após 24 h.

Òwe Ìbáre Olõ-tó – Parábola da Amizade Sincera

ÒWE ÌBÁRE OLÕ-TÓ 

PARÁBOLA DA AMIZADE SINCERA[1]

Os nagôs igbomina narram, em solo africano, que, Òrunmìlà, quando da sua estada na terra personificado na forma de um homem de renome, importante e abastado, certa ocasião, resolveu colocar em teste a amizade dos seus companheiros, em especial daqueles que compartilhavam das suas ideias e frequentavam sua morada. Assim sendo, convidou a todos para um banquete que seria realizado em sua casa. Todos compareceram. 

Quando juntos estavam todos sentados à mesa comendo e bebendo, Òrunmìlà perguntou-os: ‘Dos que aqui estão sentados ao meu redor, quantos e quais são meus verdadeiros amigos?’ De imediato, todos foram unânimes em responder: ‘Dessa forma, ilustre senhor, vós nos ofende’.   Òrunmìlà com leve sorriso nos lábios disse: ‘Tenho planos para todos que aqui estão, entretanto não desejo absolver ou condenar qualquer um de vós. Portanto irei consultar o oráculo para saber quais as providências serão necessárias para que seja revelado o nome de quem será meu amigo íntimo (òré-nínúnínú).  Amanhã vocês deverão retornar à minha casa, um de cada vez, para saber qual foi a determinação oracular’. 

Os convidados de Òrunmìlà, longe de imaginarem que a consulta oracular seria uma encenação, retiraram-se comprometendo-se a voltarem no dia seguinte. Tão logo os favorecidos se retiraram, Òrunmìlà disse para sua esposa: ‘Amanhã, quando um após o outro retornar, você anunciará a minha morte. Quando os mesmos pedirem para ver o corpo, diga que já fui enterrado. Em seguida, ouça o que eles dirão’.  Dessa forma, a esposa de Òrunmìlà procedeu. 

No dia seguinte, cada um que chegava, um mais dissimulado do que o outro expressava seus sentimentos, tentando consolar a viúva. Quando todos os amigos de Òrunmìlà estavam reunidos, um deles pronunciou-se: ‘Senhora, por acaso lembra-te daqueles bùbá’s (camisas), sòkoto’s (calças) e agbáda’s (vestimenta eclesiástica) que mandamos confeccionar alguns meses atrás?’ Continuando o diálogo disse: ‘Bem, teu esposo pediu-me para providenciar a confecção, entretanto, não me ressarciu após ter mandado faze-las’.  A esposa de Òrunmìlà indagou: ‘Quanto pagastes para confeccionar tais roupas?’ O homem respondeu: ‘Quarenta e seis kawrí’s’. Após o homem terminar sua fala, a viúva pediu licença e foi até o esconderijo de Òrunmìlà perguntar-lhe se ele ouvira as palavras do seu amigo. Òrunmìlà respondeu: ‘Sim. Pegue os kawrí’s e o pague’. 

Tão logo a viúva ressarciu o amigo de Òrunmìlà, os demais que se encontrava em sua casa começaram alegar que Òrunmìlà os devia dinheiro.  A viúva sem questionar valores, pagou um a um dos companheiros do seu falecido esposo. Quando todos haviam se retirado, a esposa de Òrunmìlà ao atender quem a sua porta batia, defrontou-se com Èsù em prantos. De imediato perguntou-lhe: ‘Quantos kawrí’s meu falecido esposo ficou lhe devendo?’ Èsù respondeu-lhe: ‘Dessa forma a senhora me ofende. Òrunmìlà sempre foi meu benfeitor. Tudo que sou e possuo devo a ele. Vim lhe prestar solidariedade e colocar-me ao seu dispor no que a senhora necessitar’. 

Òrunmìlà após ouvir as palavras de Èsù, saiu do seu esconderijo para a perplexidade do mesmo, e antes que se refizesse do susto, revelou que tudo não se passava de uma dissimulação para saber ao certo quem era seu amigo sincero.  Desde essa época, Èsù e Òrunmìlà tem sido grandes amigos. 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Mérìndilogun Kawrí” – “Os Dezesseis Búzios” – Paginas 122 e 123 – Produção Independente – Ano 2009 (Edição Revista e Ampliada) – ISBN 978-85-902226-4-4. 

 

 


[1]  Bascon. “Ifá Divination”.  Indiana University Press. 1969. P. 102. Mito Semelhante.

Àló Iyìn Ògún – Alàdá Méjì – Mito da Aclamação de Ogum – Dono De Duas Espadas

forja

 

ÀLÓ IYÌN ÒGÚN – ALÀDÁ MÉJÌ

MITO DA ACLAMAÇÃO DE ÒGÚN – DONO DE DUAS ESPADAS.

Contam os nagôs igbominas que, certa ocasião, o ancestral Oròminá[1], sentindo-se por demais cansados antes de seguir para uma batalha, decidiu consultar o oráculo de Ifá. Quando da consulta, foi lhe aconselhado que imolasse um galo em honra à sua cabeça (Orí) e que o sangue do animal, ao ser derramado, deveria escorrer sobre a lâmina do seu alfanje.   Aconselharam-lhe também que após a imolação se alimentasse do repasto sentado à frente da cabeça (orí), dos flancos das asas (apá) e das patas (sigù) do animal imolado. 

 Disseram-lhe também que, após o repasto, colocasse sobre sua própria cabeça as partes do animal sacrificado, envolvendo-a em seguida com um turbante (láwàní) de linho branco.  Dando continuidade aos ensinamentos, disseram-lhe que deveria se encaminhar até uma árvore de grande porte, levando consigo um inhame (iyán) assado e o alfanje consagrado. Determinaram-lhe também que, ao chegar ao local, deveria colocar aos pés da mesma o turbante que envolvera sua cabeça juntamente com as partes do animal imolado.  Em seguida, de pé em frente à imponente árvore deveria alimentar-se do inhame que havia levado. Após a realização do ritual, o oráculo revelou para Oròminá que o alfanje seria a chave de sua prosperidade, devendo carregá-lo para onde quer que fosse. 

Quando do retorno a sua moradia, Ògún sentindo-se sedento, decidiu apear e beber da água do rio que antecedia seu reino. Após saciar a sede, Oròminá percebeu que havia duas pessoas lutando por causa de um peixe que haviam pescado. Esse, ao presenciar aquela cena, aos dois homens se dirigiu, aconselhando-os a não dar continuidade àquela contenda. Disse-lhes que deveriam ir para casa e compartilharem o peixe. 

Eles recusaram. O primeiro homem dizia que tinha vindo do leste e o segundo, vindo do oeste.  Depois de ouvir as explicações de ambos, Oròminá, fazendo uso do seu alfanje partiu o peixe em duas partes. Em seguida, deu-as para assar e delas ali mesmo se alimentarem.  Os dois homens aceitaram. Após se alimentarem, ambos pediram a Oròminá que fizesse uso do seu alfanje para abrir um caminho que os levasse de volta para suas casas, prometendo ao mesmo, caso isso fizesse, enriquecerem sua vida. Assim Oròminá fez. 

Quando do término da abertura do caminho, para sua surpresa, Ògún defrontou-se com uma só localidade.  Era o reino de dois irmãos que haviam se desentendido em face de traição de falsos amigos e conselheiros.  O monarca e os leais súditos, ao reverem os dois irmãos, correram para dar-lhes as boas vindas. Após ouvirem dos mesmos toda o ocorrido, começaram a aclamar Oròminá proferindo “Ògún Oròminá, alàdá[2] méjì” (Ògún Oròminá, dono de duas espadas). 

Esclarecimentos: A narrativa acima elucida com esmero a origem dos epítetos “Ògún alàdá méjì” (Ògún dono de duas espadas) e “Ògún eja pínnimejí” (Ògún dividiu o peixe em duas partes) dados ao ancestral Ògún, consequentemente ao Odù Ògúndá Méjì. 

 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Mérìndilogun Kawrí” – “Os Dezesseis Búzios” – Paginas 175 e 176 – Produção Independente – Ano 2009 (Edição Revista e Ampliada) – ISBN 978-85-902226-4-4.

 

 


[1]   Nome pelo qual o ancestral Ògún é evocado em seu altar individual.

[2]   Forma abreviada de “alá” (prefixo de um verbo equivalente a “oní” [aquele que possui], acrescido da palavra “àdá” (espécie de espada curta com duas lâminas).     

Ewé Obàtálá – Ervas de Obàtálá

IngazeiroIngazeiro – Nome Científico: Inga sessilis. Família: Fabaceae (Leguminosae). Nome em ioruba: Kolomi Também chamada de: Ingá do brejo, ingá de quatro quinas, Ingazeiro, ingá banana, angá – Origem: Brasil – Amazônia. Árvore de grande porte que pode atingir 15m de altura.

Fruta pão

Fruta Pão – Nome Científico: Artocarpus incisa L. – Família: MoraceaeNome em ioruba: Bèrèfútù Também chamada de: Pão dos pobres Origem: É remota e distante: conta-se ter sido cultivada desde épocas pré-históricas no arquipélago malasiano, sobretudo nas ilhas de Java e Sumatra, de onde se presume que seja originária. De lá, espalhou-se pelas ilhas do Pacífico Sul, onde mais tarde foi encontrada pelos ingleses.

A Magia Do Papagaio Da Costa

ÌSAJÉ TI ODIDE 

A MAGIA DO PAPAGAIO DA COSTA 

Contam os nagôs igbominas, em solo brasileiro, que Olodumarê (Olódùmarè) decidiu fazer uma seleção para escolher o mais atraente e inteligente dentre todos os animais que havia criado. No final da seleção, a escolhida sem sombra de dúvidas, foi a esvoaçante categoria dos pássaros. 

Por se considerar uma ave ágil e de linda plumagem, o papagaio da costa (odide) estava convicto de que seria o escolhido. Presunçoso, ele gritava que era o mais belo de todos.  Baseado em sua convicção, exibia-se entre os outros pássaros, desvanecendo-se diante dos mesmos. 

A postura tomada pelo papagaio ofendeu os demais concorrentes. Esses, ofendidos, decidiram dar-lhe uma lição. Assim sendo, juntos foram procurar um feiticeiro (Osó). Os pássaros enciumados, ao chegarem à caverna onde morava o fazedor de feitiços, disseram todos de uma só vez: ‘Queremos que nos faça uma porção de pó mágico (urúùro), que, ao ser soprada sobre o papagaio, deixe-o fora da competição’.   O feiticeiro, após concordar com a trama, tratou imediatamente de fazer a formula. Tão logo a mesma ficou pronta, entregou-a aos pássaros que rapidamente voltaram para o local da competição. 

Quando os pássaros retornaram para a pequena aldeia, ficaram possessos, uma vez que o papagaio ainda continuava se vangloriando em plena praça publica, dizendo para todos: ‘Eu serei o vencedor.  Todos vocês olhem para o animal mais atraente e inteligente dentre todos os que foram criados por Olódùmarè’ 

Desta vez, seus algozes não se incomodaram com a postura tomada pelo papagaio da costa, tampouco argumentaram com o mesmo sobre sua conduta. Eles apenas aguardavam em silêncio o momento exato para soprarem sobre o mesmo o pó mágico. E, no instante preciso, sopraram-lhe sobre as costas a aludida magia. A consequência foi instantânea. O papagaio da costa, que se encontrava descerrando um impoluto discurso soltou um grito de angústia e, em seguida, tombou ao chão, ficando estirado sobre o mesmo, tal qual um pano de chão onde todos por cima passavam.   

Durante algum tempo, o necessário para que as outras aves pudessem se apresentar, o papagaio da costa permaneceu desfalecido em plena praça pública.  Horas mais tarde, aos poucos, começou a recobrar os sentidos. De imediato, foi se aprumando lentamente.  Apesar de sentir-se enfraquecido, seguiu caminho para participar da competição.  Infelizmente, o papagaio ainda estava sobre os malefícios da magia nefasta. Assim sendo, perdeu-se no interior de uma mata cerrada, não conseguindo desta forma seguir em direção do local onde a competição estava sendo realizada. 

 Felizmente, Exu (Èsù), o senhor do equilibro, a quebra de qualquer tabu, após presenciar aquele procedimento e as consequências que o mesmo acarretou ao papagaio, resolveu ajudá-lo. Tomou-o nos braços ainda enfraquecido e o levou até a presença de Olódùmarè. Ao se apresentar diante do Criador[1], Exu (Èsù) relatou-lhe todo o ocorrido. Olódùmarè, indignado, após tomar ciência de toda a trama sórdida e do procedimento pérfido para com o papagaio, decretou a suspensão da competição, exigindo de imediato a presença de todas as aves a sua morada.  

Quando todas as aves ao Criador se apresentaram, esse se pronunciou: “Estou decepcionado com tudo que ouvi a respeito da trama pérfida que vocês planejaram. O procedimento de vocês superou toda a infantilidade do papagaio da costa. Em virtude do ato praticado, declaro o papagaio da costa como o vencedor da competição e, face à magia ter sido a arma utilizada na tentativa da desmoralização dele, determino que, em sinal de lembrança deste episódio, suas penas de hoje em diante irão encantar todas as magias, sendo também utilizadas como recordação de todas as cerimônias religiosas”. 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Mérìndilogun Kawrí” – “Os Dezesseis Búzios” – Paginas 94 e 95 – Produção Independente – Ano 2009 (Edição Revista e Ampliada) – ISBN 978-85-902226-4-4.

 

 

 

 


[1]  Sentido figurado, uma vez que o Criador é onisciente.