Os números de 2014

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos em Sydney, Opera House tem lugar para 2.700 pessoas. Este blog foi visto por cerca de 20.000 vezes em Se fosse um show na Opera House, levaria cerca de 7 shows lotados para que muitas pessoas pudessem vê-lo.

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[Parte 1] Lavagem das Escadarias – Àse Oba Ìgbó

Um filme sobre sonho, tradição e família – Parte I

“O Conselho Sacerdotal do “Àse Oba Ìgbó”, orgulhosamente, fazendo se acompanhar por filhos, netos e bisnetos de santo, juntamente com diversos adeptos e simpatizante da Tradição Religiosa dos Orixás, realizou no dia 27 de Abril de 2014, a Procissão e o Cerimonial da Segunda Lavagem das Escadarias do Templo do Senhor do Alvorecer, seguido da comemoração do “Odùn Èkéta” do Sr. Agnaldo Souza de Obàtálá — “Obasola”, do Cerimonial da Apresentação da “Àjòyè” Srª. Iracema Guimarães Lopes de “Oya”, dos “Ìjòyé” os Srs. José Alexandre Santos de Oliveira — Epíteto “Garnizé” e Wallace Feliciano Teixeira de Obàtálá.

Ao término dos ritos sagrados, a belíssima apresentação dos componentes dos “Tambores de Olokun”, dirigida pelo Olùpòná, o Sr. Alexandre Garnizé, encerrou com Chave de Ouro toda a nossa programação.”

Informações:
TEMPLO DO SENHOR DO ALVORECER
ÀSE OBA ÌGBÓ
RITO NAGÔ IORUBA IGBOMINA
Rua Monte Cenis (antiga Rua Cinco), Lotes 32 e 33 — Quadra 22.
Chácara Rio Petrópolis — Duque de Caxias — RJ
Tel.: (021) 3654 — 6981 – (021) 7843-3163 ou ID 82*120314

Em Um Lugar No Passado

Com as bênçãos de Olódùmarè, do meu Ori e de Obàtálá, bem como, de todos os orixás e ancestrais deificados ou não, estarei completando 52 anos de iniciado – Deus Seja Louvado! – Sim – 1961/2013 – Cinquenta e dois anos. 

Baseado em minha história, resolvi tecer um pequeno comentário em forma de desabafo: 

Quando me iniciei no Candomblé, não havia importação para o Brasil, dos mais diversos produtos africanos destinados ao culto aos orixás. Na Praça Tiradentes, atrás do Teatro Carlos Gomes existia uma loja de artigos religiosos. Talvez, naquela época, a única do ramo no RJ. O proprietário da mesma, se não me falha a memória chamava-se Fernando Spinola. Era um senhor bem forte (gordo) – Tinha o hábito de ficar sentado em um pilão. 

Naquela época, os mais conceituados sacerdotes (as) para lá se dirigiam na esperança de adquirir os produtos que o aludido senhor vendia. Obí de quatro gomos, pena do Odide, atarê e tantas outras coisas para a liturgia não havia chegado ainda ao Brasil. 

Esclareço, que, as primeiras penas da cauda do papagaio da costa começaram a chegar pelos idos de 1960 através de uma ilustre e conceituada dama da alta sociedade. Hoje, uma das mais conceituada Ialorixá do Brasil. – Usava-se pena do papagaio brasileiro ao invés do “odidé”, anil ao invés de “waji”, urucum em lugar de “osun”, pemba branca ao invés de “efun”, grãos de pimenta branca ao invés de “lelekun”, e tantas outras adaptações. Palha da costa – Não – Usava-se palha de buriti. Raríssimos foram os iniciados (as) que colocaram em suas testa a “célebre pena da cauda do papagaio da costa” – Pena de Agbe, aluko, lekeleke …? , tá brincando…… Dessas, muitos nunca haviam ouvido falar. 

Sim – Não havia – Entretanto, os poucos sacerdotes (as) daquela época que ainda vivem estão sendo crucifixados nos dias atuais, pelos “Teólogos do Resgate da Tradição Africana dos Orixás” – Usar cebola, maça, partir “obi” de dois gomos em quatro, enfim, seja lá o que for ou que tenha sido feito no passado para manter acessa a chama da Tradição dos Orixás é visto atualmente por “várias pessoas” como prática de um bando de idiotas e incompetentes. 

Permita-me lembra-los senhores “Teólogos do Resgate” que muitos desses que hoje “vocês” chamam de idiotas, de incompetentes, e, ainda por cima satirizam, são seus ancestrais, isto, pai, mãe ou avô (a) de santo. Aplausos!!! Continuem assim. 

                                                 Àdìfá Oba Aláàiyé Fámãkindé Otuoko –  Ase Oba Ìgbó                  


Parábola Do Pequeno Sino Divinatório

Contam os nagôs iorubas em solo africano, e, em solo brasileiro que, num período longínquo, Orunmilá, ao visitar a cidade de Alo, resolveu comprar um elefante que estava à venda. Após a compra, um e outro se tornaram amigos. A partir dessa época, os dois passaram a fazer constantes passeios. Ambos executavam toda a sorte de trabalhos com o objetivo de obterem dinheiro, entretanto Orunmilá não era tão possante quanto o elefante, sendo assim, não conseguia resistir aos obstáculos.

Certa ocasião, ambos resolveram ir para a floresta. Durante três anos e três meses, os dois trabalharam arduamente na selva. Infelizmente, o dinheiro que Orunmilá ganhou com os serviços prestados era suficiente para comprar uma roupa de linho cru[1]. Retornando para casa, Orunmilá pediu ao elefante que segurasse sua roupa por alguns momentos. E o Elefante o fez. 

Quando Orunmilá retornou, a roupa havia desaparecido. O elefante negou veemente ter recebido as mesmas das mãos de Orunmilá.  O impasse se concretizou ao ponto de Orunmilá agredir o elefante. Esse, usando sua tromba, arremessou o amigo à distância. Algumas horas mais tarde, ambos fingindo estarem mais calmos, retomaram o caminho de volta para casa, sem pronunciarem uma só palavra.

Ao cruzarem uma encruzilhada, ambos se separaram. Orunmilá seguiu para a cidade de Ado e o elefante para Alo, cidade natal do seu antigo dono. A caminho de Ado, Orunmilá cruzou com um caçador de elefantes. Orunmilá , não se fazendo de rogado, disse para o caçador: ‘Eu sei onde podes achar um elefante e mata-lo’. ‘Mostre-me o caminho’ disse o caçador. Orunmilá sem titubear tomou juntamente com o caçador o caminho da cidade de Alo.

Durante o caminho, Orunmilá disse ao caçador: ‘Assim que o caçares e matá-lo, deverás abrir a barriga do mesmo. Ao abri-la, encontrarás uma roupa branca que me pertence’.   O caçador respondeu de imediato: ‘Se for verdade o que dizes, terás tua roupa de volta’. 

Horas mais tarde, o caçador encontrou o elefante e o matou. Quando a barriga do mesmo abriu, achou a roupa branca sobre a qual Orunmilá havia falado.  Imediatamente, agraciando Orunmilá pela caça, deu-lhe uma das presas do elefante, juntamente com a roupa branca que pertencia ao mesmo. Em virtude da hipocrisia do elefante, Orunmilá transformou a presa (dente incisivo) do mesmo que havia ganho de presente em uma sineta. 

Esse instrumento é usado até os dias atuais por seus sacerdotes, quando da evocação do mesmo para uma consulta oracular, lembrando-os de que não devem usar de falsidade para com os que os procurarem. 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Mérìndilogun Kawrí” – “Os Dezesseis Búzios” – Paginas 47 e 48 – Produção Independente – Ano 2009 – ISBN – 978-85-902226-4-4.  – Edição Revista e Ampliada. 

 


[1] – Tecido branco da época. Esclarecimento: Nos primórdios da humanidade, não havia alvejante, sendo assim, o tecido branco de outrora não era alvinitente como os atuais.

 

A Primeira Reencarnação – Narrativa da Desobediência

Contam os nagôs igbomina em solo brasileiro, que, nos alvores da criação da humanidade, o Àiyé (planeta Terra) fazia divisa com o Sánmà[1] (infinito), não havendo morte física. O ser humano ao chegar no limiar da sua estadia na Terra (Àiyé), ia residir no Infinito, ficando o mesmo com a permissão de ir e voltar ao Àiyé quantas vezes quisesse. 

Em meio a toda essa benevolência divina, uma mulher estéril dirigiu-se a Bàbá Àjàlà e solicitou-lhe, ocultamente do seu esposo, concessão para conceber um filho, pois este era o seu maior desejo. Inúmeras vezes este fato se repetiu, e a resposta era sempre a mesma: “Não! Tu não tens este direito; tua estirpe encerra contigo. Assim está escrito”.   Firme em seu propósito, a mulher não desistiu. Calçada nesta refutação solicitou o auxílio de Exu (Èsù) no sentido de alcançar a permissão para o seu intento. Ele, prontamente, determinou que ela ofertasse a Bàbá Àjàlà[2] um cesto de palha forrado com ramos de malícia-das-mulheres (patonmó) e ramos de hena (ìyálómo). Tendo em seu interior quatro frutos inteiros de pimenta da costa (atãre) e quatro frutos inteiros de pimentão-doce (ata jíje), juntamente com um preá e um caramujo comestível, ambos vivos. 

Feliz com a resposta, a mulher providenciou imediatamente a entrega das ofertas. Estas oferendas foram aceitas com bons olhos por Bàbá Àjàlà, que, movido pela insistência e pelo desejo veemente da mulher estéril, permitiu arbitrariamente a sua fecundação. Contudo, uma condição lhe foi imposta: “Seu filho ao nascer deverá chamar-se Adêtaiiê (Adétàiyé)[3]. O mesmo jamais poderá transpor a fronteira do Àiyé”. 

Findo o período das nove luas, a mulher deu à luz um belo menino. Logo após o parto, relatou a seu esposo sobre a oferta que havia feito a Bàbá Àjàlà. Disse-lhe também que a oferenda tinha sido indicada por Exu e que, mediante a quebra de uma interdição, seu filho jamais poderia cruzar os limites do Àiyé com o Sánmà. O pai de Adêtaiiê não se contrariou.  A felicidade de ter sido pai superava qualquer empecilho. O tempo passou. Desde que o mesmo deu os primeiros passos, sua mãe tomou todos os cuidados necessários para o perfeito cumprimento das determinações feitas por Bàbá Àjàlà. E assim os anos se passaram. Quando Adêtaiiê tornou-se adolescente, a proibição tornou-se uma incógnita difícil de ser contornada. Sempre que seus pais iam visitar seus ancestrais no infinito, o jovem perguntava: “Aonde vão? Por que não posso acompanhá-los?” A resposta era sempre a mesma: “Um dia, você irá”. 

Sabedor de que seus pais jamais o levariam em viagem até o infinito, ao oposto dos demais genitores que seus levavam, Adêtaiiê resolveu, às ocultas, seguir seus pais.  Infiltrando-se junto aos demais, seguiu jornada afora. Depois de muito andar, o jovem chegou ao limite do Àiyé com o Sánmà. Tão logo o ultrapassou foi visto por seus pais, todavia, era tarde demais. 

Ao adentrar o infinito, Adêtaiiê reconheceu imediatamente aquele local e o caos teve início.  O desespero tomou conta do jovem, que começou a gritar e chorar desesperadamente. Soluçando dizia: “O que significa tudo isto? Como posso conhecer este lugar sem nunca ter vindo aqui antes?” A agonia e o choro de Adêtaiiê atravessaram os noves espaços sagrados do infinito (Sánmà) até chegar ao ante-espaço (Ibùgbé Sese Sánmà), da morada de Olôdumarê (Olódùmarè) o Criador Excelso. 

Ao tomar conhecimento dos fatos ocorridos, Olôdumarê, irado com a desobediência, pronunciou-se: “Por que violaram meus desígnios, infames mortais? Em face este ultraje, separarei em caráter definitivo o infinito da Terra. Entre eles existirão o espaço vazio (òféèrefè) e um espaço negro (ìtakéte dúdu), contendo no interior deste último o desconhecido” (àilókìkí). Em seguida, Olôdumarê lançou seu cajado divino (òsóró), que, cruzando os noves espaços sagrados, cravou-se na Terra, deixando os seres humanos, que estava no infinito (sánmà) durante o ocorrido, presenciarem desolados o aprisionamento e o fechamento do portal do mesmo (ãisè sánmà).  

À medida que o cajado divino (òsóró) percorria o caminho de volta para as mãos de Olôdumarê, separava, em caráter irreversível, o infinito (sánmà) do planeta Terra (Àiyé), habitando entre eles o vazio e o desconhecido.

 Bibliografia:  PENNA, Antonio dos Santos, Mérìndilogun KawríOs Dezesseis Búzios. Pàginas 23 e 24 – Produção  Independente: RJ, 2001.


[1]  Quando da criação da humanidade, o Àiyé (planeta Terra) e o Sánmà (infinito) não eram separados, isto é, a humanidade não se desdobrava em dois níveis.

[2]  “Aquele que modela os seres humanos”.

[3]  “Aquele que veio para ser protegido e viver na Terra”.

Gênese – Origem

ÌPILÈSE  ÀIYÉ

GÊNESE – A CRIAÇÃO DO MUNDO

Segundo a tradição religiosa dos nagôs igbominas, em um tempo incontável, Olódùmarè, ao atravessar os nove espaços sagrados do Cosmo, defrontou-se com uma vasta imensidão negra, vazia e sem forma cobrindo todo o Universo. Ao se defrontar com esta massa caótica, disse o Criador Excelso: “Haja a Luz!”. Neste momento, um clarão de proporção incalculável e inigualável percorreu toda a extensão lúgubre e desabitada. Não houve um lugar sequer aonde a “Luz do Criador” não tenha chegado. 

Ele a admirou, abençoou e, em seguida, retirou-se para sua morada, o “Ibùgbé Sese Sánmà” (A Morada do Justo). 

 Este foi o Primeiro Dia da Criação do Mundo.

No dia seguinte, quando passeava por entre a “Luz”, disse o Criador: “O meu espírito neste vasto espaço se dividirá duplamente: A primeira divisão se chamará Èlà – Aquele que será o Ajuste dos Destinos Infelizes – A Salvação. Nele, estarão contidos todas as modalidades do destino individual de cada ser existente sobre a face da Terra. A segunda se chamará Òrunmìlà – Aquele que conhecerá o interior das pessoas – O Salvador”.

Em seguida, disse o Criador: “Haja o espírito da atmosfera, AfefeÒtun – O lado direito. O espírito do vento. A vida. Ele dominará as nuvens, a névoa, a luz e a vida.

Haja o espírito do fogo – Iná. Ele dominará o Sol, o calor e a tolerância. Nele estará contido o Homem que por mim será criado. 

Haja o espírito da água, Omi-Òsi – O lado esquerdo. Ele dominará a chuva, o frio, a noite, a morte, o período do florescimento, os períodos quentes e os das colheitas. Nele estará contida a Mulher que por mim será criada.

Haja o espírito da sabedoria, o âmago, a verdade – Èmí Ojúlòmò. Ele dominará as idéias, as expressões, a delicadeza e o bem-querer”.

Este foi o segundo dia da Criação do Mundo 

No dia posterior, quando passeava por entre a Luz, a Atmosfera, o Fogo e a Água, disse o Criador: “A Luz possuirá eternamente um local para surgir e descansar. O seu surgimento será chamado de Òyè e seu descanso, de Asãlè. Entre ambos haverá o meio-dia, que será o Õrùnkàntarí – A claridade; e a meia-noite, Òganjó – A escuridão”.

Este foi o terceiro dia da Criação do Mundo.

Após o terceiro dia da criação do Mundo, disse o Criador ao passear pelo infinito: “Abaixo da atmosfera, separadas uma das outras, estarão as águas doces e salgadas. Entre elas haverá uma vasta extensão de lama, que, mediante a ação do Iná (O Espírito do Fogo) e da ação do Omi (O espírito da Água), tornarão a terra úmida e fértil. Nela e dela todos os seres por mim criados se alimentarão e tirarão seus proveitos”.   

“Este foi o quarto dia da Criação do Mundo”. 

E assim, após ter realizado sua magnificente obra, Olódùmarè retirou-se, retornando ao “Ibùgbé Sese Sánmà”, de onde continua abençoando o mundo por toda a eternidade.

Bibliografia: PENNA, Antonio dos Santos.  Èjì Ologbon Àwon Àmúlù – Òyèkú e suas Combinações. Páginas 23 e 24 – Produção Independente: RJ, 2003.

 

 

“Nipa mówà’kan” – Mito do Primeiro Oníyàwó.

Contam os nagôs igbominas (ìgbómìnàs) em solo brasileiro, que após o fechamento do portal, que separava o planeta Terra (àiyé) do infinito (Sánmà) “Oxênibuomi” (Ose n’ibú omi – Òsun nas profundezas das águas dos rios) recebeu de Olodumarê (Olódùmarè) a incumbência de escolher entre os seres humanos, o mais forte, o mais virtuoso e inteligente dos homens, ser este, que deveria ser investido na função de sacerdote (aborè). 

Destacou-se entre eles o belo e intrépido jovem que atendia pelo nome de Nipamóuacam (Nipa mówà’kan – Aquele que é capaz de compreender e vascular os corações). Tão logo fora feita a escolha, Oxum (Òsun) providenciou para que o escolhido adquiriu-se todos os conhecimentos necessários a pratica da liturgia e suas ritualísticas. 

Alguns anos depois, Oxum foi comunicada que o Irunmólé Icú (Ìrúnmólè Ìkú) viria buscar Nipamóuacam apesar dele ainda ser jovem. Desesperada Oxum recorre a Orunmilá (Òrunmìlà) na tentativa de afastar do seu sacerdote a terrível sina que se aproximava. Foi com pesar que Orunmilá reportou-se a Oxum dizendo: ‘O que pedes é impossível. A determinação de Olodumarê diz que: Os seres humanos voltarão ao pó de onde vieram, suas almas retornarão ao infinito para prestarem contas dos seus atos. Sei que este jovem é teu protegido e que tu o amas também apesar da proibição.  Desejo carnal esse, que a motivou retardar a ordenação sacerdotal do mesmo até a data. Infelizmente, o Icú – O Senhor dos Mortos virá buscá-lo no momento exato determinado pelo seu destino’ 

Desesperada Oxum suplica: ‘Orunmilá, poupe a mim e a todos os que são inteiramente seres humanos desta triste tragédia. Ajude-me a transformar o grande amor da minha vida num ser que possa voltar ao planeta Terra após a morte, mesmo que seja somente em espírito’.  Orunmilá disse-lhe: ‘Retornes daqui a quatro dias minha filha, irei interceder por ti e por todos junto a Olodumarê’.  Transcorrido os quatro dias, Oxum ainda em desespero retorna a Orunmilá na expectativa da solução do impasse da morte de Nipamóuacam. 

Diante de Orunmilá, Oxum em prantos se ajoelha e suplica: ‘Então, meu pai, conseguistes junto a Olodumarê uma solução, uma trégua, enfim, responde-me, por favor?Orunmilá, olhando carinhosamente para Oxum, pronuncia-se: ‘Levanta-te minha filha, Olodumarê, nosso Deus e Senhor foi benevolente para contigo e para com os habitantes da terra (ará-àiyé). Será criada uma morte aparente para Nipamóuacam (Nipa mówà’kan), entretanto, para que tal fato se concretize, tu que és semimortal deverás providenciar em grande estilo a purificação e consagração do teu sacerdote. Deverás proceder de acordo com os ritos determinados afim de que o corpo de Nipamóuacam, após a morte, seja transformado numa ave, animal este, que será absoluto, insubstituível e único nas iniciações e consagrações dos futuros neófitos. Será também, a partir desta data, o símbolo da união dos homens com os ancestrais deificados (ebora). 

Oxum preparou imediatamente o local da iniciação e consagração de conformidade com as normas e ritos que lhe foram transcritas, transformando Nipamóuacam no primeiro altar vivo da nossa religião. No dia seguinte da iniciação e consagração, tão logo os primeiros raios de sol surgiram no Leste anunciando a presença do Criador, Oxum apresentou Nipamóuacam aos quatro cantos de adoração do universo, e ao ser colocado no centro do local onde fora consagrado, sobrevoou no infinito o pássaro Ogomugomu (pássaro de rara beleza não existe similar no Brasil) que, ao pousar sobre a cabeça de Nipamóuacam, salpicou-o totalmente com um pó de cor branca (efun). 

Pouco tempo depois, conforme havia sido previsto, Ìkú – Senhor dos Mortos devolveu a terra o corpo de Nipamóuacam e o seu espírito foi levado à presença de Elérin Ipim (Elérin Ìpin A Testemunha do destino) no Ilê-éjó Ocam (Ilé-Ejó Okan – Tribunal das Almas) para prestar contas dos seus atos na Terra. O local onde o sacerdote foi enterrado conforme determinação de Oxenibúomi (Ose n’ibú omi) transformou-se num pequeno bosque sagrado e pouco tempo depois, neste mesmo local, surgiu uma ave de penas negras, mescladas com pintas brancas, possuindo a parte superior da cabeça azulada e sem penas, e no centro da mesma, um cone formado pela sua própria estrutura. Esta ave recebeu dos nagôs iorubas o nome de Étú (Etú’ – galinha d’angola). 

Esclarecimentos: O mito acima narrado elucida a obrigatoriedade da “etú” (galinha d’angola) em toda iniciação e consagração dos neófitos da Religião dos Orixás, uma vez que a aludida ave é absoluta, insubstituível é única na sagração dos omoerrin (omo-ehin – aprendiz, noviço) que são os oniiawô (oníyàwó – esposo, noivo, recém-casado) e as iiauô (ìyáwó – esposa, noiva, recém-casada) dos orixás e ancestres deificados. Tal obrigatoriedade e ratificado em um ditado ioruba que diz:

“Ko si etú, ko si múwolé”. (Co si étú, co si muuólê) 

“Se não houver galinha d’angola, não há iniciação”.

 

Bibliografia: PENNA, Antonio dos Santos, Mérìndilogun KawríOs Dezesseis Búzios. Páginas 31 e 32 –  Produção  Independente: RJ, 2001 – Ano 2001.

Orí – Partícula Divina do Criador

Ori – Morada Secreta do Ser Humano 

Divindade do Ser Humano 

“Orí” (cabeça) é o local de armazenamento de todos os requisitos do ser humano. Todo esse guardado, se danificado for, torna-se irrecuperável.  

Em face de ser a divindade privativa da vida individualizada que acompanha o ser humano da natividade até o perecimento, referenciando sua jornada e presenciando a observância de sua existência, o Tratado de Ifá ratifica que o “Orí” deve ser o primeiro a ser louvado. 

Afirma também que o ser humano, que desejar atrair coisas boas para a sua vida, deve agraciar seu Ori. É necessário que o mesmo concorde com pretexto do ser humano, senão nada poderá ser feito. Sendo assim, o que Ori (cabeça) não aprova, não pode ser outorgado por Olodumarê (Deus), sequer por nenhum eborá (ancestral deificado) ou orixá (espíritos de luz que não tiveram vida terrena). Tal afirmação é ratificada em um dos ditados da sabedoria ioruba que nos ensina: 

“Orí wà enití àye yàsápakan.” 

(Ori ua eniti aiê iiasapacan) 

“Ori é quem muda a direção da vida”. 

Segundo a Tradição Nagô Ioruba, o Ori (cabeça) do ser humano se divide em duas partes. Essas divisões são constituídas por cinco elementos:

Ori ode (Orí Òde): caixa óssea que encerra e protege o cérebro.

Ori inú (Orí inú): interior da caixa craniana; local onde fica o cérebro (mùdùnmúdùn). Tido como a morada do Criador, em face da história da criação do homem que diz que “através das narinas Olódùmarè insuflou seu hálito sagrado dando a vida ao ser humano”.

Ori okê (Orí òké): o alto/centro da cabeça.

Ori iuajú (Orí iwáju): a face, fronte ou presença – a visão.

Ori ipakó (Orí ìpakó): parte inferior e posterior do crânio.

Ori otúm (Orí òtun): o lado direito do cérebro.

Ori osí (Orí òsi): o lado esquerdo do cérebro. 

Ainda segundo a mesma tradição, o ser humano se divide em:

Ara: corpo físico – materialização do espírito no planeta Terra.

Òjìji: sombra – representação externa do espírito que perece quando da morte do ser humano. 

Acredita-se que a sombra de uma pessoa é a imagem do seu Elêdá Alaabô (Elédá Alãbò – Espécie de anjo guardião) nos seguindo aonde formos.

Ócam (Okàn): tida como a alma ou espírito do ser humano.

Émi (È): vida/respiração. 

Élédá – partícula do Ser Supremo.

O principal arquiteto do nosso destino, tanto no Sanmá (o infinito) como no aiiê (o planeta Terra) é o nosso ”Elédá” (partícula do Ser Supremo). É quem nos acompanha antes da vinda do infinito para o mundo. É também quem determina a data exata em que devemos retornar ao “Sànmá” (infinito) para prestarmos contas dos nossos atos.

Segundo a tradição nagô ioruba, quem segue a direção e as instruções de seu ”Elédá” nunca se perde. Todas as criaturas animadas por Deus têm seu anjo guardião individual – Malecá olútojú. Esses guardiões habitam o infinito (sànmá) e deste espaço os guardam e vigiam em todas as atividades na terra.

Orí Méjì[1]

Há de se esclarecer que ser considerado “Orí Méjì” (cabeça dupla ou repetida) não é possuir duas cabeças, e sim duas energias espirituais atuando ao mesmo tempo e em igualdade na cabeça (ori) de uma pessoa, e isso não indefere de gênero. Vejamos: Possuir dois ancestrais masculinos (exemplos: Ogum e Odé), dois femininos (exemplo: Oxum e Ieiemója), um masculino e um feminino (exemplo: Xangô e Oia). A condição de macho e fêmea não codifica a concepção de “pai e mãe de cabeça”, percepção esta aplicada pelo Omólocô e pela Umbanda.    

Algumas pessoas codificadas como cabeça dupla (orí méjì) podem perfeitamente ser consagradas para ambos, podendo desta forma harmonizar a igualdade das energias das duas ancestralidades, entretanto, não pode ser esquecido que cabeça (orí) é uma só, assim sendo, há de respeitar a condição “Olôrí Adoxú” (Olorí Adósù). 

 

[1]  Também chamada de “Orí éèjì”.