Parábola Do Pequeno Sino Divinatório

Contam os nagôs iorubas em solo africano, e, em solo brasileiro que, num período longínquo, Orunmilá, ao visitar a cidade de Alo, resolveu comprar um elefante que estava à venda. Após a compra, um e outro se tornaram amigos. A partir dessa época, os dois passaram a fazer constantes passeios. Ambos executavam toda a sorte de trabalhos com o objetivo de obterem dinheiro, entretanto Orunmilá não era tão possante quanto o elefante, sendo assim, não conseguia resistir aos obstáculos.

Certa ocasião, ambos resolveram ir para a floresta. Durante três anos e três meses, os dois trabalharam arduamente na selva. Infelizmente, o dinheiro que Orunmilá ganhou com os serviços prestados era suficiente para comprar uma roupa de linho cru[1]. Retornando para casa, Orunmilá pediu ao elefante que segurasse sua roupa por alguns momentos. E o Elefante o fez. 

Quando Orunmilá retornou, a roupa havia desaparecido. O elefante negou veemente ter recebido as mesmas das mãos de Orunmilá.  O impasse se concretizou ao ponto de Orunmilá agredir o elefante. Esse, usando sua tromba, arremessou o amigo à distância. Algumas horas mais tarde, ambos fingindo estarem mais calmos, retomaram o caminho de volta para casa, sem pronunciarem uma só palavra.

Ao cruzarem uma encruzilhada, ambos se separaram. Orunmilá seguiu para a cidade de Ado e o elefante para Alo, cidade natal do seu antigo dono. A caminho de Ado, Orunmilá cruzou com um caçador de elefantes. Orunmilá , não se fazendo de rogado, disse para o caçador: ‘Eu sei onde podes achar um elefante e mata-lo’. ‘Mostre-me o caminho’ disse o caçador. Orunmilá sem titubear tomou juntamente com o caçador o caminho da cidade de Alo.

Durante o caminho, Orunmilá disse ao caçador: ‘Assim que o caçares e matá-lo, deverás abrir a barriga do mesmo. Ao abri-la, encontrarás uma roupa branca que me pertence’.   O caçador respondeu de imediato: ‘Se for verdade o que dizes, terás tua roupa de volta’. 

Horas mais tarde, o caçador encontrou o elefante e o matou. Quando a barriga do mesmo abriu, achou a roupa branca sobre a qual Orunmilá havia falado.  Imediatamente, agraciando Orunmilá pela caça, deu-lhe uma das presas do elefante, juntamente com a roupa branca que pertencia ao mesmo. Em virtude da hipocrisia do elefante, Orunmilá transformou a presa (dente incisivo) do mesmo que havia ganho de presente em uma sineta. 

Esse instrumento é usado até os dias atuais por seus sacerdotes, quando da evocação do mesmo para uma consulta oracular, lembrando-os de que não devem usar de falsidade para com os que os procurarem. 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Mérìndilogun Kawrí” – “Os Dezesseis Búzios” – Paginas 47 e 48 – Produção Independente – Ano 2009 – ISBN – 978-85-902226-4-4.  – Edição Revista e Ampliada. 

 


[1] – Tecido branco da época. Esclarecimento: Nos primórdios da humanidade, não havia alvejante, sendo assim, o tecido branco de outrora não era alvinitente como os atuais.

 

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Òwe Ìbáre Olõ-tó – Parábola da Amizade Sincera

ÒWE ÌBÁRE OLÕ-TÓ 

PARÁBOLA DA AMIZADE SINCERA[1]

Os nagôs igbomina narram, em solo africano, que, Òrunmìlà, quando da sua estada na terra personificado na forma de um homem de renome, importante e abastado, certa ocasião, resolveu colocar em teste a amizade dos seus companheiros, em especial daqueles que compartilhavam das suas ideias e frequentavam sua morada. Assim sendo, convidou a todos para um banquete que seria realizado em sua casa. Todos compareceram. 

Quando juntos estavam todos sentados à mesa comendo e bebendo, Òrunmìlà perguntou-os: ‘Dos que aqui estão sentados ao meu redor, quantos e quais são meus verdadeiros amigos?’ De imediato, todos foram unânimes em responder: ‘Dessa forma, ilustre senhor, vós nos ofende’.   Òrunmìlà com leve sorriso nos lábios disse: ‘Tenho planos para todos que aqui estão, entretanto não desejo absolver ou condenar qualquer um de vós. Portanto irei consultar o oráculo para saber quais as providências serão necessárias para que seja revelado o nome de quem será meu amigo íntimo (òré-nínúnínú).  Amanhã vocês deverão retornar à minha casa, um de cada vez, para saber qual foi a determinação oracular’. 

Os convidados de Òrunmìlà, longe de imaginarem que a consulta oracular seria uma encenação, retiraram-se comprometendo-se a voltarem no dia seguinte. Tão logo os favorecidos se retiraram, Òrunmìlà disse para sua esposa: ‘Amanhã, quando um após o outro retornar, você anunciará a minha morte. Quando os mesmos pedirem para ver o corpo, diga que já fui enterrado. Em seguida, ouça o que eles dirão’.  Dessa forma, a esposa de Òrunmìlà procedeu. 

No dia seguinte, cada um que chegava, um mais dissimulado do que o outro expressava seus sentimentos, tentando consolar a viúva. Quando todos os amigos de Òrunmìlà estavam reunidos, um deles pronunciou-se: ‘Senhora, por acaso lembra-te daqueles bùbá’s (camisas), sòkoto’s (calças) e agbáda’s (vestimenta eclesiástica) que mandamos confeccionar alguns meses atrás?’ Continuando o diálogo disse: ‘Bem, teu esposo pediu-me para providenciar a confecção, entretanto, não me ressarciu após ter mandado faze-las’.  A esposa de Òrunmìlà indagou: ‘Quanto pagastes para confeccionar tais roupas?’ O homem respondeu: ‘Quarenta e seis kawrí’s’. Após o homem terminar sua fala, a viúva pediu licença e foi até o esconderijo de Òrunmìlà perguntar-lhe se ele ouvira as palavras do seu amigo. Òrunmìlà respondeu: ‘Sim. Pegue os kawrí’s e o pague’. 

Tão logo a viúva ressarciu o amigo de Òrunmìlà, os demais que se encontrava em sua casa começaram alegar que Òrunmìlà os devia dinheiro.  A viúva sem questionar valores, pagou um a um dos companheiros do seu falecido esposo. Quando todos haviam se retirado, a esposa de Òrunmìlà ao atender quem a sua porta batia, defrontou-se com Èsù em prantos. De imediato perguntou-lhe: ‘Quantos kawrí’s meu falecido esposo ficou lhe devendo?’ Èsù respondeu-lhe: ‘Dessa forma a senhora me ofende. Òrunmìlà sempre foi meu benfeitor. Tudo que sou e possuo devo a ele. Vim lhe prestar solidariedade e colocar-me ao seu dispor no que a senhora necessitar’. 

Òrunmìlà após ouvir as palavras de Èsù, saiu do seu esconderijo para a perplexidade do mesmo, e antes que se refizesse do susto, revelou que tudo não se passava de uma dissimulação para saber ao certo quem era seu amigo sincero.  Desde essa época, Èsù e Òrunmìlà tem sido grandes amigos. 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Mérìndilogun Kawrí” – “Os Dezesseis Búzios” – Paginas 122 e 123 – Produção Independente – Ano 2009 (Edição Revista e Ampliada) – ISBN 978-85-902226-4-4. 

 

 


[1]  Bascon. “Ifá Divination”.  Indiana University Press. 1969. P. 102. Mito Semelhante.

A Magia Do Papagaio Da Costa

ÌSAJÉ TI ODIDE 

A MAGIA DO PAPAGAIO DA COSTA 

Contam os nagôs igbominas, em solo brasileiro, que Olodumarê (Olódùmarè) decidiu fazer uma seleção para escolher o mais atraente e inteligente dentre todos os animais que havia criado. No final da seleção, a escolhida sem sombra de dúvidas, foi a esvoaçante categoria dos pássaros. 

Por se considerar uma ave ágil e de linda plumagem, o papagaio da costa (odide) estava convicto de que seria o escolhido. Presunçoso, ele gritava que era o mais belo de todos.  Baseado em sua convicção, exibia-se entre os outros pássaros, desvanecendo-se diante dos mesmos. 

A postura tomada pelo papagaio ofendeu os demais concorrentes. Esses, ofendidos, decidiram dar-lhe uma lição. Assim sendo, juntos foram procurar um feiticeiro (Osó). Os pássaros enciumados, ao chegarem à caverna onde morava o fazedor de feitiços, disseram todos de uma só vez: ‘Queremos que nos faça uma porção de pó mágico (urúùro), que, ao ser soprada sobre o papagaio, deixe-o fora da competição’.   O feiticeiro, após concordar com a trama, tratou imediatamente de fazer a formula. Tão logo a mesma ficou pronta, entregou-a aos pássaros que rapidamente voltaram para o local da competição. 

Quando os pássaros retornaram para a pequena aldeia, ficaram possessos, uma vez que o papagaio ainda continuava se vangloriando em plena praça publica, dizendo para todos: ‘Eu serei o vencedor.  Todos vocês olhem para o animal mais atraente e inteligente dentre todos os que foram criados por Olódùmarè’ 

Desta vez, seus algozes não se incomodaram com a postura tomada pelo papagaio da costa, tampouco argumentaram com o mesmo sobre sua conduta. Eles apenas aguardavam em silêncio o momento exato para soprarem sobre o mesmo o pó mágico. E, no instante preciso, sopraram-lhe sobre as costas a aludida magia. A consequência foi instantânea. O papagaio da costa, que se encontrava descerrando um impoluto discurso soltou um grito de angústia e, em seguida, tombou ao chão, ficando estirado sobre o mesmo, tal qual um pano de chão onde todos por cima passavam.   

Durante algum tempo, o necessário para que as outras aves pudessem se apresentar, o papagaio da costa permaneceu desfalecido em plena praça pública.  Horas mais tarde, aos poucos, começou a recobrar os sentidos. De imediato, foi se aprumando lentamente.  Apesar de sentir-se enfraquecido, seguiu caminho para participar da competição.  Infelizmente, o papagaio ainda estava sobre os malefícios da magia nefasta. Assim sendo, perdeu-se no interior de uma mata cerrada, não conseguindo desta forma seguir em direção do local onde a competição estava sendo realizada. 

 Felizmente, Exu (Èsù), o senhor do equilibro, a quebra de qualquer tabu, após presenciar aquele procedimento e as consequências que o mesmo acarretou ao papagaio, resolveu ajudá-lo. Tomou-o nos braços ainda enfraquecido e o levou até a presença de Olódùmarè. Ao se apresentar diante do Criador[1], Exu (Èsù) relatou-lhe todo o ocorrido. Olódùmarè, indignado, após tomar ciência de toda a trama sórdida e do procedimento pérfido para com o papagaio, decretou a suspensão da competição, exigindo de imediato a presença de todas as aves a sua morada.  

Quando todas as aves ao Criador se apresentaram, esse se pronunciou: “Estou decepcionado com tudo que ouvi a respeito da trama pérfida que vocês planejaram. O procedimento de vocês superou toda a infantilidade do papagaio da costa. Em virtude do ato praticado, declaro o papagaio da costa como o vencedor da competição e, face à magia ter sido a arma utilizada na tentativa da desmoralização dele, determino que, em sinal de lembrança deste episódio, suas penas de hoje em diante irão encantar todas as magias, sendo também utilizadas como recordação de todas as cerimônias religiosas”. 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Mérìndilogun Kawrí” – “Os Dezesseis Búzios” – Paginas 94 e 95 – Produção Independente – Ano 2009 (Edição Revista e Ampliada) – ISBN 978-85-902226-4-4.

 

 

 

 


[1]  Sentido figurado, uma vez que o Criador é onisciente.  

Olóòkun Sèníadé – Parábola da Aparência

Contam os igbomina no Brasil que, o soberano Olókun Sèníadé, durante os festejos em comemoração à maturidade de sua filha Ìyékundéyi, anunciou que a casaria com o jovem que atendesse às exigências impostas e fosse o vencedor das competições que seriam realizadas. 

O Adifá da cidade à Ìyékundéyi se dirigiu, aconselhando-a a consultar o oráculo sagrado para escolher com exatidão o seu pretendente. Autoritária e prepotente, ela lhe respondeu: “Recuso tua ajuda e opinião! Sou suficientemente capaz de escolher meu futuro esposo e senhor”

No dia seguinte, deram início às competições. No final, saíram vencedores dois jovens plebeus do vilarejo. Um deles era um criador de galos (alásàro àkúko), homem preguiçoso que ascendeu financeiramente fazendo-se passar por mendigo; o segundo era um criador de papagaios (alásàro odíde), homem dissimulado, intrigante e malquisto pela maioria dos habitantes do reino. Decepcionada com os acontecimentos, Ìyékundéyi resolveu de livre e espontânea vontade visitar, juntamente com suas serviçais e devida guarda pessoal, todos os empórios do reino, por mais humildes que fossem para encontrar seu grande amor. 

Ao adentrar uma estalagem para pernoitar, Ìyékundéyi defrontou-se com Àrò[1] sentado a uma mesa degustando vinho. Ao olhar para o estranho, ficou de imediato totalmente enfeitiçada com o seu olhar. Tal qual amor à primeira vista, a princesa sem qualquer precaução decidiu acompanhá-lo e tornar-se a sua esposa. Todos os seus, ao assistirem à cena, advertiram-lhe contra tal decisão. Mas de nada adiantaram os rogos, Ìyékundéyi, irredutível, pronunciou-se: “Recuso a opinião de todos vocês! Sou suficientemente capaz de decidir sobre a minha vida. Todos vocês estão livres! Por favor, voltem para o reino e relatem a meu pai a minha decisão. Tenho certeza de que ele irá compreender-me e dar-me razão”. Apesar da decisão já ter sido tomada, Alágbàtó (mãe de criação), fiel ama, indagou-lhe: “Minha senhora, o que te atrai nesse homem? Ele é uma pessoa totalmente desconhecida por todos do lugar. Ninguém do vosso reino jamais o viu por estas paragens. O que nele viste que nós não vemos?” A princesa, com a maior simplicidade, respondeu-lhe: “É o físico dele que me atrai! Os seus olhos me fascinam!”

Logo após proferir tais palavras, Ìyékundéyi agarrou-se ao braço do desconhecido e com ele adentrou a floresta. Os acompanhantes da princesa nada mais puderam fazer a não ser voltar para o reino e a Olókun Sèníadé contar todo o ocorrido. 

Quando chegaram ao interior da floresta, Àrònì determinou que Ìyékundéyi fizesse uma fogueira e preparasse-lhe algo para ceiar, enquanto ele sanaria algumas pendências na floresta.  Procurando por gravetos para acender a fogueira, a princesa não se deu por conta do quanto tinha se afastado do lugar onde seu esposo lhe havia deixado. 

Em determinado momento, começou a ouvir a voz do seu esposo. Curiosa como sempre, Ìyékundéyi sorrateiramente aproximou-se do local de onde vinham as vozes. O que presenciou neste momento deixou-a horrorizada. Àrònì, seu esposo, era um horripilante ser sobrenatural. Seu corpo se consistia somente de pescoço e cabeça. Ele não possuía braços, sequer pernas. A princesa ouviu também quando ele agradecia os dois braços que lhes foram cedidos por Ako Apá[2], as duas pernas cedidas por Ìrókò[3] e pelos dois olhos cedidos pela árvore Oriro[4]. Apavorada e totalmente desnorteada com o que havia presenciado, Ìyékundéyi soltou um grito de pavor. No momento em que a princesa ia sair correndo mata afora, Àrònì segurou-a dizendo: “Agora é tarde demais. Nada mais pode fazer a não ser continuar seguindo-me, assistindo-me e servindo-me de perto tal qual uma boa esposa. Pare de chorar! Ajeite seus cabelos! Irá ao mercado fazer compras. Trará três jarros de vinho do melhor tonel que lá encontrar para eu beber. Irá trazer também um pedaço de fumo em rolo para eu mascar, três cuias de farinha de mandioca e um pote com melado-de-cana. Não adianta chorar, trate de ajeitar-se para cumprir minhas determinações”. A princesa ainda em prantos se ajeitou para cumprir as ordens. No momento em que seguiria ao vilarejo mais próximo, Àrònì alertou-a: “Não fale a meu respeito com nenhuma pessoa. Conheço bem suas ações impulsivas e irracionais”

Assim que chegou ao mercado, a princesa tratou imediatamente de comprar tudo que seu esposo havia mandado, todavia as encomendas eram demasiadamente pesadas para transportá-las sozinha. Sendo assim, o dono do mercado (oló) providenciou uma carroça para levar as mercadorias adquiridas. Temerosa, a princesa disse-lhe que não havia necessidade, mas o comerciante tranquilizou-a dizendo: “Não se preocupe minha senhora. Eu conheço Àrònì, seu esposo e senhor. Ele vem constantemente à minha estalagem para beber. Bebe tanto que fica desfalecido. Por ser um bom cliente, vejo-me na obrigação de mandar meus empregados levá-lo até a entrada da floresta. Lá, eles o deixam estirado no solo, pois possuem medo de seres sobrenaturais”

Ìyékundéyi, após ouvir as palavras do comerciante, habilmente elaborou um plano colocando-o imediatamente em prática. Dirigindo-se ao mercador, disse-lhe: “Meu esposo e senhor é muito exigente, portanto deixa-me provar do vinho que tens em tua adega”. O Olójà (Dono do Mercado) retrucou: “Senhora, é deste vinho que Àrònì bebe sempre que vem ao meu estabelecimento”. Ìyékundéyi respondeu-lhe: “É justamente por esse motivo que eu quero provar dessa bebida. Não quero que meu esposo beba algo que lhe faça mal, portanto deixa-me provar desse vinho”. O comerciante, diante da insistência da princesa, deu-lhe uma cuia contendo do vinho que Àrònì costumava beber. Tão logo colocou o vinho na boca, Ìyékundéyi o cuspiu dizendo: “Como ousa servir bebida azeda para o meu esposo. Este vinho está passado!”. O mercador, totalmente desconcertado, desculpou-se dizendo desconhecer o fato, mas que no dia seguinte no final da tarde teria vinho de outra safra. O álibi de Ìyékundéyi havia dado certo. Dessa forma, ela poderia pleitear, junto a Àrònì, o seu retorno no dia seguinte ao vilarejo para buscar o vinho que havia faltado. 

No dia seguinte, conforme seus planos, a princesa, ao se despedir de Àrònì, disse-lhe: “Caso o vinho não tenha chegado, lá ficarei aguardando-o. Tão logo chegue, retornarei”.  Logo que se afastou da floresta, a princesa, ao invés de se dirigir ao mercado, tocou a carroça rumo a uma choupana, choça esta que, segundo informações dos empregados do mercador, era habitada por um santo homem, que era odiado pelo esposo dela. 

Ao chegar à choupana, Ìyékundéyi foi tomada de surpresa, pois o santo homem que a habitava era o Adifá do seu reino, que se fazia passar por um eremita. Ao vê-lo, a princesa caiu em prantos, ajoelhou-se aos seus pés e lhe pediu desculpas por todas as grosserias feitas sempre que o mesmo a alertava sobre os perigos aos quais estava exposta. Mas, infelizmente, o pior havia acontecido, estava totalmente apaixonada por um homem repugnante que a fazia sofrer demais e não sabia o que fazer para esquecê-lo. O Adifá, acariciando seus cabelos, disse-lhe: “Nem tudo está perdido! Vem! Deves me acompanhar até a beira do caudaloso rio que corta essas terras”

Lá chegando, o Adifá determinou que a princesa passasse pelo corpo inteiro o umbigo da flor de uma bananeira, que ele havia trazido. Em seguida, ordenou que o envolvesse num pedaço de tecido negro e o colocasse dentro de uma cabaça dividida ao meio, regando-a em seguida com óleo de mamona. 

Após todo esse ritual, o Adifá mandou a princesa colocar a oferta no rio para os cuidados da divindade Yèyémoja[5] e pedisse que esta fizesse com que ela esquecesse o amor de Àrònì, afastando-a para sempre. No momento em que a oferenda foi deixada sobre as águas, Yèyémoja delas saiu e entregou à Ìyékundéyi um cântaro (ládugbó) contendo gordura vegetal. Ordenou-a que esfregasse a gordura antes do anoitecer na árvore Ìrókò, sem que Àrònì tomasse ciência. 

A princesa, agradecida, retornou imediatamente para junto do seu esposo após retirar do mercado os jarros contendo vinho que havia encomendado. Ao chegar à floresta, convenceu de imediato Àrònì a degustar do vinho que havia trazido. Este, bebedor compulsivo, não demorou muito tempo para estar totalmente embriagado. Ìyékundéyi, aproveitando-se da embriaguez do seu esposo, derramou no chão o restante do vinho dos tonéis e em seguida adentrou a floresta para besuntar totalmente a árvore Ìrókò, conforme havia sido ordenado por Yèyémoja. 

Tão logo despertou da embriaguez, Àrònì pediu mais vinho à princesa, que imediatamente aconselhou-o a ir beber no mercado, uma vez que ele havia bebido tudo o que tinha comprado. Àròni não hesitou, pulou sobre a carroça e por pouco dela não caiu. A princesa, demonstrando preocupação, disse-lhe: “Deixa-me acompanhar-te até o mercado. Podemos beber juntos!”. Àrònì respondeu-lhe: “Se é isso que tu queres, sobe na carroça”. Mal chegaram à estalagem, Àrònì começou a beber compulsivamente. Bebeu tanto a ponto de não mais saber quem ele era. Em determinado momento, ao levantar-se para pedir mais vinho, escorregou na gordura que havia escorrido das suas pernas. Quando ao chão caiu, os membros dianteiros e os traseiros do seu corpo, que lhes foram cedidos pelas árvores, se soltaram, ficando exposta sobre o chão a figura horripilante de Àrònì. Todos os que estavam presentes na estalagem ficaram horrorizados com o que presenciaram e, munidos de paus, investiram sobre Àrò, que, como um ser sobrenatural, desapareceu do local, deixando Ìyékundéyi livre para voltar para o seu reino. 

Ao chegar ao seu reino, a princesa muniu-se de vários presentes e iguarias, providenciou uma comitiva e foi até o rio mais próximo agradecer e louvar Yèyémoja. No momento das ofertas, a Mãe Amada dos Rios (Odò Fé Yiá) saiu mais uma vez das águas do rio para receber as oferendas das mãos de sua filha. Quando do momento do agradecimento, Yèyémoja dirigiu-se à Ìyékundéyi, dizendo-lhe: “Minha filha, que tudo isso te sirva de lição. O desengano dos olhos é a morte da retina”.

“O valor de uma pedra não consiste em sua cor”. 

 

Sabedoria Ioruba

 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Èjì Ogbè Àwon Àmúlù” – “Èjìonile e Suas Combinações” – Paginas 170,171, 172, 173 e 174 – Produção Independente – Ano 2003 – ISBN – 85-902226-2-4.

 

 


[1]  Ser fantástico e sobrenatural que, segundo crença popular africana, aparece durante a noite.  Conhecedor da utilização das ervas medicinais. Crendice popular: Acredita-se que possui somente uma perna ou nenhuma.

[2]  Substituída no Brasil pela árvore denominada Acaju. Designação de várias madeiras semelhantes à do mogno verdadeiro.

[3]  Substituída no Brasil pela árvore denominada gameleira.

[4]  Substituída no Brasil pela árvore denominada amoreira.

[5]  Ancestral deificado da maior importância da família de Ìyékundéyi. 

Mito Do Àdó – Ìran

Contam os nagôs igbomina em solo brasileiro que, Yiásãlenã, (Nome pelo qual a divindade Nàná Bùkùú é chamada pelos nagôs igbomina), após um parto conturbado, deu à luz a dois rebentos, filhos esses que, em batismo, receberam o nome de Eléwà e Èsùmàrè. 

No dia posterior ao parto, Nàná levou seus filhos para banhá-los nas águas do rio que cortava seu reino. No momento em que banhava seus filhos, observou que a menina apresentava palidez estranha, rosto arredondado e que era bem menor do que seu irmão, apesar de ter sido parida posteriormente.   

Yiásãlenã, ao perceber o que se passava, envolveu rapidamente a menina em seu manto, levando-a, em seguida, aos seus aposentos, para ser mantida oculta do brilho da luz da lua por nove dias. Antes de se retirar do ribeiro, deixou o filho varão aos cuidados de suas amas de confiança, para banhá-lo, vesti-lo e levá-lo de volta para o alojamento ao lado de sua irmã.

Durante nove dias, Yiásãlenã manteve Eléwà em reclusão em prol do restabelecimento da mesma, fez orações e incinerou folhas secas de ewé òsupá (erva da lua) junto ao leito. Terminando este período, Yiásãlenã, após colocar Eléwà de bruços em suas mãos espalmadas, apresentou-a  à Lua Nova (Ìwõkun) assim que a mesma surgiu no Òrun. 

Os anos se passaram. Eléwà cresceu mimada por todos os seus familiares. Todos a ela ensinaram suas habilidades. Com eles conheceu o poder das ervas benéficas e maléficas, a sobrevivência nas matas, aprendeu a arte da caça, da pesca, da guerra e tantas outras aptidões.  E assim cresceu formosa e radiante. Quando atingiu a adolescência, sua beleza realçou de tal forma que vários nobres por ela se apaixonaram, isto sem falarmos dos homens da plebe que por ela se afervoravam. 

Certo dia, quando participava de uma caçada, Eléwà durante a cavalgada caiu do cavalo após ter sido acometida por um mal-estar súbito. Os irmãos que a acompanhavam trataram de levá-la imediatamente para casa, temerosos com o que havia acontecido. Yiásãlenã, ao ver sua filha desfalecida, tratou imediatamente de socorrê-la, entretanto, nenhum dos seus sortilégios foi suficiente para fazer com que Eléwà recobrasse os sentidos.  Desesperada, enviou um mensageiro à cidade de Ìràwò ao encontro de Òsanyìn, seu filho, relatar-lhe o ocorrido e com ele retornar, a fim de restabelecer a saúde de Eléwà.

Tão logo chegou, Agbénígi (nome mítico pelo qual Òsanyìn é chamado pelos nagôs igbomina) tratou de socorrer sua irmã, todavia, ao passar de algumas horas, dirigiu-se a sua mãe: ‘Tenho que levar Eléwà comigo para as matas; lá poderei restabelecer sua saúde. Parto imediatamente. Tão logo esteja curada, mando-a de volta para casa.’ Nàná, sem contestar, abençoou-os e desejou-lhes boa viagem.

Os meses se passaram. Yiásãlenã, vendo que sua filha não retornava tampouco dela tinha notícias, resolveu ir pessoalmente saber o que se passava com a mesma. No trajeto, quando estava próxima de Ìràwò, foi surpreendida por sua filha que cavalgava por aquelas paragens. Nàná, ao vê-la, radiante ficou, pois Elèwà estava mais bela do que nunca, embora não parecesse mais uma princesa, e, sim, uma autêntica, bravia e destemida amazona. 

Ao ser interpelada por sua mãe sobre a sua volta para o reino, Eléwà não titubeou em respondê-la: ‘Não pretendo voltar mais a viver tal qual uma prisioneira dentro da minha própria morada. Quero viver livremente nas matas em companhia de meu irmão Agbénígi. ’  Nàná, ao perceber que nenhum argumento faria sua filha voltar a viver em sua companhia, retornou à sua terra natal, sem ao menos visitar seu filho Agbénígi em Ìràwò

Meses depois, ao entardecer de um determinado dia, Eléwà, ao retornar das matas, defrontou-se com Agbénígi com os olhos lacrimejantes. Preocupada perguntou-lhe: ‘O que se passa, meu irmão, posso lhe ajudar?’ ‘Acredito que não. Eu já vasculhei toda a floresta e não encontrei um ramo sequer das árvores de que necessito para fazer um antídoto e uma magia que cicatrize o umbigo do filho varão de um nobre da cidade de Ijebú. Ode, livrando-o, dessa forma, dos braços da morte. O pai do menino possui idade avançada e, caso o filho adoentado venha também a falecer, sua dinastia será encerrada, uma vez que esta é a quarta e última gestação permitida à esposa dele’, disse-lhe Agbénígi. ‘Quais são estas árvores e onde posso encontrá-las? Vou buscá-las para você!’, retrucou Eléwà. ‘Desista desta ideia, minha irmã; nesta época do ano, é praticamente impossível encontrar tais folhas’, respondeu-lhe Agbénígi. Com aspereza, Eléwà retrucou: ‘Eu que lhe digo; deixe de ser pessimista[1], diga-me logo quais são estas plantas, não há tempo a perder’. Agbénígi mediante persistência[2] de Eléwà respondeu-lhe: ‘Necessito de ramos das plantas denominadas idí [3], òrúru (tulipeira africana), èkùyá (muçambê) e yólòbá (erva pombinha). ’ 

Eléwà imediatamente montou em seu cavalo e, após fustigá-lo, sumiu rapidamente na poeira. Tão logo alcançou a entrada da mata, defrontou-se com Èsù, que, em tom debochado e irônico, perguntou-lhe: ‘Onde vais com tanta pressa, frágil caçadora?’ Elèwà, sabendo estar diante de um matraqueador[4], respondeu-lhe calmamente: ‘Vou adentrar e atravessar a mata cerrada, vou colher, para meu irmão Agbénígi, folhas de idí, de òrúru, de èkùyá e de yólòbá.’ Èsù, satirizando-a, retrucou: ‘Acreditas realmente que és capaz de mudar o rumo do barco da morte?  Estás perdendo seu precioso tempo; ninguém, ninguém mesmo, a não ser eu, pode atravessar o Igbó-Ìkú, colher tais plantas e sair ileso. ’ Elèwà com impostura indagou: “Quais artifícios usa para tamanha proeza?” Èsù enfatuado como sempre replicou: ‘Fácil! Sou proprietário do Àdó-ìran[5], cabaça esta que, se ao Céu apresentada for, desvendará a maneira pela qual os problemas são sanados e qual o caminho a ser tomado, para que o mesmo se realize’

Foi o suficiente. Eléwà, açoitando seu cavalo com rigidez, fez com que o mesmo levantasse suas patas dianteiras sob Èsù. No momento em que Légbá saltou para traz tal qual um jàkó (macaco) na tentativa de livrar-se das patas do cavalo, Elèwà tomou de suas mãos o Àdó-ìran. De posse do mesmo, a ágil cavaleira tal qual uma faísca adentrou a mata cerrada, deixando Èsù perplexo à entrada da floresta. 

Ao chegar ao interior da mata, Eléwà ergueu o Àdó-ìran em direção ao Céu, imaginando que seria descerrado imediatamente à sua frente o local onde encontraria as folhas desejadas. Para sua decepção, nada aconteceu.  Deduzindo ter sido ludibriada por Èsù, a virgem guerreira disse para si mesma: ‘Estou muito cansada. Recostarei por alguns instantes junto a uma dessas árvores, depois seguirei à procura dos ramos das plantas. Èsù que me aguarde, pois, quando retornar, acertarei contas com ele. Ele deixará de lograr os outros.’

Não demorou muito tempo para que a princesa caísse em sono profundo. Durante o devaneio, Eléwà teve uma visão transcendental[6]. Através dela, tomou ciência do local onde estavam localizadas as plantas e qual o caminho a ser percorrido para chegar até as mesmas. Assim que acordou, Eléwà, tomando o caminho indicado, dirigiu-se imediatamente ao local determinado através do seu sonho e, tal qual havia sido revelado, lá estavam os vegetais em questão. Após colher os ramos solicitados, retornou imediatamente ao encontro de seu irmão. 

Ao chegar em Ìràwò, Eléwà entregou imediatamente os ramos das plantas ao seu irmão, que, de imediato, providenciou uma decocção com os ramos de Òrúru, dando início ao tratamento fitolátrico do filho varão do rico mercador da cidade de ÌjèOde. Em seguida, munido de uma vara[7] medindo a altura do rebento, uma porção de efun[8], duas ânforas (uma contendo epo-pupa[9] e a outra, oyin[10]), dois pombos mesclados, folhas de idí[11], de èkùyá e de yólòbá, e de uma enxada, dirigiu-se com o menino adoentado até um bosquete que ficava dentro das propriedades do seu genitor. 

Lá chegando, escavou uma cova rasa, banhou a vara com o sumo de èkùyá e de yólòbá, colocando-a em sentido horizontal dentro da cavidade e, em seguida, realizou as ritualísticas dentro da mesma. Ao término, tapou a cova enterrando definitivamente toda a parte maléfica e negativa que acompanhava o filho do mercador. 

Dando continuidade ao ritual, Agbénígi esfacelou as folhas de idí sobre um braseiro. Quando da fumaça exalada, Agbénígi envolveu o rebento com a mesma pronunciando: ‘Ewé idí fun eléyi omokonrin i ni ti òòrun láisísilè i wà.’ (Folhas de Idí, digam para este menino que o caminho do Céu está fechado para ele).

Após transcorrerem alguns dias, Agbénígi foi visitar o rebento. Ao chegar foi recebido pelos pais do menino com muita alegria e satisfação, sendo ao mesmo oferecido um suntuoso banquete.    

 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Èjì Ologbon Àwon Àmúlù” – “Òyékú e Suas Combinações” – Paginas 134, 135, 136 e 137 – Produção Independente – Ano 2006 – ISBN -902226-3-2. 


[1]  Segundo outras correntes religiosas, o pessimismo é um dos maiores estereótipos dos filhos de Òsanyìn.

[2]  Outras vertentes religiosas afirmam que a obstinação é um dos maiores arquétipos dos filhos de Elèwà.

[3]  Nome científico “Terminalia Glaucescens Planch ex Benth”., Combretaceae – Ewé – O Uso das Plantas na Sociedade Iorubá, p. 728 – Fatumbi, Pierre Verger – Companhia das Letras. 

[4]  Pessoa que diz palavras afrontosas.

[5]  Cabaça alongada que, segundo a tradição e crença religiosa nagô, tem o poder de conceder visão do mundo sobrenatural e/ou fazer acontecer ou aparecer algo que desejamos.

[6]  Que diz respeito à razão pura, anterior a qualquer experiência. Reação mediante à formulação do pedido feito através da força inesgotável do Àdó-ìran. Apetrecho que associa Èsù a sua designação de Ìgba-Èkéta. Terceira pessoa ou terceiro elemento, literalmente a Terceira Cabaça da Existência.

[7]  Extraída da amoreira.

[8]  Cal natural.

[9]  Azeite de dendê.

[10]  Mel de abelha.

[11]  Substituída no Brasil pela amendoeira. Os nagôs igbomina e outras vertentes usam a planta (Helicheysun bracteatrum, Andr.,) da família das compostas, também chamada de “sempre-viva”. 

Enigma da Iniciação do Primeiro Neófito

etu

Contam os nagôs igbomina, em solo brasileiro, que, após o fechamento do portal, que separava o planeta Terra (Àiyé) do infinito (sánmà) Yèyébírù[1] recebeu de Olódùmarè a incumbência de escolher, entre os seres humanos, o mais forte, o mais virtuoso e inteligente dos homens, ser este que deveria ser investido na função de sacerdote (aborè). 

Destacou-se entre eles o belo e intrépido jovem que atendia pelo nome de Nipa mówà’kan (Aquele que é capaz de compreender e vascular os corações). Tão logo fora feita a escolha, Òsun providenciou para que o escolhido adquirisse todos os conhecimentos necessários à prática da liturgia e suas ritualísticas. 

Alguns anos depois, Yèyébírù foi comunicada que o Ìrúnmólè Ìkú viria buscar Nipa mówà’kan, apesar dele ainda ser jovem. Desesperada, recorre a Òrunmìlà na tentativa de afastar do seu sacerdote a terrível sina que se aproximava. Foi com pesar que Òrunmìlà reportou-se a Yèyébírù dizendo: “O que pedes é impossível. A determinação de Olódùmarè diz que os seres humanos voltarão ao pó de onde vieram, suas almas retornarão ao infinito para prestarem contas dos seus atos. Sei que este jovem é teu protegido e que tu o amas também apesar da proibição. Esse desejo carnal a motivou retardar a ordenação sacerdotal do mesmo até a data. Infelizmente, o Ìrúnmólè Ìkú virá buscá-lo no momento exato determinado pelo seu destino” 

Desesperada, Yèyébírù suplica: Òrunmìlà, poupa a mim e a todos os que são inteiramente seres humanos desta triste tragédia. Ajuda-me a transformar o grande amor da minha vida num ser que possa voltar ao planeta Terra após a morte, mesmo que seja somente em espírito”Òrunmìlà disse-lhe: “Retornes daqui a quatro dias minha filha. Irei interceder por ti e por todos junto a Olódùmarè”.  Transcorridos os quatro dias, Yèyébírù ainda em desespero retorna a Òrunmìlà na expectativa da solução do impasse da morte de Nipa mówà’kan. 

Diante de Òrunmìlà, Yèyébírù em prantos se ajoelha e suplica: “Então, meu pai, conseguiste junto a Olódùmarè uma solução, uma trégua, enfim, responde-me, por favor?Òrunmìlà, olhando carinhosamente para Òsun, pronuncia-se: “Levanta-te minha filha, nosso Deus e Senhor foi benevolente para contigo e para com os habitantes da terra (ará-àiyé). Será criada uma morte aparente para Nipa mówà’kan, entretanto, para que tal fato se concretize, tu, que és semimortal, deverás providenciar em grande estilo a purificação e consagração do teu sacerdote. Deverás proceder de acordo com os ritos determinados afim de que o corpo de Nipa mówà’kan, após a morte, seja transformado numa ave. Esse animal será absoluto, insubstituível e único nas iniciações e consagrações dos futuros neófitos. Será também, a partir desta data, o símbolo da união dos homens com os ancestrais deificados (ebora).  

Yèyébírù preparou imediatamente o local da iniciação e consagração de conformidade com as normas e ritos que lhe foram transcritos, transformando Nipa mówà’kan no primeiro altar vivo da nossa religião. No dia seguinte da iniciação e consagração, tão logo os primeiros raios de sol surgiram no Leste, anunciando a presença do Criador, Yèyébírù apresentou Nipa mówà’kan aos quatro cantos de adoração do universo.  Ao ser colocado no centro do local onde fora consagrado, sobrevoou no infinito o pássaro Ogomugomu[2] que, ao pousar sobre a cabeça de Nipa mówà’kan, salpicou-o totalmente com um pó de cor branca. 

Pouco tempo depois, conforme havia sido previsto, o Ìrúnmólè Ìkú devolveu a terra o corpo de Nipa mówà’kan. O seu espírito foi levado à presença da Testemunha do Destino (Elérin Ìpin) no Tribunal das Almas (Ilé-Ejó Okan), para prestar contas dos seus atos na Terra. O local onde o sacerdote foi enterrado, conforme determinação de Yèyébírù, antes de retornar ao infinito transformou-se num pequeno bosque sagrado. Pouco tempo depois, neste mesmo local, surgiu uma ave de penas negras, mescladas com pintas brancas, possuindo a parte superior da cabeça azulada e sem penas, No centro da mesma, um cone formado pela sua própria estrutura. Esta ave recebeu dos nagôs iorubas o nome de “Etú” (galinha d”angola). 

PS; A história, acima narrada, elucida a obrigatoriedade da “Etu” (galinha d’angola) em toda iniciação dos neófitos da Tradição/Religião dos Orixás, uma vez que a aludida ave é absoluta, insubstituível e única, 

“Ko si etu, ko si àkóbèrè 

“Se não houver galinha d’angola, não há iniciação”. 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Mérìndilogun Kawrí” – “Os Dezesseis Búzios” – Paginas 31 e 2 – Produção Independente – Ano 2001 – ISBN – 859022261 – 6.


[1] “Mãe provedora da gestação”.

[2]  Pássaro branco, de rara beleza.

Parábola da Ambição

JacaréContam os nagôs igbomina em solo brasileiro que, após a formação do planeta Terra e do surgimento do ser humano, Olódùmarè selou uma aliança com “Onilè” (A Mãe Terra – O ventre da humanidade). Esse acordo consistia em devolver-lhe a porção de lama dela retirada para modelar o homem. Para tal feito escolheu o Ìrúnmólè Ìkú, uma vez que o mesmo foi o único que conseguiu cumprir suas determinações no tocante ao recolhimento da protomatéria. 

A incumbência atribuída a Ìkú o transformou num Ìrúnmólè[1] temido e respeitado. Todos os viventes racionais constantemente a ele recorriam, exaltando-o, conferindo honrarias, imolando-lhe animais constantemente, na expectativa de poderem permanecer vivos por muitos e muitos anos, uma vez que a imortalidade havia se encerrado face o fechamento do portal que separava a Terra (Àiyé) do infinito (sánmà). 

A fama e o prestígio adquiridos por Ìrúnmólè Ìkú geraram no Ìrúnmólè Ajé Salugá a ambição e a inveja. Imbuído nesses sentimentos, elaborou um ardiloso plano para destituir Ìkú do seu cargo e do prestígio dele se apossar. Obstinado em cumprir o plano elaborado, Ajé Salugá, fazendo uso do poder místico que possuía, ocultou-se num casco vazio de um imenso molusco, que havia morrido na estrada próxima ao local no qual eram feitas as oferendas a Ìkú. De lá ficou ouvindo tudo o que se dizia a respeito do mesmo. Em determinado momento, Ajé Salugá, ao perceber um som que emanava de um instrumento de sopro, ouviu os seguidores de Ìkú pronunciarem: “O instrumento da morte está sendo tocado, logo, logo haverá um humano com a cabeça estirada em direção ao Reino dos Mortos. (Sàkãní Ìkú)”. Após ouvir o comentário daquelas pessoas, Ajé Salugá disse para si mesmo: “Isto era tudo que eu precisava saber para fazer Ìkú descer do seu pedestal”.

Imediatamente, Ajé Salugá dirigiu-se para o Reino dos Mortos. Lá chegando, aguardou Ìkú retirar-se para cumprir seu papel e, tão logo o viu se afastar, sorrateiramente teceu de uma forma mística uma rede invisível frente à entrada da moradia de Ìkú. Em seguida, apossando-se do instrumento que anunciava a morte de um ser, soprou-o veemente. 

Não demorou muito tempo para que Íkú ouvisse o som. Semelhante a um lampejo, o Senhor dos Mortos seguiu para a sua moradia. Apesar de possuir dons sobrenaturais, a rapidez com que se dirigiu para casa impediu-o de detectar a rede que Ajé Salugá havia estendido à entrada de sua casa.  Assim sendo, caiu na armadilha e, facilmente, foi capturado. 

Ao ver seu rival aprisionado na rede que havia se tornado visível após o aprisionamento, Ajé Salugá, debochado e irônico, disse ao seu prisioneiro: “Vou levá-lo aprisionado até a presença de Olódùmarè. Todos testemunharão o meu poder. Veremos quem é mais perspicaz e se ainda haverá dúvidas quanto ao meu poder?” Assim sendo, Ajé Salugá dirigiu-se a morada do Justo (Ibùgbé Sese Sánmà). 

Lá chegando, após se apresentar diante do Criador, relatou-lhe o ardiloso plano que colocou em prática: “Senhor, prometi a mim mesmo que traria Ìkú aprisionado ante a tua presença. E agora, será que ainda restam dúvidas quanto a minha astúcia e meu poder?” 

Tomado de pavor e descontentamento mediante o atrevimento de Ajé Salugá e da displicência de Ìkú, Olódùmarè pronunciou-se: “Retire-se da minha presença, Ajé Salugá. Leve tudo que imagina que seu poder pode conseguir. A partir de hoje, será representado por uma concha marinha e terá o nome de dinheiro (ajé-owó). Terá o poder de conquistar tudo o que for de bem material na face da Terra. Por sua causa, nações se erguerão umas contra as outras, pais e filhos se desconhecerão. Será o vil metal causador das discórdias, dos latrocínios, das guerras, e, andando lado a lado, ensejará o surgimento das desgraças, isto porque, onde houver a ganância, haverá a ambição desmedida pelo poder. E, com certeza, lá estará a Morte, à espera de todos que nutrirem adoração por você”.

“Ìkú ko kàn tètekó, òkánjuà beeni”. 

“A morte não atinge previamente; a ambição, sim!”. 

Da Sabedoria Ioruba.

 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Èjì Ologbon Àwon Àmúlù” – “Òyèkú e Suas Combinações” – Paginas 91 e 92 – Produção Independente – Ano 2006 – ISBN 85-902226-3-2.

 


[1]  Designação dada aos Orixás – Entidades divinas que participaram da formação do cosmo.

Iyéwà – O Logro da Morte

            Em um indeterminado tempo, os seres humanos viviam períodos muito curtos sobre a Terra. Quando a morte não os alcançava na infância, atingia-os na adolescência por doenças ou logo após a maturidade, vítimas dos ataques ostensivos dos inimigos. 

           Contam os nagôs igbomina que os habitantes da terra recorriam ao Oráculo Sagrado de Ifá para, através do mesmo, fazerem constantes oferendas e sacrifícios de animais ao Criador Olódùmarè. Esperavam que Deus voltasse seus olhos para eles e os livrasse das calamidades que os afligiam e os ceifavam sem dó e piedade. Tantos foram os rogos e ofertas que o Criador Excelso determinou que Òrunmìlà se materializasse e fosse à Terra amenizar e sanar todo aquele flagelo, se possível. Òrunmìlà, passando-se por comerciante de camelos, chegou a um vilarejo da cidade Ìjèbú. 

           Lá chegando, tomou ciência de que uma das famílias do local estava em desespero, pois não possuía condições de custear o funeral de um dos seus filhos. Imediatamente, Òrunmìlà custeou e participou do séquito fúnebre do jovem que acabara de atingir a puberdade e que misteriosamente havia perecido. Após o funeral, os genitores do jovem falecido humildemente ofereceram sua modesta morada para acolher Òrunmìlà, que prontamente aceitou. No dia seguinte, bem cedo, o venerável profeta deu início a uma jornada a vários vilarejos que ficavam próximos à cidade, na tentativa de descobrir a causa da morte de tantas pessoas. Tudo parecia inexplicável. Os médicos (ónísègun) nada sabiam dizer a respeito das doenças, só lamentavam as mortes, inclusive as causadas pelos ataques súbitos e constantes dos inimigos.

           Quando retornava à casa na qual estava alojado, Òrunmìlà ouviu gritos de dor e lamento.  Imediatamente se dirigiu para o local. Lá chegando, viu um jovem caído sobre o chão. Ao indagar sobre o fato, responderam-lhe: “Simplesmente do nada caiu desfalecido. Não sabemos o que aconteceu, aliás, nunca saberemos; é sempre assim”. Òrunmìlà imediatamente ordenou que o jovem fosse levado para a casa deste, porém seus familiares contestaram imediatamente: “Não! Isso não! O mal que dele se apossou irá contaminar a todos. É sempre assim!”. A partir desse instante, Òrunmìlà começou a perceber que o mal era repetitivo. O que acontecia era uma verdadeira praga. Òrunmìlà pediu que o corpo do jovem desfalecido fosse levado até a relva mais próxima e colocado embaixo de uma árvore frondosa. Imediatamente, após umedecer o solo e proferir algumas palavras, Òrunmìlà lançou seu “òpèlè” (rosário) ao solo, indagando o que estava se passado. A resposta foi imediata: “morte prematura”. 

           Sem perda de tempo, Òrunmìlà usando seus poderes e sabedoria, resolveu lograr a morte. Sendo assim, mandou que fossem buscar uma cabaça, um pedaço de tecido de linho cru, um preá, dois pombos selvagens, um caracol comestível, uma pedra de calcário e uma cuia contendo mel de abelha.  Assim que lhe entregaram o que havia pedido, Òrunmìlà, entoando cânticos, cavou um buraco no chão. Em seguida, agitou forte e repetidamente os dois pombos selvagens juntamente com o preá pelo corpo do jovem, sacrificando-os dentro do buraco que havia feito. Logo após, espargiu parte do mel sobre os animais imolados, cobrindo-os com um pouco do calcário ralado que extraiu da pedra. 

           Dando continuidade ao ritual, Òrunmìlà proferiu encantamentos, besuntou a cabeça do jovem com o restante do mel de abelha e, entoando um lamento, imolou o caracol comestível, esfregando-o sem demora na cabeça do jovem. Após todo esse ritual, colocou a carne do caramujo dentro do buraco que havia feito, derramou sobre o mesmo o restante do mel de abelha, salpicando em seguida todo o preceito com o restante do calcário ralado. Tal qual um passe de mágica, Òrunmìlà tapou o buraco, enterrando os animais imolados e colocando sobre a terra o casco do caramujo comestível sacrificado. Neste momento, Òrunmìlà pronunciou: “Onìlè! Ogbõgbòn lóke ilè lãiyé jékí”. (Onìlè! Deixe este jovem mancebo vivo sobre a terra).

           Ao realizar o desfecho do ritual, Òrunmìlà serrou ao meio a cabaça que havia pedido, banhou-a com sumo das folhas “gbèrè fútù” e colocou-a tal qual um capacete na cabeça do mancebo. Em seguida, o respeitável profeta, ao enrolar a cabeça do rapaz com o tecido de linho cru solicitado, determinou que o mesmo, após acordar, não saísse de sua morada e se mantivesse trajado com roupas de padrão semelhante ao torço em sua cabeça até o dia seguinte. 

          No dia subsequente, o venerável ancião foi à casa do jovem mancebo. Lá retirou da cabeça dele a cabaça juntamente com o torço de linho cru para levar ao lugar onde havia enterrado a oferenda. Ao chegar ao local, arriou a cabaça envolta pelo torço sobre o casco do caramujo comestível, que havia deixado no local em cima das oferendas enterradas. Neste local, Òrunmìlà permaneceu até o cair da noite, entoando o seguinte cântico: 

                                                  “O dúró, ó Ìkú ilè. 

                                                    Ó dúró, Ìkú ilè. 

                                                     Ìkú l’Ópa l’a bàbá 

                                                     Ìkú kò má a kékeré 

                                                       Ó dúró Ikú ilè”. 

                                               “Ele ficou, o morto na terra. 

                                               Ele ficou, o morto na terra. 

                                      O morto é Opa[1], o pai que nos cobre 

                                          Morte, não nos leve ainda jovens. 

                                                    Morte fique na terra[2]”. 

          Tão logo a noite abriu seu manto, o pássaro do Irúnmólè Ìkú cravou suas afiadas garras na cabaça envolta e levou-a para o mundo dos mortos (àiyé ìkú), imaginando ser a cabeça do jovem mancebo. Então, Òrunmìlà retirou-se do local. 

          Na certeza de ter cumprido sua missão e livrado o jovem das mãos da morte, Òrunmìlà voltou feliz para a casa do mesmo para dar-lhe as boas novas. No entanto, estava longe de imaginar que tinha causado indignação e despertado a cólera do Irúnmólè Ìkú na outra dimensão, no mundo dos mortos. 

          Quando chegou à morada do jovem mancebo, o venerável ancião foi recebido com festa e muita gratidão pelos pais do adolescente. Tomados de muita alegria pela graça alcançada, todos os presentes proferiram: Òrunmìlà Okìtìbíri ti npa ojó ìkú dà”. (Òrunmìlà, aquele que pode alterar a data da morte). 

           Em determinado momento da festa, Òrunmìlà percebeu que um redemoinho se formou à entrada da casa do rapaz. Dirigindo-se imediatamente para o local, defrontou com Èsù, que o alertou: “Meu senhor, trago ordens do Criador. A tua bondade foi vista com bons olhos por ele, entretanto, a tua atitude ocasionou o caos no mundo dos mortos. O Irúnmólè Ìkú, tal qual uma faísca de ódio, está vindo para confrontar-se contigo num duelo. Olódùmarè disse que não deves aceitar esta contenda. Deves seguir pelo rio abaixo até a desembocadura. Lá deves desmaterializar-te sem perda de tempo, voltando em seguida para o infinito. Vai imediatamente! A viagem é longa!”. 

          Òrunmìlà não hesitou. Colocou seu bornal atravessado ao tórax, apoiou-se no cajado e seguiu viagem rio abaixo. Quando estava na metade do caminho, começou a ouvir o vento uivando com força demasiada. A violência do vento era tamanha que ouvia o barulho do dobrar das pequenas árvores ao sabor da ventania. Neste exato momento, Òrunmìlà ouviu alguém falar-lhe em tom áspero: “Quem és tu? Com que direito invadiste as minhas propriedades e ainda por cima caminhas por dentro das águas que banham minhas terras?” Òrunmìlà respondeu: “Sou um servo de Olódùmarè. Estou fugindo da cólera do Irúnmólè Ìkú. Eu consegui ludibriá-lo. Eu logrei o senhor dos mortos”. Com um sorriso estonteante, a bela mulher disse-lhe: “Até que enfim! Foi bem merecido. Alguém precisava cometer este ato de bravura. Vou esconder-te do Irúnmólè Ìkú; há muito tempo que desejo também pregar-lhe uma peça. Vem! Vou esconder-te sob os aso-igúnwà (manto real) de meu pai. Eu saberei despistá-lo quando por aqui passar”. Dito e feito. Mal acabou de esconder Òrunmìlà, a bela mulher ouviu alguém com voz macabra perguntar-lhe se tinha visto um velho ancião por aquelas paragens. Sem pronunciar uma só palavra, a mulher com o dedo indicador apontou para o rio abaixo. 

           Quando não mais havia vestígios da presença nefasta de Irúnmólè Ìkú, a encantadora mulher retirou Òrunmìlà de debaixo das roupas de Obàtálá, pronunciando: “Podes ir em paz, Ìkú já se foi. Por aqui ele não passará mais. Estás livre desse confronto”.  O venerável ancião agradecido despediu-se indagando: “Tu me socorreste e sequer sei teu nome. Como te chamas?”.   “Meu nome é Eléwà, mas muitos me chamam de Iyéwà. Sou esposa de Boromu[3], respondeu-lhe a bela mulher. Òrunmìlà, olhando para Elé, profetizou: “A tua beleza é comparada à tua bondade. A tua benevolência será tua dádiva. A partir de hoje terás o poder de curar a esterilidade feminina.  Muito obrigado. Adeus!”

           Quando ia distante, Òrunmìlà voltou-se para Elé, abençoou-a e disse: “Não fiques triste. Daqui a nove luas teu maior desejo será realizado. Serás mãe!”. 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Èjì Ogbè Àwon Àmúlù” – “Èjìonile e Suas Combinações” – Paginas 162, 163,164, e 165 – Produção Independente – Ano 2003 – ISBN 85-902226-2-4.

 

 

 


[1]   Opa é uma estirpe de Bàbá Egúngún cultuado na cidade de Ìjèbú.

[2]   Cântico entoado por alguns dos segmentos religiosos nagôs por ocasião de um sepultamento.

[3] Divindade dos desertos cultuada pelos nagôs igbomina. Seu sacrário depois de erguido deve ficar ao lado do ojúbo de Obàtálá Ijùgbè É tido como guardião de ambos. Pertence a estirpe dos ancestrais olù àiyé. Rege a estrutura óssea dos seres humanos. A ele cabe a juntamente com sua esposa a função de transportar a alma do ser humano após a morte até o infinito ante as presenças de Èlà e de Òrunmìlà, para que seja julgada. Seus animais ofertivos são o galo, o ganso, a guiné, o marreco e o pombo, todos de plumagem branca.  A imolação de animais quadrúpedes a este ancestral foi abolida em solo brasileiro pelos igbomina, em face de não permissão do uso de facas para imolar animais para o mesmo. Obs: É chamado por alguns grupos djedje por “Daazodji”. Tido pelos mesmos como a mais antiga estirpe de Sànpònná. Face o altar do mesmo ficar ao lado do sacrário de Obàtálá ao aludido ancestral não se oferece alimentos a base de azeite de dendê, tampouco o uso de vestes na cor vermelha. Erroneamente confundido em solo brasileiro com o ancestral nagô ioruba conhecido pelo nome “Ajàgún Aráwe”. 

 

Fábula Do Roubo Dos Cérebros

Contam os nagôs igbomina em solo brasileiro que, numa época longínqua, macacos Àyá (espécie de macaco), revoltados por não poderem se expressar através da fala, elaboraram um ardiloso plano para roubarem dos humanos os seus cérebros e, posteriormente, colocá-los na cabeça de seus filhotes, que nascessem a partir daquela data. 

Àyáàgan (Primata do sexo feminino – A mais velha da comunidade), a líder dos macacos, totalmente agitada com o desfecho do plano, guinchava com braveza. Andava de um lado para o outro, roncava, batia no peito e se reportava aos demais do grupo com gestos, deixando bem claras suas intenções: desejava fazer com que os humanos ficassem submissos aos da sua espécie.   

À noite, ocultos na floresta, deram início à captura dos humanos que por ali passassem. Após aprisionamento, abriam-lhes o crânio e de lá retiravam os cérebros para serem colocados no interior do crânio de seus filhos recém- nascidos. 

Nesse ínterim, o jovem que atendia pelo nome de Àmójukurò (Desapercebido), ao ouvir aqueles gritos, resolveu se aproximar e descobrir o que estava se passando. Quando ao local chegou, defrontou-se com aquela cena horripilante. Àmójukurò, que dizia  ter por hábito conversar com os animais, uma vez que entendia suas vozes e expressões, perguntou esbravejando: ‘Qual o motivo de todo esse furdunço?  O que os leva a cometer tamanha crueldade?’ Àyáàgan,  guinchando, disse-lhe: ‘Somos as mães dos humanos, entretanto nossos filhos macacos não falam, sequer os que nasceram brancos, sendo assim, vou tirar dos humanos seus cérebros e colocá-los em nossos filhos macacos, para que eles possam falar.’ 

Àmójukurò, ao ver Àyáàgan segurar-se num cipó, para nele se pendurar e embrenhar mata adentro com os cérebros dos humanos dentro de uma koto (cabaça funda), disse-lhe: ‘Estás velha o suficiente para ficares subindo nas árvores e pulando de galho em galho. Além do mais, estás tão gorda que os galhos quebrarão e cairás por terra tal qual fruto maduro.’ Àyáàgan, enfurecida, gesticula guinchando: ‘Vejam só, o fedelho ainda quer saber mais do que eu!’ 

Nesse exato momento, a cabaça funda cai das mãos da macaca. Àmójukurò, sem perda de tempo, apossou-se da mesma e, tal qual um ògongò (avestruz), correu para fora da densa floresta.  Ao chegar à orla da mesma, deparou-se com Òrúnmìlà, e, após relatar-lhe o ocorrido, ouviu do mesmo: ‘Vá pela rua e dê um cérebro a todo humano que não tiver, mas tome cuidado,  não cometa nenhum erro.’  

O menino partiu e toda vez que via alguém sem cérebro dava um. Assim sendo, desapercebido como nenhuma outra pessoa, Àmójukurò deu cérebro de homem para muitas mulheres e cérebro de mulher para muitos homens, sem falar dos cérebros de adultos que colocou em crianças e os de crianças, em adultos. 

Por isso, conforme a narrativa, existem homens que pensam como mulheres e pessoas do sexo feminino que pensam como homem; adultos que pensam como crianças e vice-versa. 

 Da sabedoria nagô iorubá igbomina

 

 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “ÈjÌ Ologbon Àwon Àmúlù” – “Òyèkú e Suas Combinações” – Paginas 158 e 159 – Produção Independente – Ano 2006 – ISBN 85-902226-3-2.

 

 

 

Mito da Obrigatoriedade da Entrega das Cabeças, dos Flancos, das Asas, das Patas Dianteiras e Traseiras dos Animais, bem como, da Cabeça e da Cauda dos Peixes Aos Eboras e Orixás

 

 

Contam os nagôs igbomina em solo brasileiro que Olódùmarè, o Criador Excelso, sentindo-se exausto[1], convocou a sua presença todos os orixás que com ele participaram da formação do Cosmo. Ao se apresentarem na ante-sala da Morada do Justo (Ibùgbé Sèsè Sánmà), este lhes disse: ‘Mandei chamá-los para que tomem ciência de que, face eu estar me sentindo cansado e idoso[2], decidi enviá-los ao planeta Terra. Vocês irão saber do Mundo. Quando retornarem e me relatarem tudo o que ouviram e viram, eu nomearei dentre vós o mais digno e o mais sábio, na condição de meu porta-voz (olópa). Eu o exaltarei e permitirei que, diante de mim, se apresente e resista ao meu resplendor’.

Os orixás, tomados de euforia e envaidecidos, vestiram seus mais belos trajes. Todos juntos partiram em direção à Terra, com exceção de Exu (Èsù Ósètùrá[3]) que foi atender ao chamado de seu pai, que não tinha tido a permissão de compartilhar daquela jornada. Quando Exu ao seu genitor se apresentou, dele recebeu uma sacola de linho grosso[4] e a instrução de que deveria portar-se de forma correta por onde passasse e que com humilde se dirigisse a todos com que se defrontasse.  

Enfim, todos chegaram ao planeta Terra. De imediato, se personificaram adotando formas e posturas importantes. Uns em trajes de reis, outros trajados tais quais os príncipes. Somente Exu não participou da pujança da personificação. Suas roupas eram as mais simples. E assim, vestidos, os orixás se dirigiram ao país onde todas as pessoas comiam somente aves. A recepção foi suntuosa. Os orixás escolheram os melhores pedaços[5] das aves. 

Após se alimentarem, os orixás disseram uns para os outros: ‘Estou cansado de comer destes animais. Dêem as cabeças, os flancos das asas e as patas para Exu se alimentar, uma vez que ele não foi convidado para sentar-se à mesa. Também, vestido nesses trajes, quem iria convidá-lo?’ Exu, apesar da humilhação sofrida, aceita os alimentos com submissão. Este, após se alimentar, colocou os ossos no sol para secar, para posteriormente guardá-los. 

Alguns dia depois, os orixás, usando outras vestes suntuosas, se dirigiram ao país onde todos comiam quadrúpedes e répteis. A recepção foi suntuosa. Os orixás escolheram os melhores pedaços dos animais oferecidos no banquete. Após se fartarem, repetiram o mesmo procedimento, isto é, deram para Exu se alimentar as cabeças, as caudas, as patas dianteiras e traseiras dos animais. Este, procedendo da mesma forma anterior, alimentou-se das mesmas, pondo em seguida os ossos no sol para secar.   

Dias depois, os orixás, usando aparatos muito mais luxuosos, se dirigiram ao país onde todos comiam peixes. Todos se fartaram. Desta vez, um acontecimento inédito chamou atenção dos demais orixás presentes.  Ìyá Olóorí[6] não se alimentou dos peixes oferecidos. Ela, simplesmente tocou com suas mãos as cabeças, as nadadeiras e as caudas dos peixes que lhes foram oferecidos durante o banquete.

Após algumas horas, os orixás, repetindo o mesmo procedimento que tiveram nos banquetes anteriores, deram para Exu as cabeças, as nadadeiras e as caudas dos peixes que lhes foram oferecidos durante as refeições. Este quando da entrega perguntou-lhes: ‘Onde estão os peixes que Ìyá Olóorí não comeu?’ A resposta foi unânime: ‘Você acha que nós iríamos desperdiçar tal repasto? Para você Exu, restou apenas o de sempre. Se dê por satisfeito’. Exu, cabisbaixo e sem nada dizer, contenta-se com o que lhe dão. Após se alimentar, colocou as espinhas no saco de linhagem. E assim os orixás, com exceção de Exu, se alimentaram das partes mais nobres dos búfalos, das cabras, dos carneiros, dos patos, dos lagartos, bois e outros tantos animais. E assim, em todas as localidades por onde passaram, os orixás comeram diversas espécies de animais. Para Exu, somente sobraram às cabeças, os flancos das asas e as patas.

Após viajarem pelo mundo afora, os orixás retornaram ao infinito (sánmà). Ao regressarem, se apresentaram de imediato ao Criador Olódùmarè.  Este cansado e idoso[7], perguntou-lhes: ‘O que vocês viram e ouviram na Terra?’ Cada um dos orixás narrou sobre as localidades por onde passaram e principalmente sobre os suntuosos banquetes que lhes foram oferecidos. Exu narra também coisas semelhantes, excluindo apenas que teve de se contentar com as sobras dos outros orixás. Após ouvi-los, perguntou-lhes o Criador: ‘O que trazem como prova de tudo que viram e ouviram na Terra?’ A resposta foi o silêncio. Olódùmarè perguntou pela segunda vez: ‘Quem é capaz de contar-me a verdade?’ ‘Eu posso provar o ocorrido e a veracidade das minhas palavras’, disse Exu, derramando no chão diante do Criador todos os ossos que havia trazido.    

Diante do exposto, Olódùmarè levantou-se do trono e disse: Exu, tu me sucederás e todos os habitantes da Terra submeter-se-ão a ti e farão o que tu ordenares.  Em lembrança dos teus feitos e face ao descaso feito a tua pessoa, somente a cabeça, as asas, as patas dos animais e a cauda dos peixes serão apresentados por ocasião dos sacrifícios, a fim de serem aceitos pelos os orixás.

Para os nagôs iorubas do grupo étnico dos igbomina, a narrativa acima dogmatiza e retrata com exatidão a obrigatoriedade da entrega aos eboras e aos orixás por ocasião dos preceitos dos mesmos somente as cabeças, as patas dianteiras e traseiras dos animais, as asas e as patas das aves, bem como a cabeça e cauda dos peixes. 

Esclarecimentos: Nos dias atuais, um cântico que é entoado pelos nagôs igbomina quando da apresentação das cabeças, das patas dianteiras e traseiras dos animais, das asas e das patas das aves, bem como a cabeça e cauda dos peixes aos eboras e aos orixás nos remontam a narrativa abaixo: 

“Orí tinyín láre Èsù 

Èsù orí tinyín láre o! 

Àpá tinyín láre Èsù 

Èsù àpá tinyín láre o! 

Esè tinyín láre Èsù 

Èsù esè tinyín láre o!” 

“Exu, eis as cabeças que lhe são por direito. 

Exu, eis os flancos das asas que lhe são por direito 

Exu, eis as patas que lhe são por direito!” 

 e assim sucessivamente 

(tradução livre)

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Mérìndilogun Kawrí” – “Os Dezesseis Búzios” – Paginas 241, 242 e 243 – Produção Independente – Ano 2009 – ISBN – 978-85-902226-4-4.

 


[1]  Sentido figurado.

[2]  Sentido figurado.

[3]  Nome pelo qual o Òrìsà Èsù é chamado por Òrúnmílá, seu pai mitológico.   

[4]  Também chamado de saco de linhagem.

[5]  Cocha, contra cocha e peito.

[6]  Òrìsà considerado pelos nagôs yorùbá como a “Mãe de todas as Cabeças”.

[7] Sentido figurado.