Enigma do Tabuleiro de Orunmilá

Contam os nagôs igbomina, em solo brasileiro, que Orunmilá, por ocasição de uma das suas vindas ao “aiê” (planta terra), hospedou-se em Òyó, terra do Rei Sàngó Olùfiran. Durante o período em que esteve hospedado no palácio do rei, Orunmilá cuidou da saúde de uma das esposas de Sàngó, que atendia pelo nome de Euàmiere. Durante o período em que esteve hospedado no palácio do rei, Orunmilá cuidou da saúde de umas das esposas do Rei Sàngó, que atendia pelo nome de Euamiere.

 Após seu restabelecimento, a princesa, em gratidão, se prontificou a cuidar e servir pessoalmente Òrunmìlà durante todo o tempo em que ele ficasse hospedado em Òyó. O período de permanência no palácio real foi o suficiente para que Òrunmìlà se apaixonasse por Èwàmièrè. A princesa, por sua vez, correspondeu plenamente o amor a ela dedicado, uma vez que era casada tão somente por interesses políticos. O interesse e a atração de Èwàmièrè por Òrunmìlà foram motivados pelo descaso que Sàngó dedicou a ela, após tê-la tomado por sua mulher de fato e direito na noite do casamento (igbéyáwó). 

Certa noite, aproveitando-se da ausência do rei, os dois fugiram em direção à cidade de Ilé Ifè. Ao tomar ciência do ocorrido, Sàngó tomado de cólera partiu ao encontro de ambos, prometendo fulminar Èwàmièrè com seus raios. Òrunmìlà, temeroso com o que pudesse acontecer a sua amada, transformou-a em uma belíssima bandeja entalhada e esculpida em madeira (Opón-Ifá). 

Ao chegar à cidade de Ilé Ifè (Terra do Amor), Sàngó adentrou a morada de Òrunmìlà, perguntando por Èwàmière. Este disse-lhe: ‘Procures por toda a casa se quiseres. Caso ela aqui esteja, cumpre com a tua palavra. Fulmina-a com teus raios! Caso não a encontres, sai daqui imediatamente’.  

Por vários dias, Sàngó vasculhou toda a cidade. Não houve um lugar sequer que ele não a procurasse. Por fim, cansado e desolado, mas não se dando por vencido, o alãfin de Òyó retornou à sua cidade jurando fulminar Èwàmièrè quando a encontrasse”. 

 

Esclarecimentos: Face a este mito, os discípulos de Òrunmìlà nunca deixam o Opón-Ifá descoberto ou ao ar livre, livrando-o desta forma da cólera do Ebora Sàngó.

 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Mérìndilogun Kawrí” – “Os Dezesseis Búzios” – Pagina 43 – Produção Independente – Ano 2009 – ISBN – 978-85-902226-4-4.

 

 

 

 

 

 


[1]   Narração dos tempos fabulosos ou heróicos, fábula, coisa inacreditável.

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Fábula da Briga do Céu com a Terra – Ìrókò, a Árvore de Deus.

 

Contam os nagôs igbómìnàs que, no princípio do Mundo, o Céu e a Terra se desentenderam. A Terra disse para o Céu: ‘Sou sua irmã mais velha, portanto mais poderosa do que você. Eu sou a base de tudo, sem mim você seria esmagado, não teria apoio. Eu criei todas as coisas vivas. Forneço-lhes alimentos. Eu as mantenho. Tudo gira em torno de mim e volta para mim. Existe poder maior do que o meu, querido irmão?’ 

Quando a Terra terminou com sua implicância, o Oceano, severo e ameaçador, que a tudo ouvira calado, fez um sinal para o Céu e falou-lhe em seguida: ‘Ela irá aprender com as suas próprias palavras. Seu castigo será tão grande quanto a sua soberba presunção’. Ìrókò, a árvore que a tudo ouviu, ficou deveras preocupado e, pensando em voz alta, disse para si mesmo: ‘Tenho que me proteger. Na briga entre o mar e o rochedo aquele que sofre é o marisco’. Ìrókò começou a meditar sobre o silêncio que pairou após a insanidade da Terra, do Céu e do Oceano. Preocupado, começou a lamentar: ‘Tenho minhas raízes nos intestinos da Terra. Meus braços estendem-se até o Céu.  A harmonia do Mundo não pode desaparecer. Se isso acontecer, o Mundo saberá o que é infortúnio’. Ìrókò tratou imediatamente de se comunicar com as demais árvores, dizendo para elas que a vida estava contente, mas que a morte estava por vir sem dó nem piedade. As árvores nada entenderam e Ìrókò, tristonho, continuou a falar sozinho: ‘Tudo é de todos, apesar de nada ser de ninguém. Mesmo assim, todos querem conquistar, escravizar, governar, nunca permitindo que alguém possa reivindicar posições’. 

Infelizmente, o sexto sentido de Ìrókò não estava errado. A inimizade da Terra com o Céu mudou tudo. Parou de chover e o Sol implacável a tudo começou destruir. Ìrókò em prantos mais uma vez se dirigiu às outras árvores dizendo: ‘É chegado o momento das atribulações e dos sofrimentos. A fealdade[1] está tomando conta da Terra. Temos que fazer alguma coisa, pois senão seremos destruídas. Tudo em vão. As demais árvores não deram a mínima atenção às súplicas de Ìrókò. Quando a noite chegou descerrando seu véu, Ìrókò, totalmente angustiado e com medo, dobrou-se até o solo, orou e suplicou: ‘Pai, sei que é chegado o tempo dos infortúnios. Talvez amanhã não haja uma só folha verde sobre a face da Terra. Caso isso aconteça, desejo que meu tronco sirva para fazer um cajado no qual tu possas te apoiar na velhice’. 

Tão logo o dia amanheceu, o Sol passou a arder mais do que nunca. No final do dia, não mais havia uma só vegetação verde. As fontes secaram, os poucos animais que restaram se ajuntaram procurando abrigo embaixo dos galhos do Ìrókò. Foi a única árvore que permaneceu verde e saudável e que, apesar do Sol escaldante do novo dia, dela ainda fluía a garoa noturna, que os animais lambiam dobrando seus galhos, matando a sede. 

Após saciarem a sede, os animais perceberam que algo de sagrado havia em torno de Ìrókò e, ao reconhecerem sua magnitude, fizeram-lhe um pedido: ‘Ìrókò, tu és nossa aura[2]. Tu és a única árvore não obsoleta. Somente tu podes transmitir nossas súplicas ao Céu. Pede ao Criador que interceda nesta contenda’. Ìrókò, condoído com os acontecimentos, em lágrimas curvou-se mais uma vez implorando ao Criador pela humanidade: ‘Pai, curvo-me diante de tua presença e suplicoOuve as minhas preces e as destes animais’. 

No momento em que os animais juntamente com Ìrókò se curvaram no solo, o Céu foi movido pelas águas do Oceano, formado grossas nuvens que se transformaram em chuvas abastecendo e irrigando a Terra. Tudo voltou ao normal. A vegetação voltou a reflorescer, as nascentes voltaram a jorrar água do centro da Terra, enfim, a natureza sobreviveu graças às súplicas da árvore Ìrókò. Em agradecimento, os animais, a partir desta data, passaram a chamá-la de ‘A Árvore de Deus’ (Igi Olódùmarè). 

Com o passar dos dias, Ìrókò crescia cada vez mais verde e garboso. Suas raízes tornaram-se tão profundas que até as rochas se fenderam para abrigá-las. Seus galhos se estenderam firmes e maleáveis para poderem bailar ao som dos ventos e repetir paulatinamente: 

Òrun ati ilè ko wà òtá’. 

‘O Céu não é mais inimigo da Terra’. 

Apesar de ter conseguido sanar a guerra e trazer a paz, Ìrókò, a árvore sagrada, permaneceu indiferente a toda essa fama e prestígio repetindo o mesmo ensinamento até os dias atuais.” 

‘Se a alegria, o amor e a fraternidade viverem na Terra, eu estarei contente. Os culpados pelo oposto serão a intolerância e o orgulho do ser humano’. 

Da Sabedoria Yorùbá.

  

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Mérìndilogun Kawrí” – “Os Dezesseis Búzios” – Paginas 96 e 97 – Produção Independente – Ano 2009 – ISBN -978-85-902226-4-4.

 


[1]  S.f. Qualidade do que é feio, deformidade, indignidade, monstruosidade.

[2]  Vento brando e agradável, alento, brisa, respiração.

Parábola da Fidelidade – Mito do Penteado de Elégbára

Contam os nagôs igbomina que, em uma época incontável, Orunmilá, certa noite, após ter andado pelo mundo por um longo período juntamente com seus discípulos, pregando as boas novas e seus mandamentos, resolveu testar a amizade e a fidelidade dos seus seguidores. 

Após ter feito vigília durante toda uma noite, Orunmilá aguardou os primeiros raios de o Sol surgirem no Leste, para chamar à sua presença seus discípulos, os Dezesseis Conselheiros. Quando todos se apresentaram, Orunmilá disse-lhes: ‘Quero que vocês tragam para mim a fórmula mágica do Rere Àilópin (O Bem da Longevidade).’ Seus discípulos imediatamente lhe perguntaram: ‘Viveremos também longa vida, caso a encontremos?[1]. Orunmilá respondeu-lhes: ‘Aquele que a achar e à minha presença trouxer, comigo terá longa duração de vida’. Imediatamente, os conselheiros saíram à procura do tão bem-querer, para poderem desfrutar do mesmo juntamente com Orunmilá. 

Após vários dias de jornada, os conselheiros, cansados e debilitados, resolveram voltar para casa, desistindo, dessa maneira, de procurar ‘O Bem-querer solicitado pelo amado mestre. Ao chegarem próximo da residência de Orunmilá, observaram que diversas pessoas do vilarejo corriam pelas ruas em prantos, outras faziam grandes alaridos pronunciando: Òrunmìlà npaláro, Ìkú nmúkurò (Orunmilá morreu, Ìkú o levou embora)’.  

Após ouvirem as lamentações, os conselheiros aceleram os passos em direção à casa do tão amado mestre. Quando da morada do mesmo se aproximaram, mal conseguiam se locomover entre as pessoas que se aglomeravam diante da mesma. Com sacrifício e rudeza, conseguiram adentrar a casa de Orunmilá. Lá estava inerte sobre o leito o corpo do amado líder espiritual.  

Nesse meio tempo, os dezesseis conselheiros ficaram parados tais quais estátuas diante do corpo apático de Orunmilá. Entremente, um a um foi se retirando lentamente do local, pronunciando: ‘De que valeu sairmos em busca do Bem da Longevidade? Nosso mestre está morto, não o temos mais, mesmo que tivéssemos achado esse bem, não saberíamos utilizar a fórmula.  Está tudo acabado!  Nada mais temos a fazer a não ser pedir o povo do local que o enterre para nós’. 

Em seguida, logo após solicitar que sepultassem o corpo de Orunmilá, os conselheiros seguiram viagem afora, dizendo que iriam, a partir daquela data, pregar mundo afora os ensinamentos que lhes foram dados por seu amado mestre. Todos se retiraram, com exceção de Elégbará, seu amigo inseparável, que havia chegado naquele momento e que, debruçado, ficou sobre o corpo inerte de Orunmilá.   

No momento em que o Olóri Õgá Ìlétò (Chefe Supremo do Vilarejo) ia dar início ao translado do corpo para a sepultura, Elégbára começou a chorar incessantemente sobre o corpo de Orunmilá. Por mais que tentassem tirá-lo, mais ele se agarrava ao cadáver. Em determinado momento, todos os presentes viram as mãos do cadáver se moverem em direção à cabeça de Elégbára. Este, estatelado, ao colocar suas mãos sobre as que lhe acariciavam os cabelos, viu que se tratava de um afago de seu tão amado mestre Orunmilá. Sem nada entender, Elégbára lhe pergunta: ‘Como é possível isto? Tu não estavas morto ainda pouco?  Porventura te deram escondido de mim a fórmula do Bem da Longevidade, que mandaste buscar e, após ingerire-la, ressuscitaste?’  

Orunmilá continuando a acariciar-lhe os cabelos disse-lhe: ‘Decidi, após uma noite de vigília, fingir que havia morrido para testar a fidelidade e a veneração de todos ao meu redor.’ Continuando o diálogo, disse Orunmilá: ‘Estou desapontado!  De todos que vivem à minha volta, tu foste outra vez o único que não me decepcionou’. Em continuidade ao colóquio, perguntou Orunmilá a Elégbára: ‘Por que raspaste a cabeça somente dos lados deixando o restante dos cabelos no alto, na nuca e ao centro, ficando o mesmo com um formato de falo[2]?’ ‘Mestre, eu estava em fase de preparatório para ser iniciado em teus mistérios, quando soube da notícia da tua morte. Imediatamente, deixei tudo para trás e vim correndo ver-te pela última vez. ’ Disse-lhe Elégbára. 

Orunmilá, ao admitir e comprovar com aquele gesto a dedicação e fidelidade de Elégbára abraçou o amigo dizendo-lhe: ‘Desejo que deixes teus cabelos crescerem desta forma, isto é, raspado aos lados e no meio não, pois este penteado será, a partir de hoje, o símbolo da nossa amizade e do meu agradecimento.’” 

Comentário: O mito acima, apesar de nos mostrar uma prova de amizade, dedicação e fidelidade, mostra-nos também o quanto Elégbára e Orunmilá são intrínsecos quanto ao destino dos seres humanos, uma vez que Orunmilá é a revelação e Èsù, o princípio, o “dinâmico” e o “apático”[3].

 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Èjì Ologbon Àwon Àmúlù” – “Òyékú e Suas Combinações” – Paginas 41 e 42 – Produção Independente – Ano 2006 – ISBN -902226-3-2.

 

 

 

 

 

 

 


[1]  Pergunta semelhante também é feita pelos Conselheiros a Òrunmìlà, quando dos relatos do Àmúlù Ìká-Fún – 235ª Junção Oracular de Ifá  – “Os Dezesseis Mandamentos de Ifá.  

[2]  Representação de um pênis – Símbolo da fecundidade da natureza, entre alguns povos do Oriente.

[3]  Que tem apatia.  Ausência de afetos e paixões; indiferença.

Pilão de Obàtálá

Òsá-nlá 

Há muitos e muitos anos, Obàtálá, Senhor de Eléèjìgbó, era chamado de Ajágúná. Era um exímio guerreiro. Nunca se feriu em batalhas, tampouco manchou suas vestes com o sangue dos seus adversários. Essa condição deu-lhe o epíteto de “Elémoso” (Aquele que vai à guerra e não se suja de sangue). 

Uma das suas peculiaridades marcantes era o fato de se alimentar compulsivamente. Entre seus alimentos preferidos estavam os caracóis, os carneiros e pombos brancos, mas sua preferência era por inhames esmagados. Face em sua farta mesa nunca faltarem inhames amassados, suas refeições eram sempre atrasadas. 

Certa ocasião, quando aguardava suas cozinheiras prepararem sua lauta refeição, Obàtálá descobriu uma forma de amassar com mais rapidez os inhames das suas refeições. ‘E assim, ele inventou um soquete, utensílio este, que recebeu o nome de “mão de pilão”. A invenção em questão o tornou conhecido pelo nome de ‘Ògiyán’, que quer dizer ‘Aquele que come inhame pilado’. 

Tempos mais tarde, ansioso em transformar Èjìgbó numa cidade esplendorosa, convocou a sua presença o famoso sacerdote de Ifá, que atendia pelo nome de Awoléjé, seu grande amigo desde a infância. Esse, ao se defrontar com Obàtálá, o saudou: ‘Kábiyesi, Ògiyán, Ìbà o!(Eu Saúdo Sua Alteza Real, O Comedor de Inhames Pilados).Awoléjé, após consultar o oráculo, aconselhou-o a fazer várias oferendas. Este assim o fez, antes da viagem do seu grande amigo Awoléjé. 

Ao cabo de vários anos, Èjìgbó tornou-se uma grande cidade cercada de imensas muralhas e fossos, com portas fortificadas guarnecendo o palácio, isso sem falarmos das numerosas e luxuosas casas além dos grandes mercados. 

Obàtálá, ao se tornar um grande rei, instaurou uma ordem, proibindo, a partir daquela data, que qualquer um dos seus súditos o chamasse de ‘Ògiyán’. 

Tempos mais tarde, Awoléjé retornou a Èjìgbó, embora não tivesse ciência da grandeza e do resplendor em que Èjìgbó havia se tomado, sequer, da supremacia de Obàtálá.  Ao chegar à cidade, dirigiu-se aos guardas do palácio e perguntou-lhes: ‘Onde está Ògiyán’? Os guardas, indignados com o atrevimento daquele homem, espancaram-no cruelmente, jogando-o em seguida às frias masmorras do palácio real. Awoléjé, gravemente ferido, amaldiçoou o reino do seu amigo. 

Èjìgbó ou Eléèjìgbó conheceu anos difíceis: as mulheres ficaram estéreis, a seca começou a matar todos os animais, isto sem falarmos dos outros dissabores que assolaram o reino. Obàtálá, diante de tamanha tragédia, resolveu consultar o Oráculo Sagrado de Òrúnmìlà. A resposta oracular soou como uma avalanche sobre a cabeça de Obàtálá. Este, de imediato, ordenou a libertação do prisioneiro, entretanto, Awoléjé, após ser libertado, não se dirigiu ao palácio, para falar com seu amigo. Ressentido, refugiou-se no interior da floresta, passando a habitar em uma choupana (àgádà) abandonada.

Obàtálá, inconformado com a decisão do seu amigo, dirigiu-se à choupana e, ao se defrontar com Awoléjé, ajoelhou-se, pedindo-lhe perdão. Awoléjé concordou, entretanto, impôs ao amigo uma condição para que aquele povo jamais se esquecesse da injustiça que praticara: ‘Um cortejo de soldados vestidos de branco deverá vir entoando cânticos me buscar na choupana onde estou morando. Deverei ser carregado pelos mesmos, tal qual um rei em sua liteira (pàráfà). A partir desta data, todos os anos, os guardas deverão se flagelar em memória do desastroso acontecimento. Os guardas, após me conduzirem sobre seus ombros até o palácio, deverão se dividir em dois grupos. Munidos de varetas que você cortará, eles simularão golpes uns nos outros, sem parar, até as varetas se quebrarem. Dessa forma, você Obàtálá e seus súditos jamais esquecerão a injustiça praticada a uma pessoa inocente’. Assim foi feito. 

A partir desta data, a paz voltou a reinar e Obàtálá tornou-se o maior dos reis de Èjìgbó ou Eléèjìgbó. 

Esclarecimentos: Esta não é a única interpretação da história, entretanto, é a explicação narrada pelos nagôs iorubas igbomina em solo brasileiro sobre a origem do ritual do “Pilão de Obàtálá”. 

ÒPIN/FIM

TEMPLO DO SENHOR DO ALVORECER

 

ÀSE OBA ÌGBÓ

 

ABORÈ ÀDÌFÁ ÀLÙFÁ OBA ALÁÀIYÉ FÁMÃKINDÉ

 

 

 

 

O Oráculo de Ifá e o Jogo de Búzios

 

Sabemos que, desde a estruturação da Religião dos Orixás[1] em solo brasileiro (início do século passado), as mulheres (escravas libertas) amparadas e incentivadas pelo interesse dos adifás e babalaôs, destacaram-se e tornaram o culto matriarcal, ao oposto do que era praticado em terras da África. Os alufás e os babalaôs tinham certeza de que o Culto aos Orixás, ao deixar de ser patriarcal, exigiria a adaptação de uma nova modalidade de consulta ao Oráculo Sagrado de Orunmilá, uma vez que as pessoas do sexo feminino, segundo o Tratado de Ifá, não podiam fazê-lo através do Òpèlè ou Ikin-Ifá, prática esta de exclusividade masculina. 

A necessidade da adaptação de uma nova modalidade oracular originou o processo de interpretação através de caracóis do tipo “gastrópodes”, também chamados de “Cypraea moneta” (cipreia-moeda). Essas conchas eram extremamente valiosas e chamadas pelos nagôs iorubas de “kauri”, sendo também utilizadas como moeda na Costa da Guiné, na África.

Essa adaptação, ainda nos dias atuais, ocasionam celeumas por parte daqueles que insistem em desconsiderar a fresta natural do caramujo (parte aberta do casco do molusco), para a consulta e leitura dos signos do destino (odus) que se apresentar no oráculo. Há também “quem afirme” que os descendentes da Aiabá Oxum têm o direito de escolher o lado que bem lhes convier para considerar como contagem, interpretação e leitura das mensagens do Odú Durô (signo que está de pé e/ou signo pelo qual o intérprete do oráculo entenderá a mensagem).  

A má interpretação do processo oracular através dos búzios, ainda nos dias atuais, ocasiona uma contradição que origina uma descrença de expressão incalculável e prejudicial a nossa religião. A interpretação errônea é motivada pelo desconhecimento do verdadeiro propósito da exposição oracular oriunda dos 16 búzios colocados no Altar de Oxum[2].  Essa elucidação se destina exclusivamente a solucionar o impasse quando da caída denominada por “Òpirá”[3], e não à face oposta da concha/búzio, para manipulação da maneira que melhor aprouver aos filhos de Oxum[4].

Essa necessidade de justificar esse tipo de manuseio dos búzios originou uma narrativa de cunho lendário[5] (autor por mim desconhecido), que nomeia Oxum a senhora do oráculo, codificando-a como uma ancestral de procedimentos escusos.  Ainda segundo a interpretação da obra por “algumas pessoas”, os descendestes de Oxum são autorizados a manusear os búzios quando da consulta oracular da melhor maneira que lhes convir.

A seguir é transcrita essa lenda que narra o álibi que a Aiabá Oxum utilizou para furtar de Exu o conhecimento do Oráculo de Ifá.  

A LENDA DOS BÚZIOS 

“Conta a lenda que Oxum possuía uma personalidade marcante e era uma pessoa interessada em adquirir todo ou qualquer conhecimento que se fizesse necessário. Astuciosa, manhosa e mimada, Oxum conseguia tudo o que sempre desejava, até mesmo consultar o Oráculo de Ifá para saber sobre o destino do seu pai e das decisões do reino. Todavia, sempre que a consulta era feita, Òrunmìlà respondia: ‘Pergunte a Exu, pois ele tem o poder de interpretar os búzios’. 

Esse constrangimento repetia-se toda vez que Oxum necessitava saber algo. Certa vez, Oxum, indignada, pediu a seu pai para poder aprender a interpretar o Oráculo, porém Olúfón respondeu-lhe: ‘Isto é impossível, minha filha! Tal pertence é inerente a Èsù.  É uma dádiva de Òrunmìlà para ele, isto eu não posso lhe dar’.   

Na tentativa de adquirir os conhecimentos, Oxum procurou Èsù e pediu-lhe que a ensinasse a interpretar os búzios. ‘Ensina-me Èsù! Eu também quero interpretar o oráculo’; disse Oxum.  ‘Não, não! O segredo é meu, e me foi dado por Òrunmìlà. Isto eu não ensino a ninguém’, respondeu-lhe Èsù. 

Não conseguindo êxito em sua tentativa, Oxum partiu em direção à floresta, local onde viviam as feiticeiras. Cautelosamente, Oxum foi adentrando pouco a pouco a floresta. A curiosidade e o ódio acumulados eram maiores e mais fortes do que o medo que sentia. Em determinado momento, Oxum deparou-se com as Ìyá mi àjé empoleiradas nas árvores da floresta. Entre risos, gargalhadas e gritos alucinantes, elas perguntaram: ‘O que você quer aqui, minha rainha?’ ‘Quero aprender magia. Quero enganar Èsù e descobrir o segredo da interpretação dos búzios’, respondeu Oxum.  

As Ìyá mi àjé, que há muito tempo desejavam ludibriar Èsù, resolveram aliar-se a Oxum, ensinando-lhe todo o tipo de magia, mas advertiram-na de que, sempre ao usar os feitiços, teria de lhes fazer oferendas. Oxum, concordando com as exigências, partiu logo em seguida, dirigindo-se à casa de Èsù.  Ao chegar na casa do mesmo, Oxum perguntou-lhe: ‘O que resolveste: vais ou não ensinar-me a interpretar o oráculo?’ Não e não! Já disse, é teimosa demais para o meu gosto, não insista’ respondeu-lhe Èsù.   

Oxum, continuando sua farsa, fingiu aceitar a decisão de Èsù. Passados alguns momentos, Oxum sorrateiramente encheu as mãos com um pó mágico, em seguida, pediu a Èsù para adivinhar do que se tratava. Este, inocentemente e sem de nada desconfiar, aproximou-se de Oxum e, ao fixar os olhos em suas mãos, esta as abriu soprando rapidamente o pó no rosto de Èsù, que ficou temporariamente cego. ‘O que é isto? O que está se passando?  Eu não estou enxergando nada!’,gritava Èsù.  Oxum, fingindo nada saber, demonstra preocupação e interesse ao perguntar a Èsù: ‘Eu posso te ajudar?’ Èsù respondeu-lhe: ‘Dê-me os búzios rapidamente’ ‘Eu os procuro para ti, onde estão?’, perguntou Oxum. ‘Eles estão sobre a esteira que está colocada em cima da mesa’, disse Èsù. ‘Quantos são?’ perguntou Oxum.  ‘São dezesseis’‘Tens certeza que são dezesseis?  E por que são?’, continuou Oxum a perguntar. ‘Ora, claro que tenho certeza, pois dezesseis são os Odù originais e cada um deles fala dezesseis vezes, perfazendo um total de 256 análises e repetições’.  ‘Peguei um! Ele é maior do que os outros!’, exclamou Oxum. ‘É Òkànràn!’, disse Èsù.  ‘Peguei outro! É um pouco menor’ disse Oxum. ‘É Òtùrukpòn’!disse Èsù. E assim, Oxum ardilosamente continuou a perguntar e Èsù, inocentemente a responder, até chegarem ao último búzio.   

Oxum possuidora de inteligência rara guardou para si todo o segredo do jogo e, despedindo-se de Èsù, voltou para o reino de seu pai, que já a aguardava deveras preocupado com a sua demora. Ao chegar ao reino do seu pai, Oxum relata o ocorrido ao mesmo. Narra-lhe o pacto feito com as Ìyá mi àjé, dizendo que tudo o que fez fora unicamente por amor a ele e que, doravante o grande monarca não necessitaria rebaixar-se ante Èsù. 

Em contrapartida, Èsù, percebendo que tinha sido enganado e ainda com os olhos ardidos e embaçados, foi queixar-se com Orunmilá, que, após ouvir o ocorrido, determinou que, a partir daquela data em diante, todos os preceitos, presentes e sacrifícios etc., determinados pelo oráculo, deveriam ser entregues a Èsù, até mesmo os destinados aos outros orixás, dos quais Èsù retiraria uma parte para si, que se diga de passagem ‘a maior parte’.”” 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Mérìndilogun Kawrí” – “Os Dezesseis Búzios” – Paginas 73, 74,75, e 76 – Produção Independente – Ano 2009 (Edição Revista e Ampliada) – ISBN 978-85-902226-4-4.

 

 

 

 

 

 


[1]  Candomblé – Rito Afro-brasileiro. 

[2]  Cabaça cortada ao meio, onde se encontra o òkúta (pedra) consagrada a Oxum.   Altar consagrado a Oxum quando da montagem do Ojúbo de Òrunmìlà.

[3]  Não se trata de um odù. É uma caída nefasta, na qual todos os búzios aparecem fechados. 

[4]  Quando da utilização dos búzios pertencentes a Oxum, a caída nefasta nunca se apresentara, face Oxum não ser um habitante da terra, isto é, não há morte física da mesma. 

[5]  Que diz respeito a lenda. Narrativa de acontecimentos fantásticos; tradição popular, mentira.

Parábola do Constrangimento

No tempo do agrupamento e centralização das cidades do reino de Igbó (igbómìnàs), existiu um caçador que atendia pelo nome de ‘Òyájú’[1] que, por sua perspicácia, tornou-se, em pouco tempo, uma pessoa admirada e procurada por todos os habitantes do reino. Todos a princípio gostavam de ouvir suas opiniões e de contemplar seus trabalhos. 

Com o passar dos anos, ‘Òyájú’ começou a mostrar sua verdadeira face. Por todos os lugares que passava ou hospedava-se, causava constrangimento ao dizer que tinha ciência de tudo que a ele contassem. Se isso não bastasse, passou a destratar as pessoas que o cercavam, mostrando desta maneira ser uma pessoa abusada e mentirosa. Tornou-se assim um ser impertinente, intransigente e indesejável. 

Certa ocasião, ao passar em frente a uma árvore consagrada às Ìyá mi eléeiye, satirizou uma das suas sacerdotisas, chamando-a de velha rabugenta. Ela apenas havia solicitado-lhe que limpasse a sujeira feita pelo mesmo, ao deixar os caroços e a casca do fruto que havia comido embaixo da árvore sagrada. 

A sacerdotisa humildemente repetiu o pedido a ‘Òyájú’ e este lhe respondeu: ‘Eu pertenço a confraria dos caçadores de Igbó!   Se tu queres este local limpo, limpa-o, tu mesma! Não parei aqui para trabalhar, e sim para me alimentar!’. A sacerdotisa retrucou-lhe, perguntando: ‘É somente isto o que tens a oferecer?’Òyájú’, encolerizado, respondeu-lhe: ‘Não te metas comigo, velha caduca!  Tu não me conheces. Não sabes do que sou capaz. Eu sou uma pessoa má!” Mediante as palavras do caçador, a sacerdotisa pronunciou-se: ‘Tuas palavras, teu destino. A essência da maldade que dizes possuir te conduzirá de hoje em diante. Tu provarás do teu próprio veneno!’.Òyájú’,  sem se preocupar com as palavras da sacerdotisa, deu-lhe as costas como resposta e seguiu viagem, deixando para trás toda a sujeira ao pé da árvore consagrada às Ìyá mi eléeiye.  

Tão logo chegou à cidade mais próxima, ‘Òyájú’ foi acometido por uma irrupção febril. Fortíssimas dores lombares fizeram com que o mesmose contorcesse pelo chão. Nenhum Onísègun (médico) do local conseguiu antídoto para as dores que acometiam  ‘Òyájú’. Sem saber o que fazer, transportaram-no imediatamente para a sua cidade natal. Logo ao chegar, solicitaram a presença do Àràbà da cidade, para que o mesmo consultasse o oráculo e livra-se o caçador  das dores que o acometiam. 

Após consultar o oráculo, o àràbà indagou-o: ‘O que fizeste de tão grave?  A maldição das Ìyá mi eléeiye te acompanha?’Òyájú’,  falso e mentiroso, respondeu: ‘Eu não fiz nada.  Juro que não fiz. É sempre assim, as pessoas me agridem e sou  quem não presta!’  O àràbà respondeu-lhe: ‘Não mais importa o que dizes. Se desejas aplacar a ira das Ìyá mi, deverás trazer-me  dois bodes, duas galinhas, quatro preás, quatro peixes, quatro obi’s, quatro pimentas de jacaré e um saco contendo boa quantidade de búzios’. Continuando o colóquio, o àràbà diz: ‘Ah! Tinha me esquecido de algo…  não fizeste nada, é apenas implicância dos outros para  contigo.  Passa bem!’   

No dia seguinte, pela manhã bem cedo, lá estava o caçador  à  porta do àràbà com todo o material solicitado para aplacar a ira das Ìyá mi eléeiye. O sumo sacerdote de Ifá dividiu todos os materiais em duas partes. Ele usou a primeira parte como sacrifício. Ordenou em seguida que o bode da segunda parte fosse abatido sem derramar sangue e desossado de forma que a sua pele pudesse ser aproveitada totalmente. 

Em seguida, o àràbà  esticou a pele do bode no chão, colocando sobre ela   o restante das oferendas. Embrulhou  tudo com a pele conforme um cadáver tivesse sido embrulhado  para o seu funeral. Enterrou no local onde dormia o caçador ‘Òyájú’. Após todo esse ritual, o àràbà informou ao caçador que deveria ir viver em outras paragens, pois  a presença do mesmo  causaria contendas, quando as Ìyá mi eléeiye descobrissem que não havia morrido. Disse-lhe também que os habitantes de Ìgbó não queriam ouvir mais suas mentiras, tampouco queriam o seu convívio. 

E assim, vítima do seu próprio temperamento maldoso, o caçador ‘Òyájú’ foi viver sozinho em outras paragens, com suas fantasias, maldade e mentiras, deixando de causar constrangimento entre as pessoas que  um dia nele acreditaram. 

“Presunção priva a vespa do mel”. 

Provérbio Yorùbá

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Mérìndilogun Kawrí” – “Os Dezesseis Búzios” – Paginas 201 e 201 – Produção Independente – Ano 2009 (Edição Revista e Ampliada) – ISBN 978-85-902226-4-4.


[1] “Pessoa presunçosa”. 

Enigma da Menstruação

Sangue menstrual 

“Segundo os nagôs igbómìnà Ìrókò é um caçador por excelência e Ãbòyámã[1], sua irmã, a essência de uma terrível feiticeira (àjé). Ambos, habitam as árvores que possuem o nome dos mesmos. Sempre que Ìrókò saía à noite, para perseguir animais, depositava os apreendidos junto à imensa apáòká que havia próxima à entrada da floresta. Tão logo se retirava do local para reiniciar a caçada, as Ìyá mi eléeiye se aproximavam dos animais abatidos e bebiam todo o sangue dos mesmos. Era assim todas as vezes em que Ìrókò saía para caçar.

Ãbòyámã, sempre que Ìrókò retornava da caçada com animais totalmente dessangrados, ela indagava: ‘O que o leva a trazer somente animais sem sangue para nos alimentar?’ Ìrókò respondia-lhe da mesma forma todos os dias: ‘Isso não lhe diz respeito. Deixe de ser curiosa e se preocupe mais com os afazeres da casa, ao invés de se envolver em meus negócios’. ‘Isso é você quem diz. Vou insistir na resposta todos as vezes que você voltar da caçada’. Ìrókò em tom ríspido respondeu-lhe: ‘Água que não é de beber, deixe-a correr’. Diante do tom áspero do seu irmão, Ãbòyámã calou-se, todavia tal procedimento aguçou com mais intensidade o desejo de desvendar o enigma. Assim sendo, tão logo Ìrókò adormeceu, sua irmã, após fazer três pequenos furos na sacola em que carregava seus objetos de caça (àpò-dòho), encheu-o de cinzas. 

No dia seguinte, ao alvorecer, Ìrókò, sem de nada desconfiar, pegou seus objetos de caça, colocou-os dento da sacola e seguiu em direção à floresta. Ãbòyámã, que aguardava silenciosamente por esse momento, deu início ao seu plano e, sorrateiramente, começou a seguir a trilha deixada pelas cinzas que caiam do saco que continha os apetrechos de caça do seu irmão.  Alguns passos da entrada da floresta, Ãbòyámã observou que Ìrókò deixou sua sacola aos pés de uma imensa árvore e, em seguida, adentrou a mesma, impedindo dessa forma de continuar-lhe seguindo. Ãbòyámã não esmoreceu. A vontade de desvendar todo aquele mistério era muito mais forte. Assim sendo, decidiu aguardar naquele local o retorno do seu irmão. 

No final do dia, antes do anoitecer Ìrókò retornou do interior da floresta trazendo consigo os animais abatidos. Depositou-os aos pés da imensa árvore propiciatória, onde havia deixado o saco em que guardava seus apetrechos de caça.  Horas depois, a escuridão tomou conta da floresta. Ãbòyámã, continuando às ocultas, aguardava o momento em que seu irmão dessangraria os animais. De repente, diversas aves emitindo gritos aterrorizantes começaram a revoar o topo da árvore onde os animais abatidos foram depositados. Logo em seguida, Ãbòyámã estatelada ficou ao ouvir um das aves dirigir-se ao seu irmão: ‘Por que não vieste sozinho como das vezes anteriores?  Ìrókò respondeu: ‘Mas eu vim sozinho’‘Se tu vieste sozinho como dizes, quem é aquela mulher escondida por trás dos arbustos?’; pergunto a ave. Ìrókò, ao ouvir tais palavras empalideceu.  Totalmente desconcertado, olhou em direção aos arbustos, entretanto, nada viu. ‘Eu não sei de qual mulher estás falando. Não vejo ninguém por trás dos arbustos’; respondeu Ìrókò, olhando outra vez para o local de que ave havia falado. ‘Eu me refiro à Ãbòyámã, tua irmã’; disse a ave. Continuando o diálogo, a ave pronunciou-se: ‘Ela o seguiu desde que saíste de casa para caçar. Ela deseja saber o porquê dos animais, que você caça e leva para casa, não possuem sangue. Você, que está oculta atrás dos arbustos, saia daí imediatamente e se apresente’; continuou misteriosamente a ave a falar. 

Apavorada, Ãbòyámã sai de detrás dos arbustos.  Quando Ìrókò a vê, uma força estranha lança sua irmã aos pés da árvore do sacrifício. ‘Perdão, Senhoras dos Pássaros (Ìyá mi eléeiye). Eu não sabia que o sangue era para as senhoras’; clamou Ãbòyámã. ‘Uma mulher indiscreta deprecia sua família. Procedendo dessa forma, ela provou que não confia em você, tampouco o respeita. Já que você deseja ver sangue, você verá em si mesma, pois o fluxo menstrual que não era eliminado por tua genitália, a partir de hoje, enquanto fores jovem, verás de trinta em trinta luas em si mesma’;pronunciou-se friamente a Senhora dos Pássaros”. 

 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Mérìndilogun Kawrí” – “Os Dezesseis Búzios” – Paginas 140 e 141 – Produção Independente – Ano 2009 (Edição Revista e Ampliada) – ISBN 978-85-902226-4-4.

 

 

 


[1]  “Mãe que protege e dá continuidade às plantas”. FICUS ELASTICA. Existe a crença entre os nagôs igbómìnà de que a aludida árvore, expele energia negativa e atrai o azar, servindo também, de moradia de espíritos errantes “èmí àrinkiri”.   

 

O Afilhado de Ìkú – O Pacto Com a Morte

 “Segundo os nagôs igbómìnà, no início da humanidade, em um pobre vilarejo, o chefe de uma família, que exercia a profissão de agricultor, recebeu de sua esposa a notícia de que seria pai pela décima sexta vez. Ao ser comunicado, disse-lhe de imediato: ‘Mulher, por que engravidaste outra vez? Esqueceste das dificuldades que estamos enfrentando?’ A mulher respondeu-lhe: ‘Um a mais, um a menos na miséria que estamos, não fará diferença’[1]. 

Nove meses se passaram. No fim dos mesmos, a mulher entrou em trabalho de parto. Logo após ter dado a luz ao décimo sexto filho, a esposa do agricultor faleceu. Desesperado, o pobre homem começou a oferecer a quem quisesse apadrinhar a pobre e infeliz criança. Desgraçadamente, nenhuma das pessoas a quem o agricultor ofereceu aceitou, pois sabiam que, ao aceitar, teriam que amparar, criar e educar o rebento.

Após alguns dias, o pobre agricultor, sem ter nada para dar de comer aos seus quinze filhos, tampouco alimentar o recém-nascido, começou a blasfemar. O desespero foi tanto que, em determinado momento, começou a clamar pelo espírito da morte, que viesse buscá-lo e seus dezesseis filhos.

Em determinado momento, um redemoinho começou a surgir diante do miserável agricultor.  Do interior dessa manifestação, aparece um homem de aparência macabra. Apavorado, ele tenta correr para dentro de casa, entretanto uma força sobrenatural o impediu de mover-se.  Quando a poeira assentou, o homem lhe dirigiu a palavra: ‘Estou ciente de que percorreste todo o vilarejo oferecendo teu filho como afilhado (gbígbàtó) a quem quer que fosse. Sei também que ninguém o aceitou tê-lo como pupilo. Assim sendo, ofereço-me a apadrinhá-lo e retirá-los juntamente da miséria em que se encontram’. Sem eira nem beira, o pobre agricultor não teve outra opção a não ser aceitar a proposta de Ìkú.

O tempo passou. A promessa de Ìkú cumpriu-se na íntegra. A família do agricultor deixou para trás todos aqueles dias de infortúnio.  Quando Yíyàn[2], o afilhado do Senhor dos Mortos, atingiu a adolescência, o Ìrúnmólè Ìkú foi visitá-lo. Um arrepio percorreu todo o corpo do agricultor. Desconcertado com aquela visita, indagou Ìkú: ‘A que devo a honra da vossa visita?’ Ìkú respondeu-lhe: ‘Não te apavores. Eu não vim buscar teu filho. Ao vir para o plano terrestre, ele trouxe consigo a data do retorno ao plano espiritual.  Vim apenas revê-lo e presenteá-lo. Quero que ele me diga o que deseja ser ao atingir a maturidade.’ O jovem que a tudo ouvia disse de imediato: ‘Quero ser um médico (onísègùn) famoso’.  ‘Assim será. Acompanhe-me’; respondeu-lhe o senhor dos mortos. E assim, ambos se dirigiram até a imensa árvore osè [3] (baoba) que existia na frente da casa do agricultor.   Lá, Ìkú, colocando as  mãos sobra à cabeça de Yíyàn, pronunciou-se: ‘A partir de hoje, os enfermos que receberem de tuas mãos uma folha dessa árvore se restabelecerão e ficarão curados. Entretanto, quando ao leito dos mesmos chegares e veres uma chama se extinguindo aos seus pés, significará que não haverá cura. Sendo assim, não deverás dar a nenhum deles a folha da árvore osè, isto porque eu virei buscá-lo tão logo dos aposentos dos mesmo você se retire’. Yíyàn concordou plenamente com as determinações de seu padrinho, senhor dos mortos. A partir daquela data, o afilhado de Ìkú começou a fazer cura. Sua fama alcançou os lugares mais longínquos do planeta. 

Certa ocasião, após restabelecer a saúde de um pastor de cabras que residia em um reino vizinho próximo a sua terra natal, Yíyàn, foi convidado pelo regente do mesmo para ceiar e pernoitar na moradia real. Esse, exausto, não titubeou, aceitou de imediato o convite real.  Durante à noite, ao cair da madrugada, Yíyàn acordou com gritos de desespero que vinham dos aposentos reais. Não demorou muito para que os conselheiros do rei viessem buscá-lo para curar o rei. Ao adentrar os aposentos do rei munido com uma folha da árvore osè, Yíyàn esmoreceu. Aos pés do leito do Oba (rei) havia uma chama se extinguindo. Era o sinal da morte. De imediato, Yíyàn informou que nada mais poderia ser  feito, isto porque o  rei estava condenado à morte.  A família real inconformada com o fato ofereceu a Yíyàn várias peças em ouro maciço,  pedras preciosas, isto sem falar  dos  outros objetos de valor  que lhe foram oferecidos.  As ofertas foram tantas que o lado humano do jovem médico falou mais alto. Antes que o rei expirasse seu último suspiro, Yíyàn realizou o ritual com a folha do osè, restituindo dessa forma a vida do rei.   

Tão logo dos aposentos reais Yíyàn se retirou, Ìkú, o senhor dos mortos, o mesmo adentrou e possesso ficou ao ver o rei totalmente restabelecido. Imediatamente, Ìkú se apresentou ao seu afilhado. Quando diante do mesmo se apresentou perguntou-lhe: ‘Por que me desobedeceste, Yíyàn. Por acaso esqueceste das minha palavras?’ Yíyàn,  prostrando-se aos pés de Ìkú, pede-lhe desculpas alegando que se rendeu diante de tanta riqueza, mas que tal fato não mais se repetiria.  

Pouco tempo depois, Yíyàn foi procurado outra vez pelos conselheiros do rei que havia salvo da morte. Dessa vez, era para socorrer a princesa, a herdeira do trono.  Sem questionar, Yìyán  acompanhou os conselheiros do rei até o palácio. Lá chegando, ao adentrar os aposentos reais, defrontou-se com uma chama aos pés da princesa, lume esse quase extinguindo. A expressão do rosto de Yíyàn foi o suficiente para que o rei compreende-se qual seria a resposta que seria dada.  Sem pestanejar, mandou buscar  tecidos caríssimos, tapetes, jóias, objetos de valor, ouro, prata  e uma incontável quantia em búzios. Apesar da tentadora oferta, Yíyàn disse ao rei: ‘Infelizmente não há mais nada a ser feito. A princesa está agonizando’.  O rei, numa tentativa derradeira, disse-lhe: ‘Salve minha filha  que eu lhe darei a mão dela em casamento’. A proposta soou aos ouvidos de Yíyàn de forma alucinadora. Longe de imaginar as conseqüências, libertou a princesa dos braços da morte. 

Horas mais tarde, quando Yíyàn, ao lado do rei e da princesa, comemorava o casamento, foi avisado de que seu padrinho tinha vindo pessoalmente abraçá-lo e parabenizá-lo pelo enlace matrimonial. O frio correu a espinha de Yíyàn que, pálido tal qual um cadáver foi ter com seu padrinho.  Ao se defrontarem, Ìkú perguntou-lhe: ‘Por que desobedeceste pela segunda vez?’ Yíyàn respondeu-lhe: ‘Ìkú, meu padrinho e senhor dos mortos, sou lhe muito grato por tudo que fizeste por mim e a minha  família, entretanto, de hoje em diante, serei um nobre. Terei tudo o que desejar a tempo e a hora. Não sou mais aquele menino indeciso e indefeso. Hoje sei muito bem o que eu sou e o que quero. Continuando o diálogo, disse Yíyàn ao seu padrinho: ‘Venha, entre em minha tenda, ceie comigo, e, como já está muito tarde, convido-lhe para pernoitar em meu palácio’. Ìkú, não se fazendo de rogado, prontamente aceitou o convite do seu afilhado. 

Quando a noite ia alta, Yíyàn, durante o sono, ouviu a voz de Ìkú que lhe chamava. Ao atendê-lo, se deu conta de que estava frente ao mesmo embaixo de um imenso baobá (osè).  Antes de conseguir se expressar ouviu Ìkú lhe dizer: ‘Yíyàn, você virá comigo até o Vale da Morte. Existe algo no mesmo que você precisa ver. Venha. Acompanhe-me’. Lá chegando, o afilhado de Ìkú deparou-se com um vale totalmente iluminado por chamas. Em determinado momento, Yíyàn perguntou o que significavam tais lumes. Ìkú respondeu-lhe: ‘Essas chamas significam a vida de cada ser humano’. Yíyàn cada vez mais curioso, indagou: ‘Por que estão todos esses lumes em um só lugar. Uns apagando, outros acendendo quase ao mesmo tempo. O que significa tudo isso?’ Ìkú respondeu-lhe: ‘Meu afilhado, cada um desses lumes representa um ser vivente, seja ele rei, rainha, príncipe, princesa ou plebeu. Aqui é morada do tempo.  Esse é motivo de estarem todos aqui ao mesmo tempo’. Yíyàn, sem nada entender perguntou outra vez: ‘Como assim todos ao mesmo tempo?’ Ìkú respondeu-lhe: ‘Yíyàn, todos estão aqui ao mesmo tempo, isto porque o tempo é uma linha ininterrupta. O ontem, o hoje e o amanhã estão contidos nesse mesmo espaço. O tempo não passa, os seres viventes é quem passa por ele. Seus semelhantes ao virem para o mundo trazem em seus destinos o dia de nascerem e a hora de perecerem. Portanto, tudo está aqui ao mesmo tempo. O ontem, o hoje e o amanhã’ 

Assim que Ìkú terminou suas explanações, Yíyàn perguntou-lhe: ‘Se cada uma dessas chamas corresponde à vida de um ser vivente, de quem se trata o lume que está se apagando aos seus pés, uma vez que já é morto?  E por que a árvore osè esta se desfolhando com tanta rapidez?’ ‘O lume que está se apagando é o seu; Nada mais pode fazer. Evitou inconseqüentemente por duas vezes consecutivas que a morte cumprisse seu papel. Por esse motivo sua vida foi trocada. É chegada a hora da sua morte’. 

Após Ìkú pronunciar-se, um leve vento soprou por todo vale da morte, apagando definitivamente o lume da vida de Yíyàn, que não viveu para desfrutar do reino que havia herdado’”. 

Eni   gbogbo  gbódò;  ko  si  gbàní” 

“Quem muito quer; nada tem” 

Da Sabedoria Yorùbá.

Bibliografia: PENNA, Antonio dos Santos, Mérìndilogun Kawrí – Os Dezesseis Búzios. Páginas 257, 258, 259 e 260  – Produção Independente: RJ, 2001 – Ano 2009. Edição Revista e Ampliada. – ISBN 978-85-902226-4-4.

 

[1]  Para algumas tribos, ter vários filhos simboliza prosperidade (na velhice).

[2]  “O escolhido”.

[3]  ADANSONIA DIGITATA L., Bombacaceae. Também chamada de “árvore dos mil anos”.

Obí – O Fruto Sagrado


PARÁBOLA DO OBÍ

Contam os nagôs igbomina em solo brasileiro, que, após o cataclismo que separou a Terra (Àiyé) do Infinito (Sànmá), os habitantes do planeta Terra (ará-àiyé) não mediram esforços para aplacar a ira do Criador. Inúmeros preceitos e várias oferendas foram realizados em prol da obtenção do perdão do Senhor do Universo. 

A remissão da pena era de suma importância, pois todo o contato com o Cosmo havia se perdido. Tantas foram as oferendas e súplicas que Olodumarê apiedou-se e concedeu aos habitantes da terra um indulto pela falta cometida, permitindo o nascimento de um profeta. O mesmo ao nascer deveria chamar-se ‘Obí’. 

Este ser predestinado não poderia discriminar as pessoas, tampouco recusar o atendimento às mesmas, sob pena de perder seus poderes. A palavra de Olodumarê se cumpriu. Nove meses depois, nasceu o menino que recebeu o nome de ‘Obí’. 

Os anos se passaram. Com o decorrer dos mesmos, ‘Obí’ tornou-se um homem famoso nos lugares mais longínquos do mundo. Infelizmente, não levou muito tempo para que a fama subisse à cabeça do jovem.  Quando o mesmo se encontrou no auge da notoriedade, passou a ser indiferente e a menosprezar as pessoas mais carentes, chegando ao ponto de negar-lhes atendimento nos momentos mais difíceis de suas vidas. 

Estes fatos não passaram por despercebidos ante os olhos de Èsù Alábojotu (Supervisor dos atos dos seres humanos), que tratou imediatamente de relatar ao Criador Excelso o procedimento do jovem ‘Obí’.    Indignado com os fatos, Olodumarê materializou-se e foi ter com ‘Obí’ por três vezes consecutivas. A primeira disfarçado de rico, a segunda passando-se por uma pessoa desprovida de recursos financeiros no momento do seu desespero e, por último, vestindo-se de mendigo.

Contudo, para seu infortúnio, as informações de Èsù Alábojotu eram verdadeiras. Não querendo crer no que seus olhos haviam presenciado, Olodumarê, fingindo-se de mendigo, retorna à porta do vidente ‘Obí’, suplicando atendimento. Mais uma vez, sem nada desconfiar, o profeta recusa o atendimento e expulsa o mendigo da sua casa, batendo com a porta na face do indigente.

Neste exato momento, o jovem ‘Obí’ ouve alguém chamá-lo à porta. Reconhecendo a voz de Olodumarê – O Criador do Universo, corre rapidamente para abri-la. Quando a abre, depara com o mendigo que há poucos minutos havia negado o atendimento e expulsado da sua casa. 

‘Obí’, ao perceber que o mendigo era seu Criador disfarçado, prostra-se aos pés do mesmo suplicando perdão. Irredutível, Olodumarê se pronuncia: ‘Obí, tua missão na Terra como profeta está encerrada. Voltarás ao pó de onde vieste. No lugar em que fores enterrado, nascerá uma árvore que terá o teu nome, darás flores e frutos. Eternamente tuas sementes cairão do alto dos teus galhos sobre o chão e, rolando pela terra, servirão de interpretação entre o profano e o sagrado’”

E assim, o ‘obí’ passou a servir de intérprete entre o profano e o sagrado, tornando-se desta maneira o 1º Oráculo dos habitantes da Terra. 

Bibliografia: PENNA, Antonio dos Santos, Mérìndilogun Kawrí – Os Dezesseis Búzios. Páginas 57 e 58 – Produção Independente: RJ, 2001 – Ano 2009. Edição Revista e Ampliada. – ISBN 978-85-902226-4-4.

 

 

Parábola da Ambição

“Contam os nagôs igbomina no Brasil  que,  após a formação do planeta Terra e do surgimento do ser humano, Olodumarê selou um pacto com  ‘Onilè’ (A Mãe Terra – O ventre da humanidade).  Esse  acordo consistia em devolver-lhe a porção de lama dela retirada para modelar o homem[1]. Para tal feito escolheu o Irunmolé Ìkú, uma vez que o mesmo foi o único que conseguiu cumprir suas determinações no tocante ao recolhimento da proto-matéria.  

A incumbência atribuída a Ìkú o transformou num Irunmolé[2] temido e respeitado. Todos os viventes racionais constantemente a ele recorriam, exaltando-o, conferindo honrarias, imolando-lhe animais constantemente, na expectativa de poderem permanecer vivos por muitos e muitos anos, uma vez que a imortalidade havia se encerrado face o fechamento do portal que separava o Àiyé (Terra) do Sànmá[3] (Cosmo). 

A fama e o prestígio adquiridos por Irunmolé Ìkú  geraram  no Irunmolé Ajê Xaluga a ambição e a inveja. Imbuído nesses sentimentos, elaborou um ardiloso plano para destituir Ìkú do seu cargo e do prestígio dele se apossar. Obstinado em cumprir o plano elaborado, Ajê Xaluga, fazendo uso do poder místico que possuía, ocultou-se num casco vazio de um imenso molusco, que havia morrido na estrada próxima ao local no qual eram feitas as oferendas a Ìkú. De lá ficou ouvindo tudo o que se dizia a respeito do mesmo. Em determinado momento, Ajê Xaluga, ao perceber um som que emanava de um instrumento de sopro, ouviu os seguidores de Ìkú pronunciarem: ‘O instrumento da morte está sendo tocado, logo, logo haverá um humano com a cabeça estirada em direção ao Reino dos Mortos.’  Após ouvir o comentário  daquelas pessoas, Ajê Xaluga disse para si mesmo: ‘Isto era tudo que eu precisava saber para fazer Ìkú descer do seu pedestal.’    

Imediatamente, Ajê Xaluga dirigiu-se para o Reino dos Mortos. Lá chegando, aguardou Ìkú retirar-se para cumprir seu papel e, tão logo o viu se afastar, sorrateiramente teceu de uma forma mística uma rede invisível frente a entrada da moradia de Ìkú. Em seguida, apossando-se do instrumento que anunciava a morte de um ser, soprou-o veemente. 

Não demorou muito tempo para que Íkú ouvisse o som. Semelhante a um lampejo, o Senhor dos Mortos seguiu para a sua moradia. Apesar de possuir dons sobrenaturais, a  rapidez  com que se dirigiu para casa  impediu-o de detectar a rede que Ajê Xaluga havia estendido à entrada de sua casa.  Assim sendo, caiu na armadilha e,  facilmente, foi capturado. 

Ao ver seu rival aprisionado na rede que havia se tornado visível após o aprisionamento, Ajê Xaluga, debochado e irônico, disse ao seu prisioneiro: ‘Vou levá-lo aprisionado até a presença de Olodumarê. Todos testemunharão o meu poder. Veremos quem é mais perspicaz e se ainda haverá dúvidas quanto ao meu poder?’  Assim sendo, Ajê Xaluga dirigiu-se ao ‘Ibùgbé Sèsè Sánmà” (Ibugbé Xexé Sanmá)-  A Morada do Justo. 

Lá chegando, após se apresentar diante do Criador do Universo, relatou-lhe o ardiloso plano que colocou em prática, em seguida, continuando o diálogo disse-lhe: ‘Pai, prometi a mim mesmo que traria Ìkú aprisionado ante a tua presença.  E agora, será que ainda restam dúvidas quanto a minha astúcia e meu poder?’ 

Tomado de pavor e descontentamento mediante o atrevimento de Ajê Xaluga, e da displicência de Ìkú, Olodumarê pronunciou-se: ‘Retire-se da minha presença, Ajê Xaluga. Leve tudo que imagina que seu poder pode conseguir. A partir de hoje, será representado por uma concha marinha e terá  o nome de Ajé-owó[4] (Ajê ouô).  Terá o poder de conquistar tudo o que for de bem material na face da Terra.  Por sua causa, nações se erguerão umas contra as outras, pais e filhos se desconhecerão. Será o vil metal causador das discórdias, dos latrocínios, das guerras, e, andando lado a lado,  ensejará o surgimento das desgraças, isto porque, onde houver a ganância, haverá a ambição desmedida pelo poder.  E, com certeza, lá estará a Morte, à espera de todos que nutrirem adoração por você.’” 

O mito acima narrado elucida a causa da morte proveniente da ambição, todavia o Irunmolé Ìkú é visto pelos  iorubas como lógica quando retrata o final  ordeiro e tranqüilo de tudo que existe na Terra. Sobre isso, costumam dizer: 

“ Ìkú ko kàn tètekó, òkánjuà beeni”. 

“A morte não atinge previamente; a ambição, sim!”. 

Da Sabedoria Yorubá. 

 

Bibliografia: PENNA, Antonio dos Santos – Páginas 91 e 92 do livro “Èjì Ologbon Àwon Àmúlù” – “Òyékú e Suas Combinações” – Produção Independente – Ano 2006 – ISBN 85-902226-3-2

 


[1] Penna, Antonio dos Santos. “Èjì Ogbè Àwon Àmúlù – Èjìonile e Suas Combinações”,  pp.  33/34. RJ : Produção Independente, 2003.

[2]  Designação dada aos Orixás – Entidades divinas que participaram da formação do cosmo. “Aqueles que carregam ou possuem brilho/luz e que por sua vez são encarregados de manter as três forças superiores”. Penna, Antonio dos Santos. “Mérìndilogun Kawrí – Os Dezesseis Búzios”,  p. 195  – RJ. Produção Independente, 2001.

[3] Penna, Antonio dos Santos.  “Mérìndilogun Kawrí – Os Dezesseis Búzios”,  p. 23  –  RJ. Produção Independente,  2001.

[4]  “Dinheiro”.