Obatalá – O Alcoolismo E Suas Consequências.

OBÀTÁLÁ 

                  O ALCOOLISMO E SUAS CONSEQUÊNCIAS 

           Há tempos passados, Obàtálá soberano dos igbominas e ifons, caiu em descrédito ante o seu povo e em desagravo perante o criador Olódùmarè. Segundo os nagôs, a desventura do soberano em questão foi motivada pelo fato do mesmo ter-se tornado um ébrio.

           Contam que a fama e o prestígio de Obàtálá eram invejáveis. Seu reino, um dos maiores e mais pródigos, era constantemente visitado por outros soberanos que lá iam aprender a administrar seus reinos, uma vez que no reino dele não havia miséria. O povo era imensamente feliz. Obàtálá, uma vez a cada quatro dias, concedia em seu palácio audiência ao seu povo. Os primeiros a serem ouvidos eram os menos privilegiados. Deles ouvia queixas, atendia pedidos, fornecia alimentos, sementes e tudo mais necessário para que pudessem sair daquele quadro crítico. Antes do pôr do sol, fazia julgamentos, caso fossem necessários, decretava a sentença referente aos erros cometidos e, quando se despedia do seu povo, era saudado: “Bàbá Térùn” (Pai Bondoso).

          Infelizmente, o amor dedicado ao povo, a concordância à igualdade e o sentimento de fraternidade pregado por Obàtálá não eram bem vistos por todos os habitantes do reino. Temerosos com o que pudesse vir a acontecer mediante a uniformidade pregada pelo seu soberano, alguns dos componentes do conselho de anciões, concomitante com vários dos súditos privilegiados financeiramente, elaboraram, fora da cidade, um plano para colocá-lo em descrédito diante do povo, destituí-lo e exilá-lo para bem longe do reino.

           Os opressores do senhor dos igbominas e ifons, sorrateiramente, passaram a colocar pequena quantidade de um pó medicinal (è) [1] no vinho de palma, que o soberano bebia no dia anterior ao seu pronunciamento junto ao povo. A partir deste dia, Obàtálá passou a ficar confuso, pois seus súditos faziam questão de contestá-lo em voz alta na frente de todos, dizendo: “Perdão Majestade, mas não foi isto que disseste na semana passada. Vossa majestade diz uma coisa hoje; amanhã diz outra. Assim não é possível. No final das contas, nós ficamos mal diante dos outros”.

         Contrariado e entristecido, Obàtálá dava por encerrada a audiência e se recolhia aos seus aposentos, enquanto seus súditos ficavam maldizendo-o e difamando-o. Logo que se recolhia, um dos seus conselheiros lhe oferecia pedaços do fruto do meloeiro juntamente com um cântaro contendo quantidade abusiva de vinho de palma.

           Toda esta trama foi o suficiente para transformar o soberano dos igbominas e dos ifons num alcoólatra compulsivo. A partir desse incidente, por todos os lugares em que Obàtálá passava ou comparecia, era ridicularizado e chamado de ébrio. Os súditos e os poucos ministros, que antes lhe prestavam reverências, não mais o faziam. Seus opressores, sempre às ocultas, continuavam tramando contra o bondoso soberano.

          Cansado de tanto humilhação e dependente cada vez mais do vício que o destruía, Obàtálá recorreu ao Oráculo Sagrado de Ifá na tentativa de sanar a terrível desgraça que tinha se abatido sobre a sua vida, consequentemente sobre os seus reinos. Após a evocação, um ìwèfà (sacerdote eunuco) interpretou para o soberano a mensagem cifrada do oráculo sagrado: “A partir de hoje deverás abster-te do vinho de palma. Beberás somente das bebidas que antes forem degustadas por teus súditos em tua presença. Deverás também fazer uma oferenda de duas pombas, dezesseis penas da cauda do papagaio da costa (ikódíde), um aso-igúnwà (manto real) feito de linho cru, dezesseis bolas de limo da costa e um colar de contas feitas do marfim. Não deverás também jamais sentar-te à mesa junto aos teus déspotas, evitando assim que eles te traiam novamente.

           Dando continuidade à leitura oracular, o ìwèfà informou a Obàtálá que deveria subir ao topo de uma colina que ficava à entrada da cidade de Ifón antes do nascer do sol. Ao chegar ao topo da colina, deveria vestir o traje real (aso-igúnwà), colocar sobre sua cabeça a coroa (àáré), prendendo no mesmo as dezesseis minúsculas bolas de limo da costa. Deveria fixar em cada uma delas uma pena da cauda do papagaio da costa, colocar o colar em seu pescoço e por fim, quando os raios solares apontassem no leste, soltar os dois pombos para diferentes caminhos: um em direção à cidade de Ìgbó e o outro em direção à cidade de Ifón.

           No dia seguinte, Obàtálá tratou de realizar o ritual determinado. Antes do alvorecer, vestiu o aso-igúnwà determinado, colocou o àáré (coroa) adornado com as penas do papagaio fixas nas bolas feitas com o limo da costa e posiciona-se de costas para o Leste, conforme as determinações oraculares.

           Tão logo os primeiros raios de sol surgiram no leste, várias aves entoando seus cantos com veemência começaram a voar em torno da colina. O som estridente das cantorias das aves despertou os habitantes de Ifón que ao verem as aves dispersarem de Obàtálá, ficaram atônitos diante do fenômeno da transformação que acontecia com ele. A estupefação foi geral, No momento em que os raios solares surgiram com intensidade por trás de Obàtálá, dada-lhe foi a impressão de estar flutuando sobre a colina. Nesse momento, as dezesseis penas (vermelhas) do papagaio da costa fixas no coroa (àáré) deram a impressão de ser labaredas que saiam da cabeça de Obàtálá, formando um imenso e magnífico resplendor.

           Diante de tal visão, os súditos, totalmente aterrorizados e arrependidos, prostraram-se ao chão exclamando: “Elésè Esè Epà Bàbá! Ãbò mi nlá” (Oh, Pai! Pecadores aos teus pés! Meu grande amparo!). 

           O episódio da transformação do grande venerando Obàtálá, soberano dos igbominas e ifons, correu por terras da África. Por todos os lugares falava-se do seu poder de metamorfose. Este poderio devolveu-lhe todo o prestígio e respeito que havia perdido perante os seus súditos, bem como a complacência de Olódùmarè.

 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Èjì Ogbè Àwon Àmúlù” – “Èjìonile e Suas Combinações” – Paginas 200, 201 e 202 – Produção Independente – Ano 2003 – ISBN – 85-902226-2-4.

 

 

 

 

 

 

 


[1]  Neste parâmetro, causava ausência após 24 h.

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Àló Iyìn Ògún – Alàdá Méjì – Mito da Aclamação de Ogum – Dono De Duas Espadas

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ÀLÓ IYÌN ÒGÚN – ALÀDÁ MÉJÌ

MITO DA ACLAMAÇÃO DE ÒGÚN – DONO DE DUAS ESPADAS.

Contam os nagôs igbominas que, certa ocasião, o ancestral Oròminá[1], sentindo-se por demais cansados antes de seguir para uma batalha, decidiu consultar o oráculo de Ifá. Quando da consulta, foi lhe aconselhado que imolasse um galo em honra à sua cabeça (Orí) e que o sangue do animal, ao ser derramado, deveria escorrer sobre a lâmina do seu alfanje.   Aconselharam-lhe também que após a imolação se alimentasse do repasto sentado à frente da cabeça (orí), dos flancos das asas (apá) e das patas (sigù) do animal imolado. 

 Disseram-lhe também que, após o repasto, colocasse sobre sua própria cabeça as partes do animal sacrificado, envolvendo-a em seguida com um turbante (láwàní) de linho branco.  Dando continuidade aos ensinamentos, disseram-lhe que deveria se encaminhar até uma árvore de grande porte, levando consigo um inhame (iyán) assado e o alfanje consagrado. Determinaram-lhe também que, ao chegar ao local, deveria colocar aos pés da mesma o turbante que envolvera sua cabeça juntamente com as partes do animal imolado.  Em seguida, de pé em frente à imponente árvore deveria alimentar-se do inhame que havia levado. Após a realização do ritual, o oráculo revelou para Oròminá que o alfanje seria a chave de sua prosperidade, devendo carregá-lo para onde quer que fosse. 

Quando do retorno a sua moradia, Ògún sentindo-se sedento, decidiu apear e beber da água do rio que antecedia seu reino. Após saciar a sede, Oròminá percebeu que havia duas pessoas lutando por causa de um peixe que haviam pescado. Esse, ao presenciar aquela cena, aos dois homens se dirigiu, aconselhando-os a não dar continuidade àquela contenda. Disse-lhes que deveriam ir para casa e compartilharem o peixe. 

Eles recusaram. O primeiro homem dizia que tinha vindo do leste e o segundo, vindo do oeste.  Depois de ouvir as explicações de ambos, Oròminá, fazendo uso do seu alfanje partiu o peixe em duas partes. Em seguida, deu-as para assar e delas ali mesmo se alimentarem.  Os dois homens aceitaram. Após se alimentarem, ambos pediram a Oròminá que fizesse uso do seu alfanje para abrir um caminho que os levasse de volta para suas casas, prometendo ao mesmo, caso isso fizesse, enriquecerem sua vida. Assim Oròminá fez. 

Quando do término da abertura do caminho, para sua surpresa, Ògún defrontou-se com uma só localidade.  Era o reino de dois irmãos que haviam se desentendido em face de traição de falsos amigos e conselheiros.  O monarca e os leais súditos, ao reverem os dois irmãos, correram para dar-lhes as boas vindas. Após ouvirem dos mesmos toda o ocorrido, começaram a aclamar Oròminá proferindo “Ògún Oròminá, alàdá[2] méjì” (Ògún Oròminá, dono de duas espadas). 

Esclarecimentos: A narrativa acima elucida com esmero a origem dos epítetos “Ògún alàdá méjì” (Ògún dono de duas espadas) e “Ògún eja pínnimejí” (Ògún dividiu o peixe em duas partes) dados ao ancestral Ògún, consequentemente ao Odù Ògúndá Méjì. 

 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Mérìndilogun Kawrí” – “Os Dezesseis Búzios” – Paginas 175 e 176 – Produção Independente – Ano 2009 (Edição Revista e Ampliada) – ISBN 978-85-902226-4-4.

 

 


[1]   Nome pelo qual o ancestral Ògún é evocado em seu altar individual.

[2]   Forma abreviada de “alá” (prefixo de um verbo equivalente a “oní” [aquele que possui], acrescido da palavra “àdá” (espécie de espada curta com duas lâminas).     

O Nascimento de Òrònmìyán

Segundo os nagôs igbômina, durante um longo período, Ògún Oròminá, senhor de Iré, travou grandes batalhas com o propósito de expandir o domínio de Òdùdúwà. No tempo da batalha ao reino de Ogotún, Oròminá, além dos vários cativos, fez também prisioneiras sete lindas mulheres guerreiras, todas de linhagem real. Entre elas, estava Lakangé, que se destacava entre as demais em face de beleza que possuía. 

Oròminá, desde o momento em que a viu, por ela se apaixonou. Quando retornou à Ilé Ifè, não a entregou junto com os demais prisioneiros, sequer comentou com seu pai sobre o aprisionamento dela. Infelizmente, por ser uma pessoa impetuosa, Ògún adquiriu falsos amigos no reino de seu pai. Esses desleais, no dia seguinte da chegada de Oròminá, encarregaram-se de revelar a Òdùdúwà o esconderijo e o encoberto plano do seu filho para manter Lakangé em sua alcova, bem longe dos olhos do rei.

Ao tomar ciência do ocorrido, Òdùdúwà, encolerizado, mandou chamar Oròminá à presença dele e que o mesmo trouxesse consigo a guerreira que havia feito prisioneira em Ogotún. Tão logo avistou seu filho, Òdùdúwà falou-lhe esbravejando: “Disseram-me que tu escondeste de mim a mais bela de todas as prisioneiras? Fizeste dela tua amante?”. Ògún, com o coração despedaçado e morte na alma, mente para seu pai ao respondê-lo: “Não! Nunca pensei nisto! Eu apenas estava mantendo-a em segredo para presenteá-lo em seu aniversário”.  Fingindo ter acreditado em seu filho, Òdùdúwà dirigiu-se ao mesmo outra vez dizendo-lhe: “Sou-te muito grato. Irei tomá-la por esposa ainda hoje. Manda fazer os preparativos para o casamento[1]”. 

Nove meses após o casamento, Lakangé dá à luz um menino, que por obra do destino nasceu com a metade do corpo tomado por uma mancha negra (discromia).  Este incidente gerou comentários maliciosos, uma vez que Òdùdúwà e Lakangé possuíam a tez branca e Ògún Oròminá, seu filho, tez negra, tal qual Omonide Tabutu sua mãe. Quando trouxeram o recém-nascido à presença de Òdùdúwà, para que o mesmo conhecesse seu filho e o batizasse (Ìkómojáde), espantou-se ao ver a criança tomada por aquela mancha negra. Após olhar para seu filho Ògún Oròminá com ar de interrogação, exclama: “Òròn mi ìyán” (Cumpriu-se minha palavra). 

Òrònmìyán, ao adquirir a maturidade, tornou-se o braço direito de seu pai em Ilé Ifè. Assim sendo, Òdùdúwà ordena ao mesmo que invista e conquiste terras ao norte de Ifè. Entretanto, o descerrar da peleja não saiu a contento. Sentindo-se envergonhado e sem coragem de encarar seu pai, Òrònmìyán não retornou para Ilé Ifè. Sem ter para onde ir, fundou uma nova cidade, dando-lhe o nome de Òyó, tornando-se dessa forma o primeiro Oba Aláàfin do reino.

Tempos mais tarde, Òrònmìyán desposou a bela e sensual Morémi Ajàsorò, mulher nativa da cidade de Òfà, da qual teve um filho, que recebeu o nome de Dadá Ajàká. Não demorou muito tempo para que Òrònmìyán investisse em novas conquistas. Assim sendo, volta a guerrear contra o reino dos Tápà, onde anteriormente havia sido derrotado. Nessa nova investida, consegue uma grande vitória sobre Elémpé, rei dos Tápà. Face à derrota, o rei Elémpé firma com o mesmo uma aliança política ao permitir que o mesmo despojasse sua filha, a princesa Torosi. Desse enlace matrimonial, nasceram Àyirá e Sàngó. 

Após essa época, Òrònmìyán tornou-se vencedor de muitas batalhas, transformando dessa forma Òyó num poderoso reino. Prestigiado e redimido de sua vergonha, retorna para Ilé Ifè, deixando em seu lugar como príncipe coroado (omo aláde) seu filho Dadá Ajàká, que se torna o segundo Aláàfin de Òyó

Òrònmìyán, ao chegar a Ilé Ifè e se deparar com Obàlùfón Aláàiyémore, filho carnal de Obàlùfón Ògbógbódirin, na condição de Óòní Ifè, encolerizou-se. Raivoso com o povo de Ifè por ter elegido o filho do seu irmão mais velho, começa a cometer várias crueldades contra o povo de Ifè, parando apenas após ser interpelado por uma anciã que exclamou: Òrònmìyán, por que está exterminando teus filhos?” Nesse momento, Òrònmìyán recobra a razão e, consciente de que havia procedido de forma assassina, decide ir embora de Ifè.

Quando do seu retorno para Òyó, ao passar próximo aos arredores da cidade de Mòpá, foi interrompido pelos habitantes da localidade que o saudavam suplicando por seu retorno. Ao fazê-lo, diziam: “Òrònmìyán, Òòní Ifè wà” (Òrònmìyán, dono de Ifè). Òrònmìyán não titubeou. O procedimento daquele povo o tornou mais orgulhoso do que era. Assim sendo, após fincar seu cetro real (opa-aláde) no chão, selou com aquele povo um acordo e, junto com os mesmos, retorna triunfante ao palácio de Ifè na condição de Óòní Ifè.

Ao tomar ciência do fato, Obàlùfón Aláàiyémore, seu sobrinho, renuncia ao trono e se exila na cidade de Ìlárá, lá ficando até o falecimento do seu tio. Com a morte de Òrònmìyán, Obàlùfón Aláàiyémore retorna do exílio e reassume o trono na condição do quinto Òòní Ifè, reinando em paz até a sua morte.

 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Èjì Ogbè  Àwon Àmúlù” – “Èjìonile e Suas Combinações” – Paginas 113 e 114 – Produção Independente – Ano 2003 – ISBN – 85-902226-2-4. 


[1]   Por capricho ou ironia do destino, Lakangé casou-se com Òdùdùwà sem saber de que havia engravidado no primeiro contato sexual que teve com Ògún Òròminá.

Narrativa da Interdição à Carne dos Suínos

Contam os nagôs igbominas que Àyirá, rei do Grupo dos Tápà, certa ocasião, quando voltava de uma contenda, viu-se defronte de uma calamidade. O oásis, ao qual se dirigiu juntamente com seus soldados, estava totalmente seco. Já tinham se passado vários dias do término da última provisão de água. Àyirá, desesperado, não sabia mais o que fazer face o pânico que começou a tomar conta dos seus guerreiros, uma vez que o próximo manancial ficava em posição contraria à direção do reino. 

O soberano não sabia explicar o que havia acontecido. Durante anos aquela trilha era considerada sagrada face o remanso ali existente. Temeroso com o que poderia acontecer, Àyirá resolveu deixar ali, no oásis ressequido, alguns dos animais que havia caçado e seguir viagem de volta para o seu reino, antes que fosse tarde demais. 

Os primeiros animais a serem desamarrados foram os suínos apreendidos durante a expedição. Tão logo os demais animais foram soltos, Àyirá observou que os porcos libertos começaram a fossar o fundo ressequido do oásis. A insistência dos suínos em cavarem naquele local aguçou a curiosidade do soberano, que ficou parado olhando para os porcos. 

Após alguns instantes, tal como um milagre, o local fossado pelos porcos começou a jorrar água. Àyirá, ao ver aquele acontecimento, aguardou os suínos beberem da água e ver se nada de mau lhes acontecia. Como nada de maléfico aconteceu, Àyirá juntamente com seus soldados puderam saciar a sede com a água que não parava de jorrar. 

Após terem se fartado e abastecido seus bornais de couro com água para continuarem a viagem, Àyirá pronunciou-se: “Há poucas horas estávamos propensos a morrermos por falta de água. Estes suínos libertos mataram nossa sede. A partir de hoje, animais desta espécie não serão abatidos em meu reino, tampouco da sua carne nos alimentaremos. Nenhum dos meus descendentes ou súditos se atreverá a desobedecer minhas ordens”. 

Bibliográfica: PENNA, Antonio dos Santos – “Èjì Ogbè  Àwon Àmúlù” – “Èjìonile e Suas Combinações” – Paginas 197 e 198 – Produção Independente – Ano 2003 – ISBN – 85-902226-2-4.

Seré – Xeré – Apetrechos de Aganjú, Àyira e Sàngó.

RÉ 

O Xeré [1] é um instrumento musical feito de cobre com a extremidade de forma esférica contendo sementes vegetais. É uma espécie de chocalho, tocado com exclusividade [2] na Religião Tradicional Afro-brasileira para os ancestrais Aganju, Ayirá, Xangô e seus generais (kakanfó [3]). Outrora, o aludido instrumento era uma “apala” [4], cabaça essa ainda usada nos templos tradicionais da Cultura Religiosa Africana.   

A importância e o caráter sagrado do xeré são notados quando o mesmo é trazido do sacrário de Ayirá, do altar de Aganju ou do oratório de Xangô [5] para o salão de culto ou para um determinado espaço público destinado às festas públicas. O xeré deve ser trazido envolto num “Aso-ìnura” (axó inurá) [6] e sobre uma almofada ornada simbolicamente sempre com a maior reverência. Antes de ser usado, o xeré é tocado no solo por três vezes consecutivas pelo Bãlè Àyirá (Balé Ayirá) [7] ou Mògbà Sàngó (Mobá Xangô) [8]. 

Em alguns templos da Tradição Iorubá, em solo brasileiro, essa concessão também é cedida ao Òtun Oba[9], ao Òsi Oba[10] e à Ìyá Sàngó [11], que o seguram sempre com a mão direita, não podendo ultrapassar a cabeça com o mesmo, sequer tocá-lo sobre a cabeça de qualquer pessoa.

Na ausência dos componentes da Egbé Àyirá [12] ou Egbé Sàngó [13], esta função fica ao encargo do Aborè-nlá Àse [14] ou Bàbáaláàse [15]. Pode ser tocado ocasionalmente por outros descendentes do Axé que já tenham tomado posto à circunspeção do Sumo Sacerdote ou Sacerdotisa do Axé. 

Entre os apetrechos ou símbolos destinados aos ancestrais Ayirá e Xangô, existem o “oxê” [16] e o “ajerê” [17] que dizem representar, de forma simplificada, um ser mitológico carregando uma tocha acessa sobre a cabeça, remetendo-nos, de certa forma, às histórias que narram a trajetória desse ancestral e suas experiências com o fogo.  Existe também a “labá” [18], que, segundo os mitos do ancestral Xangô, era o local onde o mesmo guardava seus “èdùn-àrá” [19].

ESCLARECIMENTOS 

Segundo os nagôs igbomina, os ancestrais Àyirá, Aganjú e Sàngó são os únicos neste tópico que trazem nas mãos o “irùkèrè” [20]. 

 O “oxê” de Àyirá possui somente um gume, tendo no cabo do mesmo uma serpente enrolada ou a cabeça de um carneiro. Essa representação nos leva a sua origem e permanência em Nupê, sua terra natal. É comum vermos o ancestral Ayirá, quando da sua possessão, dançar o “alujá”, ostentanto o “Oxê” em sua mão direita, ao oposto de seu irmão Xangô e de Aganju, seu sobrinho neto, que, quando da sua possessão, dança o “aluja” ostentanto o “Oxê” em sua mão esquerda. Há de se esclarecer que, durante a dança, o “irùkèrè“ de Aganjú, de Àyirá e de Xangô fica aos cuidados dos seus sacerdotes. 

Da mesma forma, é comum vermos o ancestral Sàngó, ao dançar o “alujá”, fazer uso de sua mão esquerda imitando o lançar do “èdùn-àrá”, após retirá-lo da “Làbà”, que traz atravessada ao tórax e colocada ao seu lado direito. 

Segundo outras vertentes religiosas, o ancestral Aganjú puxa o “alujá” ajoelhado. 

Os kakanfò (generais) de Sàngó [21], cultuados no Brasil, carregam em cada uma das mãos um “Osé” de dois gumes e puxam o “alujá” com os dois braços. 

Somente os ancestrais Aganjú, Àyirá e Sàngó possuem o hábito de dançarem o “alujá” ajoelhados.



[1]   Segundo a Tradição Nagô, o som do Xeré imita o ruído da chuva. (Essa referência é pertinente ao ancestral Ayirá.).

[2]   Em terras da África, a apala é tocada para quase todos os ancestrais e orixás.  .

[3]   Generais.

[4]   Cabaça de pescoço alongado.

[5]   Incluam-se os Kakanfo.

[6]   Toalha.

[7]  Governador ou Chefe Geral da Confraria do ancestral Àyirá.

[8]  Sacerdote do Culto a Xangô.

[9]  1º Ministro.  Aquele que fica ao lado direito do Rei.

[10]  2º Ministro.  Aquele que fica ao lado esquerdo do Rei.

[11]  Na Tradição Nagô Igbomina, a Ìyá Xangô é a única pessoa do sexo feminino autorizada a fazer uso do Xeré.

[12]  Confraria de Àyirá.

[13]  Confraria de Xangô.  .

[14]  Sumo sacerdote de uma determinada confraria.

[15]  Pai que detém poder na confraria.

[16]  Machado de um só gume que é pertinente ao ancestral Àyirá. De dois gumes pertinente ao ancestral Xangô.

[17]  Cuscuzeira. Vasilhame feito de barro, cheio de furos, dentro do qual se coloca carvão em brasa.

[18]  Espécie de bolsa ou sacola de couro pertinente ao ancestral Xangô. Possui forma retangular e ornamentada com desenhos simbólicos.

[19]  Machados neolíticos, isto é, pedras do raio que Xangô lança sobre a terra durante as tempestades.

[20]  Ornamento feito com a crina de cavalo, usado pelos reis em sinal de ostentação e poder.

[21]  Àfònjá, Gbarú e Ogodó.

 

 

 

 

Animais Sagrados – Ser Sagrado, Não significa imolar.

ANIMAL CONSAGRADO À ÀYABA NÀNÁ.

Rã listrada – Nome científico:  Leptodactylus gracilis –

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

É uma espécie de anfíbio da família Leptodactylidae.

Pode ser encontrada nos seguintes países: Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai.

“Os seus habitats naturais são:matagal húmido tropical ou subtropical , campos de gramíneas de clima temperado, campos de gramíneas subtropicais ou tropicais secos de baixa altitude, campos de gramíneas de baixa altitude subtropicais ou tropicais sazonalmente húmidos ou inundados, marismas intermitentes de água doce,  pastagens, jardins rurais e áreas urbanas.”

Fonte: As informações abaixo apresentadas seguem basicamente a compilação apresentada em Borges-Martins et al. (2007).

“Rã de médio porte de 3,9 a 5cm. Possui diversas listras claras e escuras dispostas longitudinalmente e geralmente uma listra mais espessa no meio do dorso que vai do focinho, bastante pontudo, até a cloaca, as patas traseiras são relativamente mais curtas. Ocorre no Uruguai, Argentina e sul do Brasil (Langone, 1994). Espécie com hábito fossorial. Os machos vocalizam dentro de pequenas tocas no solo onde constroem um ninho de espuma. Alimenta-se de insetos e crustáceos terrestres (Langone, 1994). A vocalização lembra o estourar repetido de bolhas de ar”.

Rã Africana – “Rana catesbiana”.

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ANIMAL CONSAGRADO  AO ANCESTRAL ÈSÙMÀRÈ

Lagarto papavento – Polychrus marmoratus.

Foto: Fabricio Silva Pereira

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ANIMAL CONSAGRADO  AO ANCESTRAL  ODE

Falcão-tagarote  – Zool. É o nome popular de uma ave de rapina, uma sub-espécie do falcão-peregrino (VIDE), ori- ginária do norte da África e também conhecida como falcão-barbéria. É de pequeno porte sendo considerado o menor representante desta espécie.

Nome científico do falcão-tagarote é: Falco Peregrinus
Pergrinoides.

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AVE CONSAGRADA A ÀYABA YÈYÉMOJA

Garça-branca (Casmerodius albus).

Autor(a) Aldo Gusmão

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ANIMAL CONSAGRADO  A ANCESTRAL  OYA

Bufálo

CARNEIRO

ANIMAL CONSAGRADO  AOS ANCESTRAIS ÀYIRÁ, AGANJÚ E SÀNGÓ

Foto: Meupapeldeparedegratis.net

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CAGADO

ANIMAL CONSAGRADO  AOS ANCESTRAIS ÀYIRÁ, AGANJÚ E SÀNGÓ

PYTON ALBINA –

ANIMAL CONSAGRADO  AO ANCESTRAL ÈSÙMÀRÈ

CORUJA 

AVE CONSAGRADA AS ÌYÁ MI ELÉEIYE.

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POMBA ROLA JURITI

AVE CONSAGRADA A ANCESTRAL ÒSUN

Nome científico: Leptotila verreauxi

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Mariposa – Inseto consagrada a ancestral Oya. “Labalábá”

Falena (Heterocera) – Borboleta noturna

Caramujo comestível – “Ìgbín”

Molusco consagrado ao ancestral Obàtálá.

Ìrókò – A Gameleira Sagrada.

                                                                   

Ìrókò ni nso!  – Ìbà o! “Árvore que produz” 

Também chamado de Olúwere 

Irocô – árvore sagrada cujo espírito que habita em seu interior possui o mesmo nome. Em face desta característica Irocô, é tido como um Anjônú (Ànjò) – Espírito que habita as árvores”. Segundo os igbominas, esta característica, também dada a Osaniin (Òsányin) e Apaocá (Apáòká).

A árvore Ìrókò é considerada a morada preferida das Ìyá mi eléeiye.

Òrunmìlà – O Salvador

Òrunmìlà – O Salvador

Somente o Céu Conhece a Salvação.

Òrunmìlà Okìtìbíri ti npa ojó ikú dà” 

Orunmilá – Aquele que pode alterar a data da morte. 

“Olùgbàlà ni mbe o!” – O Salvador existe!

Divindade existente desde os primórdios da humanidade. Encarregada de indicar os caminhos e as soluções. Recebeu de Olódùmarè o poder de conhecer o passado, o presente e o futuro. É chamado carinhosamente de “Eléri Ìpín” – “A Testemunha do Destino”. 

Apesar de haver várias histórias e parábolas relatando a sua passagem pelo planeta Terra,Òrunmìlà não possuiu vida terrena.

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ÒRUNMÌLÀ

3ª Pessoa da Trindade Divina da Religião dos Orixás

Segundo a tradição oral do igbominas em solo africano, a iniciação no culto a Orunmilá (Òrunmìlà) é a admissão de uma determinada pessoa em uma sociedade um tanto quanto restrita, isto porque, apesar de todos os iniciados na mesma serem submetidos a rituais semelhantes (Isefá, Itefá, Igbó Odù, etc.), não significa que os neófitos em questão poderão ser ordenados sacerdotes de Ifá (adifá alufá), muito menos se auto-intitularem babalaô (bàbálawo).

Segundo essa mesma tradição, existem dentro do Corpo Literário de Ifá diversas exigências e interdições que devem ser rigorosamente respeitadas e seguidas. Vejamos:

Adifá Alufá: Sacerdote de Ifá.

Para se tornar um autêntico sacerdote de Ifá, é necessário que o discípulo seja encaminhado ainda em criança (oito a dez anos no máximo) ao seu mentor, devendo conviver com o mesmo durante um período aproximado de treze anos. Ao alcançar a maioridade, deverá ficar noivo, entretanto, continuará seus estudos até ser considerado apto para exercer cargo de suma importância.

Antes da iniciação, consagração e aposição do cargo, o neófito deverá casar-se. Partindo desta premissa, deverá possuir filhos (gerar descendência), pois na condição de sacerdote de Orunmilá deverá viver em família, isto é, conviver com sua legítima esposa e filhos, possuir uma vida ilibada, não possuindo filhos fora do casamento.

Se tal fato não se concretizar, nenhuma pessoa em solo africano nele acreditará, isto porque nenhum ioruba negro sério jamais se consultará ou se aconselhará com uma pessoa que não possuísse a condição de propagar a essência familiar e dar geração de filhos.

Para os iorubas tradicionais, ter esposas e filhos é tão importante quanto ter dinheiro, por este motivo um legítimo sacerdote de Ifá deve gozar de respeito. Para que isto aconteça, deve possuir uma ou mais esposas legítimas e, consequentemente, filhos.

Babalaô (Bàbálawo[1]). Segundo os nagôs iorubas igbominas, a terminologia em questão é exclusiva e concernente ao filho carnal de Ieiemaaterô[2] (Yèyémãtèrò), ancestral conhecido entre os mesmos pelo nome de Orungan (Òrungá) – “O sol do meio dia”. Tal afirmação é ratificada em “‘Ogbè’dí” (21ª Junção na Ordem Fixa dos Àmúlù do Oráculo Sagrado de Ifá[3]), conforme narrativa abaixo:

NARRATIVA DA APOSIÇÃO DO CARGO DO PRIMEIRO SACERDOTE DE ÒRUNMÌLÀ 

Segundo os nagôs igbominas, numa tarde primaveril, retornando de uma longa viagem de peregrinação, Orunmilá chegou a um lugarejo frente ao mar. Sentindo-se cansado, faminto e sujo, o santo homem resolveu pernoitar naquela pequena aldeia. Portanto, dirigiu-se à única estalagem que havia na vilela. Tão logo ao chegar, foi recebido pela proprietária que se chamava Ieiemaaterô.

Assim que se instalou, Orunmilá tratou de se banhar, trocar de roupa, de se alimentar e descansar, pois tinha que seguir viagem no dia seguinte, após o sol alcançar o seu ápice. Sentindo-se por demais cansado, Orunmilá pediu à Ieiemaaterô para não deixar ninguém em hipótese alguma acordá-lo antes do meio-dia.

Em torno das 5h, Ieiemaaterô ouviu alguém bater na porta de sua estalagem. Ao abrir a porta e deparar-se com seu filho, perguntou-lhe: “O que fazes acordado a esta hora da madrugada?” O jovem adolescente respondeu-lhe: “Vim acordar o ancião que está hospedado em tua estalagem”. “De maneira alguma. Tenho ordens expressas de não importuná-lo antes do ápice do sol”, respondeu-lhe Ieiemaaterô.  O jovem retrucou dizendo-lhe: “Por favor, minha mãe, deixa-me acordá-lo. Foi-me revelado por um homem de turbante, de bombachas estranhas aos tornozelos como nunca havia visto antes, com dois facões e por uma bela mulher seminua de rosto coberto com franjas de ouro e pulseiras de bronze que, se eu quiser ser feliz, devo acordar esse ancião antes do galo cantar”.  Ieiemaaterô respondeu-lhe: “Se é isto que tu queres, meu filho, desperta-o; tua vida te pertence, não te digo mais nada”.

O jovem adentrou vagarosamente o aposento onde Orunmilá repousava e lentamente ajoelhou-se ao seu lado, começando a repetir, em forma de lamento, a prece que o homem e a mulher haviam lhe ensinado durante o seu sono. 

“Ifá desperta, oh! Orunmilá.

Orunmilá, eu estou te chamando!

Orunmilá abre teus olhos sobre mim; olha-me carinhosamente!

Orunmilá permite que a sorte reservada para mim se realize!

Orunmilá, não durma!

Tão logo o jovem terminou a oração, Orunmilá despertou. Neste exato momento, o adolescente repetiu a saudação que o guerreiro viril e a rainha de beleza inigualável lhe haviam ensinado.

Orunmilá, tu és o salvador. Eu te saúdo!

Preste atenção ao nosso pai Orunmilá

Porque quem não aceitar os desígnios de Olodumarê

Ele diz: Será o que Olodumarê preferir

O invencível não existe quando cremos em Olodumarê!”

Orunmilá, após despertar tranquilamente, perguntou: “Quem é este jovem? Jamais vi em toda minha passagem pela terra um adolescente com tanta humildade”. Ieiemaaterô respondeu-lhe: “Este é Orungan, o meu primogênito, aquele a quem o oráculo disse que algo estava reservado”. Orunmilá, erguendo-se do leito, colocou suas mãos sobre a cabeça do jovem e se pronunciou: “Tu, que nasceste na junção de Ogbè com Òdí, a partir de hoje, serás chamado de Ogbè’dí Òrungá, o sol do meio-dia. Serás investido na condição do mais alto posto sacerdotal dentro da minha confraria”.

A partir deste dia, Orungan[4], por sua humildade e sabedoria, tornou-se o primeiro sacerdote a despertar Orunmilá todas as manhãs antes do raiar do sol”.

Em tempo: Cores votivas do colar (ìle) de Orungan (Òrungá): amarela e verde.

Bibliografia: PENNA, Antonio dos Santos, Èjì Ogbè Àwon Àmúlù – Èjìonile e Suas Combinações. Produção Independente: RJ,  2003 – ISBN 85-902226-2-4

[1]  Bàbá (a) l (á) awo – Bàbáaláawo – Bàbá = pai + Alá = aquele que possui + awo = mistério – “Pai, aquele que possui ou é dono do mistério”.

[2]  Epíteto de Ieiemoja (Yèyémoja) – “Mãezinha querida que concebe e venera seus filhos”.

[3] Também chamada de “Ìdí’gbè”, “Òdí Lobe”, “Erdibre”, “Ordibre” ou “Dibre”.

[4]  “O sol do meio-dia” – “O Senhor do arco-íris que corta o céu sobre o mar”.