Nossa História

Leoes do axéOS ÌGBÓMÌNÀ

 

Nosso ancestral foi Fádùgbá Otuoko Pinheiro

Assim Tudo Começou…

A vinda para o Brasil

Nosso ancestral foi Fádùgbá Otuoko Pinheiro, nascido no final do século XVIII na cidade de Imesi-Ilé, um distrito do Município de Obokun no Estado de Òsun na Nigéria; ele era oprimeiro filho do Príncipe Agberemi Fádùgbá Otuoko que era oriundo da cidade de Oyo-Ilé, também conhecida como Katunga ou Antiga Òyó no antigo Reino Yorùbá de Òyó. Após um desentendimento entre ele e seu irmão Alááfin Adeyemi I Alowolodu sobre a sucessão do reinado de Òyó, ele se abrigou no quarteirão de Oke Irena na cidade de Imesi-Ilé. É importante dizer que antes de morrer o Aláàfin de Òyó Oba Atiba Atobatele convocou uma conferência yorùbá para discutir a sucessão do trono, onde foi determinado que um Aremo (Primogênito – Príncipe da Coroa) caso tivesse todas as condições inerentes para ser um Aláàfin e, confirmado pelo Òyómesi (Conselho de Chefes ou Supremo Conselho do Estado), deveria ser coroado.

Quando o Aláàfin Atiba Atobatele morreu; Kurumi o Áàre Òná Kakanfò (Generalíssimo do Exército de Òyó) no século XV, renegou o acordo de sucessão, mas outros yorùbás discordaram dele e houve a guerra de Ijaiye, que custou a vida do General Kurumi e seus cinco filhos. Assim a sucessão do trono se reveza entre as duas grandes casas originais do Reino de Òyó que são Ladigbolu e Adeyemi.

Fádùgbá Otuoko era uma pessoa inteligente e forte, mas foi capturado por negociantes de escravos no caminho para a fazenda da família no quarteirão de Imojugbon quando tinha nove anos de idade e, foi trazido para o Brasil.

Ele foi comprado pelo rico senhor de engenho de açúcar de Santo Amaro que era Joaquim José Pinheiro de Vasconcelos na época Barão de Monserrate, elevado a Visconde com o Decreto de 21 de Junho de 1878 e, que era casado com D. Maria Francisca de Campos Pinheiro, foi também Presidente da então Província da Bahia por três vezes e também foi Presidente da Província de Pernambuco. Fádúgbá Otuoko trabalhou na Bahia onde se casou com uma mulher originária de sua cidade, cujo nome era Efundunke, tiveram vários filhos; na Nigéria pouco se sabe sobre ela, mas existe a lembrança de Maria Efundunke Pinheiro associada a ela. Na época na Bahia era comum a utilização de nomes na língua yorùbá no ambiente familiar, porém normalmente os registros eram proibidos.

No Brasil a família teve seu início na cidade de Santo Amaro na Bahia, também conhecida como Santo Amaro da Purificação e que ganhou status de cidade em 1887; apesar de ser fundada em 1557 e elevada a Vila de Santo Amaro em1727, na gestão de Vasco Fernandes César de Menezes, Conde de Sabugosa, que tomou posse em novembro de 1720, posteriormente a Vila foi nomeada Município e foi parte também do Engenho Real de Sergipe d’ El Rey construído por Men de Sá em 1563, tinha muitos engenhos de açúcar, chegando a ser o principal produtor.

Feliciano e Maria Pinheiro tiveram vários filhos; José, Vicente, Pedro, Rozendo, Leonídia, Ortelina e Sofia são alguns deles. Alguns viveram no bairro de Sinimbú outros migraram para outras regiões.

Sobre Feliciano Pinheiro além da sua vinda de Sergipe para Bahia, temos informação de que sua mãe era de origem Èkìtì, também de uma região chamada Itapaji. Na Bahia existem alguns oríkì (cognome) Omo Okìtì (da região Èkìtì não denominada), Omo Okìtì Efòn (de Efòn Aláàyé), Omo Oló-Oko (filho do fazendeiro), Omo Alale Oko/Omo lº Olúko/Olórò (filho de um proprietário de terra, uma pessoa importante) que de acordo com o Drº Raphael Afolabi Akinfaderin (Yorùbá Institute of Cultura), são do Estado de Ondó que foi dividido dando origem ao atual Estado de Èkìtì.

Ainda com relação à presença yorúbà Èkìtì no estado da Bahia, podemos citar a expressão “Orayèyé”. Na realidade esta expressão vem de “Oro Iyèyé” também escrita “Oro Yèyé”, é uma assinatura Èkìtì, pois se trata de um festival da cidade de Ayede-Èkìtì e, limitado às cidades de Ayede-Èkìtì, Iye-Èkìtì e Itapaji-Èkìtì cidades conectadas ao antigo Reino de Ayede. Orò (ou olórò [Festival]), Iyèyé (ou Yiá-nlá [Avó]), no dialeto Èkìtì destas regiões. Este festival está ligado à linhagem feminina de Imela, linhagem Real de Iye-Èkìtì.

Sobre Sergipe sabemos da grande importância cultural da cidade de Laranjeiras, cidade esta com forte presença afro descendente e que a mesma tinha no passado o Engenho Pinheiro hoje conhecido como povoado Pinheiro, um dos grandes fazendeiros de Laranjeiras foi Gonçalo Pinheiro da Costa. Dentre as tradições de Laranjeiras temos a história oral dos “Filhos de Obá” casa de religião tradicional yorùbá fundada desde os tempos da escravidão e cuja tradição oral é dita como fundada por yorùbás oriundos da cidade de Oba (Oba-Ilé) do antigo Reino de Oba dos yorùbás ìgbómìnàs, porém a antiga cidade de Oba existiu até o século X, sendo destruída devido às guerras da época, contudo devido à dispersão das pessoas desta cidade para outras áreas da Nigéria, surgiram várias cidades com o nome de Oba, todas fundadas por remanescente do antigo Reino de Oba como Oba-Ilé (em Òsun State), Oba-Òkè (em Òsun State), Oba-Ilé (em Àkúré/ Ondó State), Oba-Àkókó (em Òwò/Ondo State) e Oba Ìgbómìnà (em Kwara State).

Muitas tradições e histórias envolvem o antigo Reino de Oba, porém diante da destruição do Reino em tão longínquo século em relação à vinda de yorùbás para o Brasil e neste caso para a cidade de Laranjeiras em Sergipe, conclui-se que a tradição oral dos “Filhos de Obá” está ligada a diáspora dos Ìgbómìnàs. É interessante ressaltar que os Ìgbómìnàs são oriundos de três grupos distintos que migraram também em tempos diferentes para a formação de seu antigo Reino. Eles vieram das cidades de Ilé-Ife, Òyó, e Ketú na atual República do Benin.

Apesar da explanação a cerca dos Ìgbómìnàs e sua relação com Laranjeiras, não se deve generalizar os sergipanos afros descendentes que lá residem como sendo todos descendentes de ìgbómìnàs ou yorùbá, pois havia muitas migrações de africanos que viviam em Alagoas, Bahia e Pernambuco para Sergipe e gente de várias partes do continente africano então é salutar que se leve em consideração estas migrações que mencionamos.

O Retorno para Nigéria. 

Na época do retorno de ex-escravos ao continente africano, estimulado pelas autoridades a aqueles que pudessem pagar pela viagem; Fádugba e sua esposa voltaram à Nigéria para rever sua terra mãe, por razões do azar da viagem, eles deixaram os filhos na Bahia, pois se por acaso eles morressem no percurso devido à precariedade da embarcação, os filhos estariam a salvo. Mas com sorte Fádugba e Efundunke chegaram na Nigéria e se abrigaram no quarteirão brasileiro de Lagos onde outros que haviam retornado se abrigaram. 

O trecho a seguir foi transcrito do testamento de Joaquim de Almeida que retornou para Costa da África no qual ele confirma a precariedade e o temor da viagem de retorno. Em nome de Deus amém, “Eu, Joaquim de Almeida, nascido na Costa da África, liberto, e encontrando-me atualmente nesta cidade, em estado celibatário, e estando no ponto de partir para Costa da África, não tendo mais a garantia de continuar em vida durante esta viagem, decido fazer meu testamento, última e derradeira vontade, visto que tenho toda a minha razão e meu bom senso.” O Vaso partiu para Costa da África em Outubro de 1844, Fluxo e Refluxo pág.537”. A notícia de seu retorno chegou a Imesi-Ile no Estado de Òsun, mas como na época era de praxe os retornados ficarem em Lagos, assim fizeram ele e sua esposa, e não seguiram para sua cidade natal. Os retornados ficavam em Lagos por que na época a vida era melhor do que em outro lugar do país em termos de trabalho. Como aprenderam vários ofícios no Brasil, quando chegaram participaram ativamente de negócios e exerceram suas profissões; muitos deles foram bem sucedidos e ajudaram no crescimento da economia do país. Alguns vieram a fazer parte da alta sociedade da cidade e passaram a gozar privilégios. Isso ocorreu pelo fato deles, os retornados, também falarem outra língua, facilitando assim a comunicação com os estrangeiros na época; eram preferidos nos empregos e negócios de onde alguns acumularam riquezas. 

Fádugba foi bem sucedido nos negócios dele, principalmente como carpinteiro e pedreiro; ele ainda teve mais dois filhos na Nigéria com sua esposa Efundunke e outros filhos de um novo casamento que foi arranjado tão logo de seu retorno, aumentando assim o número de descendentes. È importante relatar que na cultura Yoruba,pratica-se casamentos monogâmicos e poligâmicos,mas esta última modalidade (poligamia) é muito comum. A família Otuoko-Pinheiro começou uma nova trajetória em Lagos e hoje é muito grande e bem conhecida nas áreas onde está estabelecida. Após vários anos trabalho Fádugba havia decidido não morrer em Lagos,porém faleceu na cidade de Abéòkúta no Estado de Ògún onde chegou doente,no seu trajeto a Imesi-Ilé que era seu sonho.

Fonte: Gilson de C.Vidal – Descendente da Família Pinheiro que migrou para o Rio de Janeiro na década de 50. Formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Gama Filho tenho atuação efetiva nas áreas de Construção de Habitação de Luxo,Popular,Comercial, Projetos e Consultoria no Rio de Janeiro.  Email: ghiwot3@gmail.com

ÌYÁLÒRÌSÀ MARCOLINA DE ÒSUN.

Òsunwonyin”

“Aquela que Òsun faz levar a vida doce como o mel”.

Marcolina de Oxum foi uma sacerdotisa africana (iyalorixá), que, provavelmente, viveu entre o século XIX e início do séc. XX (1).

Alcunha

Essa sacerdotisa de Oxum fora alcunhada e mais conhecida como Marcolina da Cidade de Palha pelo fato de residir numa localidade conhecida como “Cidade de Palha”[2] (atual Cidade Nova – Salvador/Bahia). No entanto isso não lhe foi exclusivo, pois muitas localidades comunitárias de culto aos orixás, axé, foram também alcunhadas com o nome de sua localidade.

Origem africana

A literatura oral dos descendentes dos igbominas, no Brasil, diz que a mesma fora iniciada e consagrada para Oxum, em Abeokutá(Nigéria), de onde era oriunda, como era de costume. Recebera o nome Òsunwoyin (Óxum-uóyin). A mesma chegara à Bahia (Brasil) ainda adolescente na condição de escrava (pertencia à Família Santos), trazendo consigo amarrada ao busto a pedra (okutá) de sua ancestral[3].

Trajetória Ao chegar à Bahia, foi para Itaparica (ou Ilhéus), onde começou a desenvolver seus conhecimentos étnicos acerca de Babá Egungun.

Após abolição da escravatura, foi viver com um adifá africano, ex-escravo, que era iniciado para Obatalá. Segundo o babalawo Adigun Olosun, autoridade religiosa de uma família real de Òsun (estado), o africano que tinha Marcolina como sua mulher, pertencia ao ramo igbomina da família Pinheiro. Esse africano, que a teve “como mulher”, foi um adifá igbomina. Os neófitos de Marcolina eram iniciados e apresentados ao culto de Ifá[4] por seu companheiro. Esse adifá ensinava os ditames de Ifá[5].

O seu templo, na Cidade de Palha, era consagrado em homenagem ao ébórá (yorubá) de seu “marido”, Obatalá, tendo em sua cumeeira o ibá (cabaça) contendo a pedra de Oxum[6]. Marcolina Santos era uma sacerdotisa nigeriana que seguia os conhecimentos religiosos da tradição de sua etnia e a do seu marido, não pertencendo ou fundando nenhum axé originado na Bahia. Em seu templo iniciou muitos neófitos, embora não haja dados acerca disso ou pessoas suficientes que a reconheçam como tal. É como se seu nome fosse apagado da história. Além de falar fluentemente o iorubá, conhecia muitas folhas. Foi à sacerdotisa do famoso Procópio d’Ogum.

Marcolina da Cidade de Palha tinha uma personalidade muito forte e não era bem vista, à época, por sacerdotisas de outras etnias. Essa mulher alta, forte, de canela fina e negra massuda, embora não se importasse com a opinião de terceiros, era conhecida como brigona. Era capaz de ir à casa da pessoa e chamá-la para briga. Não admitia, por exemplo, que fosse chamada de “figueira do inferno”[7]. Por não querer seguir determinações de axés fundados na Bahia (etnias distintas da dela), não aceitando subjugar-se, ela foi odiada. Marcolina de Oxum foi a primeira sacerdotisa a iniciar um homem como elegum (rodante – incorporação) para um eborá[8], e não para ogam. Esse homem foi Procópio Xavier de Souza. Por isso foi afastada e apagada. Todavia alguns respeitavam-na, como o povo do Jeje (Daomé), de Cachoeiras, de Boa Ventura, São Félix, etc. Era amiga das também sacerdotisas Dionísia Francisca, Pulchéria, Massi, Bada etc.

O adifá e babalorixá Procópio d’Ogum também não era aceito em alguns templos religiosos (axés), na Bahia. Era odiado e pejorativamente considerado homossexual, simplesmente porque, segundo esses axés hegemônicos, homem somente poderia ser ogan, e não elegun. No entanto, por ser bastante brigão, impunha respeito à força [9].

A africana Marcolina de Abeocutá, ex-propriedade da Família Santos, sacerdotisa igbomina de Oxum, mais conhecida como Marcolina da Cidade de Palha, faleceu afastada e esquecida de todos aproximadamente pelos idos de 1940. Provavelmente, foi enterrada no cemitério da antiga Cidade de Palha.

Citações: 

Na Bahia, Mãe Marcolina tinha uma banca em que vendia na feira fato (bucho) de boi e moqueca de fato de boi – era especialista no assunto, uma grande cozinheira. No entanto, se alguém desaprovasse seu “fato”, xingava e espraguejava a pessoa. Era uma iyalorixá bastante famosa[10], pois era muito procurada por seus conhecimentos religiosos. Esta última característica conferiu-lhe uma nota no jornal Diário de Notícias, de 9 de maio de 1905, em uma notícia policial tratando-a por Marcolina da Cidade de Palha (2º distrito de Santo Antônio).[11]. Nina Rodrigues também cita Marcolina, em Os Africanos no Brasil[12]: “A autoridade policial abriu inquérito a fim de descobrir a verdade sobre o fato propalado da loucura da moça, que deu motivo ao cerco, constando chamar-se ela Eudóxia, e já se achar, em continuação do tratamento, no candomblé de uma tal Marcolina, na cidade de Palha, 2° distrito de Santo Antônio“. Segundo Penna[13], Marcolina de Oxum é reconhecida como a grande matriarca do Axé Obá Igbô (sociedade religiosa em homenagem ao povo igbomina), sendo sua trisavó de santo.

Referências.

  1. 1.     LOPES. 2004, p. 544.
  2. 2.     Possuía vários casebres de palha para abrigar leprosos.
  3. 3.     PENNA. 2008, p. 18.
  4. 4.     Prática que se tornou prosaica nos templos de seus descendentes religiosos.
  5. 5.     Segunda a tradição igbomina no Brasil, todas as pessoas iniciadas no culto a orixá devem também ser apresentadas a Ifá. Se for do caminho da pessoa, a mesma, posteriormente, deverá ser iniciada nesse culto, tornando-se um adifá, alufá, auofákan  ou ianifá.
  6. 6.     Prática que se tornou prosaica nos templos de seus descendentes religiosos
  7. 7.     Mulher infértil.
  8. 8.     Na parte do Baixo Salvador, já havia homens eleguns iniciados para vodum.
  9. 9.     Procópio: notório homossexual, segundo o Grupo Atobá.

10.  LOPES. 2004, p. 544.

11.  Procópio d’Ogum

12.  RODRIGUES. 1982, p. 367.

13.  PENNA, 2008, p. 18.

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